Doug Strickland/NYT
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Ele possui 17.700 vidros de desinfetante para as mãos e não tem onde vender

Amazon, eBay, Walmart e outras plataformas de comércio eletrônico querem impedir que esses vendedores lucrem de modo excessivo numa crise de saúde pública

Jack Nicas, The New York Times

15 de março de 2020 | 10h00

Em 1º de março, um dia depois da primeira morte por coronavírus nos Estados Unidos, os irmãos Matt e Noah Colvin, partiram com sua picape prata e foram em busca de alguma quantidade de desinfetante de mão. Em Chattannoga, Tennessee, foram a uma loja Dollar Tree e depois passaram no Walmart, na Stapels e numa loja da Home Depot. Em todas as loja eles limparam as prateleiras.

Nos três dias seguintes, Noah Colvin fez uma viagem de dois mil quilômetros pelo Tennessee e Kentucky, enchendo um caminhão com milhares de vidros de desinfetante para mãos e milhares de pacotes de lenços descartáveis antibacterianos, comprados em “lojinhas modestas de áreas remotas do Estado”, disse seu irmão.

Matt Colvin ficou em sua casa, perto de Chattanooga, preparando embalagens de mais lenços e gel desinfetante que havia encomendado para oferecê-los por intermédio da Amazon. Colvin disse ter postado 300 vidros de gel desinfetante e imediatamente os vendeu por um valor entre US$ 8 a US$ 70 cada um, muito mais do que pagou quando os comprou. Para ele “foi um grande ganho” e para muitos outros isso é tirar proveito de uma pandemia.

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Mas no dia seguinte, a Amazon retirou seus produtos do site, assim como milhares de outras ofertas de desinfetantes, lenços descartáveis e máscaras faciais. A companhia suspendeu alguns vendedores e alertou muitos outros de que, se continuassem a elevar os preços perderiam suas contas. A Ebay seguiu o exemplo e adotou medidas ainda mais rígidas, proibindo todas as vendas de máscaras faciais ou desinfetantes nos Estados Unidos.

Agora, embora milhões de pessoas busquem em vão desinfetantes de mão para se protegerem contra o coronavírus, Colvin, está com um estoque de 17.700 embalagens e não sabe onde vender.

“Foi um enorme impacto. Sair de uma situação em que poderíamos potencialmente colocar nossa família numa boa situação financeira para chegar a este ponto agora, sem saber o que vamos fazer com tudo isto”.

Colvin é um dos milhares de vendedores que montaram estoques de desinfetantes de mão e máscaras que muitos hospitais estão agora racionando, segundo entrevistas feitas com oito comerciantes que vendem seus produtos pela Amazon e postagens em grupos no Facebook e Telegram. Segundo a Amazon, ela removeu recentemente centenas de milhares de ofertas e suspendeu milhares de contas de negociantes por cobrarem preços exorbitantes de produtos relacionados ao coronavírus.

Amazon, eBay, Walmart e outras plataformas de comércio eletrônico querem impedir que esses vendedores lucrem de modo excessivo numa crise de saúde pública. Embora as empresas visem desencorajar as pessoas de açambarcarem esses produtos e elevarem de modo exorbitante seus preços, muitos vendedores já limparam suas lojas locais e começaram a vender os produtos online.

Agora, tanto as prateleiras de lojas físicas quanto digitais estão quase vazias.

Mikeala Kozlowski, enfermeira em Dudley, Massachusetts, vem procurando gel desinfetante de mão desde antes de dar à luz sua primeira filha, Nora, em 5 de março. Quando procurou nas lojas, o produto estava esgotado, e ela até deixou de encher o tanque do seu carro para evitar pôr a mão na bomba. E quando checou na Amazon, o desinfetante não custava menos de US$ 50.

Sites como Amazon e eBay deram origem a uma crescente indústria de vendedores independentes que adquirem artigos difíceis de serem encontrados ou com desconto nas lojas para depois vendê-los online em todo o mundo.

Inicialmente, a estratégia funcionou. Durante semanas os preços dispararam no caso de algumas buscas por desinfetantes, máscaras e lenços na Amazon, segundo uma análise feita por Jungle Scout, do New York Times, que monitora dados para os vendedores na Amazon. E os dados mostram que a Amazon e vendedores terceirizados como Colvin aumentaram seus preços, que depois na maior parte caíram quando a Amazon adotou medidas contra os fortes aumentos, este mês.

Mesmo com os preços altos, as pessoas ainda compram os produtos em massa, e a Amazon fica com uma parcela de 15% sobre as vendas, a Ebay cerca de 10%, dependendo do preço e do vendedor.

Mas as empresas, pressionadas pelas críticas crescentes dos órgãos reguladores e clientes, decidiram adotar ações punitivas. Depois as medidas da semana passada, a Amazon foi mais além, restringindo as vendas de qualquer produto relacionado com o coronavírus no caso de alguns vendedores.

“O aumento excessivo dos preços é uma clara violação das nossas políticas, é contra a ética e em algumas áreas é ilegal”, declarou a Amazon em um comunicado. “Além de extinguirmos essas contas, saudamos a oportunidade de trabalhar diretamente com o Ministério Público dos Estados de modo a punir os comerciantes de má-fé”.

Colvin, 36 anos, ex-sargento da Força Aérea, disse que começou a vender através da Amazon em 2015, oferecendo tênis Nike e bichinhos de pelúcia e acompanhando as tendências do mercado.

No início de fevereiro, quando a propagação do coronavirus na China começou a ser divulgada nos jornais, ele viu aí uma chance de lucrar. Uma empresa vizinha em liquidação estava vendendo dois mil produtos remanescentes de uma empresa extinta. Cada embalagem continha 50 máscaras faciais, quatro garrafinhas de gel desinfetante e um termômetro. Cada pacote custava cinco dólares. Colvin conseguiu baixar o preço para US$ 3,50 e comprou todo o estoque.

Rapidamente ele vendeu duas mil embalagens de 50 máscaras faciais no Ebay, cobrando entre US$ 40 e US$ 50 cada uma, às vezes mais.

O sucesso despertou seu apetite. Quando viu começar o pânico da população à procura de desinfetantes e lenços descartáveis, ele e seu irmão começaram a fazer estoques do produto.

E todos os que vendem através da Amazon estavam fazendo a mesma coisa.

Chris Anderson, um desses vendedores, sediado na Pensilvânia, disse que ele e um amigo viajaram até Ohio para comprar 10 mil máscaras faciais. Ele usou cupons para comprar embalagens de 10 máscaras por US$ 15 cada uma e as revendia por US$ 40 a US$ 50. Ele calcula ter obtido um lucro com as vendas de US$ 25 mil. Agora tem um estoque de 500 embalagens de lenços descartáveis antibacterianos, uma vez que a Amazon o impediu de vendê-las a US$ 19 cada uma. Ele pagou US$ 3 por cada embalagem.

Colvin não acha que estava cobrando um preço exorbitante. Embora cobrasse US$ 20 na Amazon por dois vidros de Purell, que na loja custa US$ 1, ele diz que as pessoas esquecem que no preço está embutido o seu trabalho, a taxa cobrada pela Amazon e US$ 10 do envio do produto.

As leis vigentes sobre preços exorbitantes “não foram estabelecidas para os dias de hoje. Mas para o posto de gasolina de Billy Bob que dobra o preço do combustível durante um furacão”, disse Colvin.

Mas qual o sentido moral de açambarcar produtos que podem impedir a propagação do vírus apenas para obter lucro?

Colvin disse que está apenas resolvendo “ineficiências no mercado”. Algumas áreas do país precisam desses produtos mais do que outras e ele está ajudando a suprir a demanda.

“Existe uma demanda avassaladora em algumas cidades neste momento. Mas o Dollar General, que fica no meio do nada na região de Lexington, Kentucky, não tem essa demanda.

“Honestamente, considero este um serviço público. Estou sendo pago pelo meu serviço público.

Quanto ao seu estoque, ele disse que provavelmente tentará vendê-lo localmente.

“Se conseguir obter algum lucro, ótimo. Mas não desejo me ver numa situação em que apareço na primeira página do jornal por ser aquele sujeito que açambarcou 20 mil vidros de desinfetante de mão e os vendeu por um preço vinte vezes maior do que pagou”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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