NILTON FUKUDA/ESTADÃO 30/04/2020
Paciente com covid atendido em hospital em São Paulo. Estado tem mil pacientes em espera por leitos NILTON FUKUDA/ESTADÃO 30/04/2020

Em 13 Estados e DF, 4,3 mil pacientes da covid-19 estão na fila por leito

Ao menos 2.257 precisam de UTI; 14 secretarias de saúde informam ter doente em algum grau de espera e só seis disseram que não têm fila

Fabiana Cambricoli e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 05h00

Correções: 10/03/2021 | 08h32

Pelo menos 4.352 pessoas diagnosticadas ou com suspeita de covid-19 aguardavam nessa terça-feira, 9, por um leito de atendimento em hospitais do País – 2.257 delas estavam na fila da UTI. O dado, que reforça a noção de descontrole da pandemia, foi obtido pelo Estadão com base em um levantamento com as secretarias estaduais de Saúde. Na terça, o Brasil registrou 1.954 mortes pelo novo coronavírus em 24 horas, maior balanço diário desde o começo da crise sanitária. 

Treze Estados e o DF informaram ter paciente em algum grau de espera, seis disseram que não têm fila e sete não responderam ou disseram não ter os dados consolidados de lista de espera. Dezesseis Estados apresentavam ontem taxa de ocupação de UTIs igual ou superior a 80%.

A situação mais crítica é a do Paraná, Estado que registra a maior fila, com 1.071 doentes aguardando transferência anteontem – 519 deles por um leito de terapia intensiva. Na sequência estava São Paulo, com mil pacientes na espera (não foram especificados quantos são por UTI ou por leitos clínicos).

Os outros Estados da região Sul, que vêm registrando cenas de colapso desde a semana passada, continuam em situação crítica. São 388 nomes na lista de espera por UTI em Santa Catarina – que tem a maior taxa de ocupação do País (99,16%) – e 248 no Rio Grande do Sul. Também em situação delicada está a Bahia, onde 326 pacientes aguardavam ontem por uma vaga de UTI (veja quadro nesta página).

'Temos de escolher quem mandar para a UTI'

Infectologista de dois dos maiores hospitais de Porto Alegre (um público e outro privado), Alexandre Zavascki conta que os profissionais estão tendo de utilizar respiradores não ideais para pacientes com covid diante da falta de equipamentos do tipo. “São respiradores que seriam adequados para um paciente que está apenas anestesiado durante uma cirurgia. Não são ventiladores com capacidade plena em todos os parâmetros”, diz o especialista.

Ele relata ainda que a tão temida escolha de quais pacientes priorizar em um cenário de colapso já está acontecendo no Rio Grande do Sul. “A gente vê pacientes graves no leito comum e sabe que não tem vaga. Temos de escolher quem mandar para a UTI e alguns deles não resistem a essa espera”, diz.

Zavascki conta que o Hospital Moinhos de Vento, uma das unidades onde ele atua, chegou ao ponto de não ter mais espaço físico para a colocação de camas. “Abrimos uma sala que era de recuperação pós-cirúrgica para leitos covid e lotou. Depois, abrimos uma sala maior desse tipo para covid e também lotou. Agora, abrimos a sala de recuperação pós-cirúrgica infantil e está indo para o mesmo caminho. Não tem mais para onde expandir. O próximo passo do colapso é as pessoas morrerem nas ambulâncias ou em casa”, disse ele.

No Pará, embora a rede pública ainda não tenha entrado em colapso, os hospitais privados já não têm como aceitar mais doentes, segundo relato do médico Robson Tadachi, diretor técnico de uma das unidades da Unimed Belém.

Ele conta que a operadora não encontra leitos disponíveis nos hospitais da rede credenciada. “Chego a ter 50 pacientes na espera por dia e todas as unidades que pedimos leitos estão lotadas. É uma sensação de enxugar gelo porque chegam cada vez mais pacientes”, diz.

Um exemplo da situação dramática pela qual passa o Brasil ocorreu no fim de semana passado, quando o governo de Mato Grosso acionou o sinal de alerta. Mesmo com uma fila não tão grande na comparação com outros Estados – 44 à espera de uma vaga de UTI –, mas com a segunda maior taxa de ocupação do País (98,96%), a Secretaria de Saúde enviou um pedido de ajuda para outros Estados.

O secretário checou se alguém tinha condições de aceitar transferência de pacientes do Estado com covid-19. Com um nível de ocupação elevado em todo o País, nenhum deles respondeu positivamente.

No sábado, a morte de um enfermeiro de Cuiabá comoveu os profissionais de saúde do Estado. Ele havia trabalhado por anos, até se aposentar, no pronto-socorro municipal da cidade e acabou morrendo justamente pela falta de leito de terapia intensiva.

O momento de expansão desenfreada do vírus observado em todo o País é agravado pela exaustão dos profissionais de saúde. “Estamos vivendo um momento de muita piora mesmo e a grande dificuldade é não ter um auxílio do governo, então não tem como fazer um isolamento efetivo”, comenta o infectologista Bruno Ishigami, do Hospital Oswaldo Cruz, de Recife. O Estado tinha ontem 95% de ocupação dos leitos de UTI públicos.

“Isso está nos angustiando. Só escuto meus amigos falando: ‘velho’, eu não aguento mais, tô cansado. É 2020 se repetindo, estamos presos no ano passado, só que está pior”, lamenta o médico. “A explosão de casos ainda não se refletiu muito em aumento de mortes, mas imaginamos que logo vai acontecer, o que está nos dando muito medo. Se no Rio Grande do Sul a segunda onda foi muito pior, aqui como vai ser?”

Correções
10/03/2021 | 08h32

O texto original contava o Distrito Federal como Estado.  

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Seis Estados falam em déficit de pessoal e em 4 há risco de falta de remédios

Há relatos de exaustão de trabalhadores da linha de frente; no Paraná, o estoque de drogas é suficiente para apenas mais 30 dias

Fabiana Cambricoli e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 05h00

Os números de lotação e fila de espera não são os únicos a indicar a saturação do sistema de saúde no Brasil, com o avanço da covid-19. Em levantamento feito pelo Estadão, seis Estados - Paraná, Minas, Rondônia, Espírito Santo, Goiás e Rio Grande do Norte - relataram falta de profissionais de saúde ou dificuldades na contratação ou na organização da escala. Quatro (Maranhão, Pará, Rondônia e Roraima) apontaram problemas no abastecimento de medicamentos usados no processo de entubação, como sedativos, anestésicos e relaxantes musculares.

No Paraná, o estoque dos remédios é suficiente para apenas mais 30 dias e faltam “profissionais de saúde de todas as especialidades”, disse a secretaria. “Não há mais interessados em ampliar sua carga de trabalho por causa das dificuldades no enfrentamento da doença.”

A Secretaria da Saúde de Minas Gerais já realizou 75 chamamentos para contratação emergencial desde o início da pandemia. No último deles, aberto em 18 de fevereiro para preencher vagas do Hospital Eduardo de Menezes, referência na capital mineira para covid, nenhum dos dez postos de médicos oferecidos foi preenchido.

Em Rondônia, o problema é semelhante. “Estamos no 85.º chamamento para contratação de médicos, porém não estamos conseguindo”, disse a secretaria. Espírito Santo, Goiás e Rio Grande do Norte também relataram dificuldades para preencher o quadro de trabalhadores da rede hospitalar.

Médicos de Rio Grande do Sul, Pará e Mato Grosso do Sul relataram à reportagem viver o mesmo problema. “Estamos com 15 vagas de enfermagem nível técnico e não conseguimos preencher. Dois médicos já avisaram que vão sair porque receberam outras propostas. Está o Brasil inteiro atrás de profissionais”, diz Demetrius do Lago Pareja, diretor do Hospital Regional de Ponta Porã (MS).

Sobre os medicamentos usados na entubação, Roraima, Rondônia e Maranhão disseram que tem sido um desafio encontrar fornecedores. Segundo a secretaria do Estado do Nordeste, há aumento de preços e da escassez de produtos no mercado. A pasta informou que o bloqueador neuromuscular é o medicamento com maior dificuldade de aquisição, mas disse que ainda possui estoque para os próximos 45 dias.

A Secretaria da Saúde do Pará, por sua vez, afirmou que os hospitais da rede estão com os estoques desse tipo de remédio em nível crítico.

Segundo o levantamento do Estadão, o único recurso em situação menos preocupante foi o fornecimento de oxigênio. Depois do colapso de Manaus (AM) em janeiro, quando pacientes internados morreram por falta do gás, os Estados ouvidos pela reportagem disseram que, mesmo com aumento do consumo, pelo menos por enquanto não há risco de falta. Já há, porém, queixas pontuais em algumas cidades.

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