LQFEx/Ministério da Defesa
LQFEx/Ministério da Defesa

'Ele disse que queria o remédio do Bolsonaro', diz filha de paciente que recebeu kit covid

Paciente teve indicação para tomar cloroquina e outros remédios antes mesmo de ter diagnóstico confirmado; medicamento não tem eficácia contra o vírus

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2021 | 05h00

Ao longo da pandemia no Brasil, parte dos médicos e de autoridades - incluindo o presidente Jair Bolsonaro - defendeu o uso de remédios sem eficácia contra o novo coronavírus, como a ivermectina e a hidroxicloroquina. Filha de um paciente que morreu de covid mesmo após a opção pelo kit de remédios, C. relata que o pai não ouviu seus apelos para evitar esses medicamentos. "Ele disse que queria porque era o remédio do Bolsonaro", conta ela. 

Leia o relato:

"Fui diagnosticada com covid no início de dezembro e meu pai, como morava comigo, decidiu fazer o teste. Ele fez o PCR no dia 5 em uma unidade da Prevent Senior e foi orientado a esperar o resultado em casa. Mesmo sem sintomas nem teste positivo, ele já saiu de lá com o kit covid. Tinha azitromicina, cloroquina, vitaminas, corticoide.

Eu e minha mãe também recebemos o kit. Eu cheguei a tomar um comprimido de cloroquina no primeiro dia, mas passei muito mal e decidi parar. Minha mãe também não tomou.

Mas meu pai tomou durante os cinco dias. Eu sabia que esses remédios não têm eficácia comprovada, mas como ele era muito teimoso por questões políticas, nem adiantou eu falar. Ele disse que queria porque era o remédio do Bolsonaro.

O corticoide eu sabia que, se dado na fase inicial, pode até piorar a resposta imune, mas não adiantava falar. Ele ficava o dia inteiro vendo esses vídeos do Bolsonaro no YouTube, não queria nem ouvir a gente criticando ele.

No dia 13 de dezembro, depois que ele já tinha tomado cinco dias de remédios, ele começou a ter sintomas e fez um novo teste. Esse deu positivo. Deram mais um kit para ele, mas, três dias depois, ele piorou e foi internado.

Ele nem queria ir ao hospital, achava que estava bem. Esse kit dá uma falsa sensação de segurança. A pessoa vê os outros falando que deu certo e acha que vai funcionar para ela também. Mas não tem nada provado que esses medicamentos funcionam. Tanto é que eu e minha mãe não tomamos e evoluímos melhor que ele.

No dia 19 de dezembro, um dia depois da internação, ele teve duas paradas cardíacas e foi intubado. Três dias depois, ele morreu. A causa foi covid, mas a gente sempre fica pensando se esse monte de remédio pode ter diminuído as chances dele." 

Adoção de qualquer terapia é responsabilidade dos médicos, diz Prevent Senior

Questionada sobre o caso do paciente, a Prevent Senior afirmou que ele "lamentavelmente faleceu em decorrência da covid-19 depois de chegar ao atendimento médico com mais de 50% do pulmão comprometido". 

Sobre os remédios prescritos, a operadora disse que "a adoção de qualquer linha terapêutica é de responsabilidade dos médicos" e destacou que, tanto na primeira quanto na segunda consulta e posterior acompanhamento do paciente, "não houve queixa de qualquer alteração ou eventos adversos dos remédios".

A empresa disse ainda que tem monitorado, por meio do seu instituto de ensino e pesquisa, "os resultados e evidências clínicas de mais de 130 mil beneficiários testados para covid-19 nos últimos 12 meses".

A Prevent defende que "os dados trazem evidências robustas que o conjunto de tratamentos com diversas medicações evita o agravamento da covid-19 por reduzir a inflamação provocada pelo vírus". As informações não foram publicadas em formato de artigo científico, mas a empresa afirma que estão disponíveis para "qualquer instituição de pesquisa que queira examiná-los".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.