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Em 10 anos, taxa de HIV entre adolescentes do sexo masculino triplica na capital paulista

Número geral de novos casos de HIV caiu 22% de 2004 a 2014, segundo dados apresentados pela Secretaria Municipal da Saúde

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

26 Novembro 2015 | 17h14

Embora o número geral de novos casos de HIV tenha caído 22,1% nos últimos dez anos na cidade de São Paulo, a taxa de detecção do vírus quase dobrou entre homens jovens e triplicou entre adolescentes do sexo masculino. Durante apresentação do balanço do HIV na capital, ontem, o secretário municipal da Saúde, Alexandre Padilha, informou que as novas infecções são registradas principalmente entre gays - de 2005 a 2014, a taxa de detecção do vírus entre homens que fazem sexo com homens cresceu 57,4%.

O balanço municipal mostra que o índice de casos detectados por 100 mil homens passou, de 2005 a 2014, de 2,6 para 8,5 na faixa etária de 15 a 19 anos e de 22,2 para 43,3 no grupo com idade entre 20 e 24 anos. Já entre a população geral, a taxa caiu de 27,1 para 19,8 no mesmo período. “São Paulo enfrenta hoje uma epidemia concentrada entre jovens do sexo masculino. Uma das causas é que as pessoas estão fazendo testes mais precocemente, mas há também entre essa população uma menor sensibilização aos riscos da aids”, disse Padilha. 

A concentração de novos casos entre jovens do sexo masculino é um cenário que se repete no País. O número de novos casos entre adolescentes de 15 a 19 anos cresceu 53% entre 2004 e 2013, último dado disponível.

Padilha afirmou que há dificuldade de convencer os mais jovens a se prevenir. Pesquisa da secretaria com 4 mil paulistanos mostrou que 97% dos entrevistados sabem que a camisinha é o meio mais eficiente de prevenção da aids, mas apenas 39% usam o preservativo na primeira relação. “A impressão que temos é de que a população está mais informada, mas ainda não tem uma atitude de prevenção adequada”, disse.

Os dados da secretaria mostram ainda que a taxa de detecção de novos casos é maior entre negros e na região central, onde estão alguns grupos mais vulneráveis à contaminação, como garotas de programa e usuários de droga.

Banalização. Para o infectologista do Instituto Emílio Ribas Jean Gorinchteyn, os jovens estão banalizando a infecção. “As pessoas confundem o fato de o HIV ter tratamento com a possibilidade de cura. É possível viver com o vírus, mas é preciso lembrar que os remédios devem ser tomados para o resto da vida e têm efeitos colaterais.”

Para tentar frear o aumento de infecções entre jovens, a secretaria municipal anunciou que vai aumentar a distribuição de camisinhas, a realização de testes e o número de pacientes com acesso à profilaxia pós-exposição (PEP) - medicamento indicado para os que tiveram risco de contato com o vírus. 

Segundo Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum ONGs Aids de São Paulo, o acesso à PEP ainda é insuficiente em São Paulo e quase inexistente em muitos locais do País. “É preciso pensar nessas formas alternativas de prevenção e também em diminuir o preconceito em relação aos gays. Enquanto eles continuarem estigmatizados, estarão sempre em situação de maior vulnerabilidade e risco”, afirmou Pinheiro.

Ativista da luta contra a aids, Pierre Freitaz se infectou aos 15 anos, quando teve uma relação desprotegida com o namorado. “Na época tínhamos poucas informações de qualidade sobre a aids e muitos dos estigmas continuam até hoje. As pessoas ainda acham que quem tem o vírus tem alguma debilidade, é muito magro, e se esquecem que o HIV pode atingir qualquer um”, disse ele, que hoje tem 28 anos e integra a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/aids.

Aplicativo para jovens calcula risco de contrair vírus

Para tentar sensibilizar o público jovem sobre a importância da prevenção e da detecção do HIV, a Secretaria Municipal da Saúde criou um aplicativo de celular em que é possível calcular o risco de contrair o vírus de acordo com as características de uma relação sexual efetivada.

Batizado de Tá na Mão, o aplicativo traz os endereços de onde fazer o teste, retirar camisinhas e ter acesso à profilaxia pós-exposição. "É um aplicativo que todos podem utilizar, mas criamos pensando sobretudo no público gay, que costuma marcar encontros por aplicativos", diz Eliana Battaggia Gutierrez, coordenadora do programa municipal de DST/Aids de São Paulo.

A secretaria também anunciou que a Prefeitura assinará hoje compromisso de, até 2020, ter 90% da população com HIV no município diagnosticada, tratada e com carga viral indetectável, o que evita a transmissão. A ação faz parte do Dia Mundial de Luta contra a Aids, celebrado no dia 1º de dezembro. 

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