Juan Carlos Torrejon/ EFE
Juan Carlos Torrejon/ EFE

Dono da União Química acusa Anvisa de barrar Sputnik e favorecer Doria, PT e PCdoB; agência rebate

Ouça o áudio em que Fernando Marques fala sobre supostos interesses políticos para barrar vacina contra covid

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 13h42
Atualizado 18 de março de 2021 | 18h42

BRASÍLIA - Sem ainda ter conseguido liberação para distribuir a vacina russa Sputnik V no Brasil, o dono do laboratório União Química, Fernando Marques, gravou um áudio enfurecido em que acusa a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de interesses políticos para barrar o produto. A mensagem, de pouco mais de 2 minutos, foi enviada originalmente ao empresário bolsonarista Luciano Hang, dono das lojas Havan, mas o Estadão apurou que chegou ao presidente Jair Bolsonaro. A agência afirma que a União Química ainda precisa entregar dados sobre segurança e eficácia da vacina para conseguir a aprovação.

Marques afirma que a demora da Anvisa em dar aval ao imunizante russo tem como objetivo favorecer o Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, que produz a Coronavac, e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), fabricante da vacina AstraZeneca/Oxford.

Na versão do empresário, a intenção é beneficiar o governador de São Paulo, João Doria, no caso do Butantã, e o PT e o PCdoB, que têm a Fiocruz "na mão".

"Eles querem manter a coisa com a Fiocruz e com o Instituto Butantã. Butantã na mão do Doria e Fiocruz na mão do PT, PCdoB. E, porra, não tem vacina, o povo tá morrendo", afirma Marques no áudio obtido pelo Estadão.

O empresário reclama ainda de ter sido "humilhado" em uma reunião com o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, na semana passada. O atual chefe da agência é contra-almirante da reserva da Marinha e foi indicado ao cargo por Bolsonaro no início do governo.

"É uma loucura. Eu estive com o Barra na semana passada. Ele só faltou.. me mandou acompanhado até o carro. Fui humilhado. Parece que é um criminoso alguém que quer trazer a vacina ao Brasil, que está sendo usada pelos russos, independente, em mais de 40 países", diz. 

A União Química pretende distribuir a vacina russa no Brasil, mas, segundo a Anvisa, ainda não entregou os dados necessários sobre o produto. Técnicos da agência e da farmacêutica tiveram reunião na quarta-feira, 17, e devem voltar a se encontrar na próxima segunda-feira, 22. Há expectativa de que seja feito um pedido de uso emergencial da vacina após essa conversa.

Em nota enviada na quarta-feira, 17, sobre reunião com a União Química, a Anvisa disse que a empresa apresentou "informações sobre qualidade, eficácia e segurança da vacina". "Entretanto, o relatório oficial não foi enviado", afirma a agência. Segundo o órgão, "estão pendentes dados essenciais para a análise, que estão sendo discutidos entre as partes". A agência disse que orienta a submissão do pedido de uso da vacina apenas quando forem apresentados dados sobre a população-alvo da vacina, características do produto, os resultados dos estudos pré-clínicos e clínicos e "a totalidade das evidências científicas disponíveis relevantes para o produto". "Essas informações fazem parte dos resultados provisórios de um ou mais ensaios clínicos de fase III e indicam que os benefícios da vacina superam seus riscos, de forma clara e convincente", afirmou a Anvisa na nota.

A empresa, porém, alega que já protocolou um pedido de aval emergencial em janeiro, mas que este foi ignorado pela Anvisa. A agência alega que a solicitação foi devolvida por falta de "requisitos mínimos".

"Eu tenho comprovante eletrônico que entrei com o pedido dia 14 de janeiro. E eles suspenderam a análise. E eles negam que entrei. É uma coisa surreal. Entendeu?", afirma Marques.  "É surreal o que estou passando. E esse povo não tem coração. Matando as pessoas por falta de vacina. É uma loucura", disse o dono da União Química no áudio que chegou a Bolsonaro.

Apesar de Marques citar Doria, PT e PCdoB como beneficiados pelo atraso no aval à Sputnik, o tucano e governadores dos dois partidos de oposição a Bolsonaro já demonstraram interesse em comprar doses do imunizante russo.

Governadores do Consórcio do Nordeste fecharam um contrato de 37 milhões de vacinas Sputnik, que serão adquiridas diretamente com o Fundo Russo de Desenvolvimento Direto (RDIF). O grupo inclui nome do PT, como Camilo Santana, de Pernambuco, e Wellington Dias, do Piauí, e Flávio Dino (PCdoB), do Maranhão.

Bolsonaro cita 'lobby' de laboratório

A apoiadores, na manhã desta quinta-feira, 18, Bolsonaro disse que recebeu reclamações de um laboratório “conhecido” sobre a Anvisa, mas não citou o nome da União Química.

“Outra empresa, grande, conhecida. Tem 20 milhões de doses para vender e não consegue. Daí um cara falou comigo. Falei: não posso interferir. Não posso, não. Não vou interferir na Anvisa”, disse Bolsonaro. 

O presidente afirmou que ligou para um “colega” da Anvisa e questionou sobre o caso. “Essa vacina aí, entraram com papel? ‘Nenhum papel’. Mas estão falando que vocês receberam papéis e não querem comprar as 20 milhões de vacinas. ‘Presidente, não recebemos nada. Protocolo está aqui, à disposição’”, relatou Bolsonaro, em frente ao Palácio da Alvorada.

“Por que outro país não compra essas 20 milhões de doses?”, questionou o presidente. “Por que querem vender para nós, sem certificação, sem nada? Isso é lobby? Comigo não vão fazer lobby”, disse ele.

O laboratório de Marques tem uma poderosa equipe de lobby, formada pelo próprio dono da empresa, o ex-deputado federal Rogério Rosso (PSD) e o ex-diretor da Anvisa Fernando Mendes.

Marques foi candidato ao Senado em 2018, pelo Solidariedade, partido do deputado Paulinho da Força (SP). O empresário declarou na época ter R$ 667 milhões em bens, maior fortuna de um candidato naquelas eleições, mas foi derrotado.

Na mensagem de áudio, o empresário ainda afirma que a Rússia se comprometeu a enviar 10 milhões de doses ao País entre abril e maio, mas alerta que a Anvisa não liberou o uso da vacina. Trata-se do volume já contratado pelo Ministério da Saúde.

"Não estamos falando de coisa política não, é realidade. Olha o que tá acontecendo, não pode ficar dessa forma. É uma coisa surreal, não sei mais o que fazer", afirma ainda Marques.

A União Química confirmou a autenticidade do áudio. Disse que a fala foi feita em momento de "desespero" do empresário. Por meio de sua assessoria de imprensa, porém, disse que a intenção não era que chegasse a Bolsonaro, apesar de Marques iniciar a mensagem tratando o interlocutor como "presidente" e se apresentando como "empresário do ramo farmacêutico".

"Fernando de Castro Marques, como cidadão, fez um desabafo emocionado ao também empresário brasileiro Luciano Hang, presidente da Havan, ao qual trata de 'presidente' sobre a enorme barreira para viabilização da vacina Sputnik no Brasil", diz a empresa.

"O imunizante já vem sendo aplicado em mais de 40 países, salvando milhões de vidas, e aqui seguimos sem autorização para importar e produzir", completa a União Química. A eficácia do imunizante é de 91,6%, segundo dados publicados na revista científica "The Lancet".

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