Em 2 semanas, Ebola dobra e ONU pede US$ 1 bilhão para frear vírus

Doença ameaça se transformar em 'desastre humanitário'; para especialistas, previsão de 20 mil infectados pode ser superada logo

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2014 | 09h13

GENEBRA - O surto do Ebola dobra em apenas duas semanas e já infecta quase 5 mil pessoas, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) alerta que a crise ameaça se transformar em um "desastre humanitário" e pede US$ 1 bilhão para frear o vírus. Em uma reunião de emergência em Genebra nesta terça-feira, 16, especialistas afirmaram que a previsão de 20 mil pessoas afetadas em seis meses pode ser rapidamente superada se uma ação mundial não for realizada nos próximos dias. 

Há apenas um mês, a ONU estimava que a crise custaria US$ 100 milhões. Hoje, a entidade calcula que a resposta exigirá US$ 1 bilhão. O financiamento seria necessário para proteger os 22 milhões de pessoas da região do oeste da África. Apenas 30% desse valor foi coletado por enquanto.

De acordo com o balanço mais recente da Organização Mundial de Saúde (OMS), 4985 pessoas foram afetadas pelo vírus, principalmente em Serra Leoa, Libéria e Guiné. As mortes chegaram a 2461 pessoas - 50% delas ocorreram em apenas 20 dias. Entre 60% e 70% dos infectados são mulheres por ser justamente elas que costumam cuidar dos doentes.  

"Estamos vendo o vírus se acelerar de uma forma exponencial. Não sabemos mais para onde os números vão", admitiu Bruce Aylward, um dos responsáveis pelo programa de resposta da OMS. Há duas semanas, ele havia anunciado que o projeto da ONU era o de estar preparado para atender até 20 mil pessoas. "Hoje, esse número não parece ser mais tão grande", alertou. 

"Trata-se de um surto sem paralelo em tempos modernos", disse Aylward. "O que começou como um surto há seis meses, hoje é uma ameaça de uma catástrofe humanitária", alertou. 

Nos últimos dias, Washington anunciou o envio de 3 mil soldados para a Libéria, além da ajuda anunciada por Cuba, Europa e China. Mas um dos problemas é que centenas de pessoas contaminadas não estão sendo isoladas. "O vírus ainda circula pelas comunidades", disse o coordenador.  

David Nabarro, escolhido pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, para liderar o esforço internacional, confirma que a operação que está sendo organizada é "uma das maiores já montadas pela ONU". 

Questionado pelo Estado sobre o motivo pelo qual a resposta começa a chegar apenas seis meses depois do início do surto, Nabarro foi evasivo. "Não quero falar do passado. O que vamos ter a partir de agora é algo excepcional", disse. "Vamos enfrentar o vírus com a mesma força que ele hoje tem", completou. 

Valerie Amos, coordenadora de Assuntos Humanitários da ONU, também lançou seu alerta. "Se essa crise não tiver uma resposta, ela se transformará num desastre humanitário", disse. Hoje, segundo ela, o sistema de saúde dos países afetados está "à beira do colapso" e o número de mortos por malária e outras doenças aumentou de forma surpreendente nas últimas semanas. 

Plano. A ONU estima que vá precisar de US$ 190 milhões apenas para conseguir identificar as pessoas contaminadas, além de US$ 23 milhões para garantir que enterros sejam modificados para não continuar sendo um vetor de transmissão. 

Os centros de atendimento custarão US$ 331 milhões, enquanto o envio de alimentos para mais de 1 milhão de pessoas presas em zonas isoladas exigirá doações de US$ 107 milhões. 

O projeto ainda estima que mais de 1,5 mil profissionais de saúde tenham de ser enviados de todo o mundo para a região. 

Segundo o governo brasileiro, remédios e equipamentos para atender a 7,5 mil pessoas, além de US$ 1 milhão, foram doados pelo Ministério da Saúde. A OMS exige mais do Brasil.

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