Eliminar a malária é impossível sem uma vacina, dizem especialistas

Revista Lancet faz edição especial com artigos sobre as perspectivas para vencer a doença

Associated Press, AP

29 Outubro 2010 | 17h19

A eliminação da malária, um flagelo que mata mais de 860.000 pessoas a cada ano, seria um sonho para milhões, mas especialistas dizem que, por enquanto, a meta é totalmente irreal.

 

Essa visão, expressada or importantes cientistas, diverge de anúncios feitos pela Fundação Bill & Melinda Gates e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que manifestaram o desejo de livrar o mundo da doença.

 

"Longe de ser corajosa, a retórica em torno da eliminação da malária frequentemente é ingênua", disse o editor da revista médica Lancet, Richard Horton.

 

"Para a África subsaariana, é uma meta absolutamente impossível por ora", declarou, citando os fracos sistemas de saúde dos países e a escassez crônica de medicamentos, entre outros problemas.

 

A ideia de eliminação da malária foi examinada em uma série de artigos da Lancet desta sexta-feira, 29. Especialistas analisaram questões como a viabilidade de erradicar a doença, e os custos.

 

Acabar de vez coma malária sai muito mais caro que apenas controlá-la, e economistas advertem que os altos custos não seriam necessariamente compensados por economia futura.

 

Embora a pesquisa sugira que eliminar a doença pode ser factível na América Latina e na Ásia, seria quase impossível na África, onde a maior parte do total estimado de 247 milhões de casos anuais ocorre.

 

A malária é tratável quando identificada, mas é especialmente letal para crianças com menos de cinco anos.

 

Um dos principais obstáculos no caminho da eliminação é a inexistência de uma vacina para malária. A candidata mais promissora ainda este em testes, mas na melhor das hipóteses tem apenas 50% de eficácia.

 

Em comparação, as quatro vacinas usadas para erradicar a pólio - uma iniciativa em andamento há duas décadas - funciona cerca de 95% das vezes.

Outros especialistas dizem que mais de 70 países, incluindo EUA, Cingapura e Itália, já eliminaram a malária, e que muito pode ser feito com os recursos disponíveis atualmente, como telas para camas e drogas. Desenvolvimento econômico e melhores padrões de vida também ajudariam.

 

"Não devemos cair na síndrome de 'Esperando Godot' que solapa fortes progressos enquanto todo mundo espera a vacina ideal chegar", disse Sir Richard Feachem, que já encabeçou o Fundo Global para Combate à Aids, Tuberculose e Malária.

 

Mas, como a malária é transmitida por mosquitos, eliminar a doença será particularmente difícil. Ao contrário de vírus como o da pólio, que só se disseminam entre humanos, a eliminação da malária exigira que o parasita fosse removido também de bilhões de insetos.

 

Richard Tren, diretor do grupo África Contra a Malária, disse que as autoridades sanitárias foram demasiadamente influenciadas pelos ambientalistas e negligenciaram a necessidade de novos pesticidas. "Não se pode parar uma doença transmitida por insetos sem mais inseticidas", disse ele.

 

Tentativas anteriores de eliminar a malária no geral fracassaram em países em desenvolvimento. A OMS havia iniciado um programa de erradicação em 1955, mas o abandonou em 1969. Em 1998, a OMS e outros grupos formaram uma parceria para reduzir a prevalência da doença. Anos mais tarde, descobriram que o total de casos havia, na verdade, aumentado.

 

Robert Newman, diretor do programa de malária da OMS, disse que seriam necessários 40 anos ou mais para eliminar a doença. "No caminho para a meta final... há oportunidades para tremendos sucessos de saúde pública", disse ele.

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