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Em Belém, IML demora 12 horas para buscar corpo de homem que morreu em casa

Angelo Madson relata situação ocorrida com o sogro, Ivens Rodrigues da Costa, que apresentava os sintomas da covid-19

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2020 | 11h00

Ivens Rodrigues da Costa, 69 anos, sentia há alguns dias os sintomas da covid-19. Estava sendo tratado em casa, pelo genro e pela filha, já que não queria recorrer ao superlotado sistema de saúde de Belém. Ainda mais depois de ter passado horas antes por uma experiência ruim em uma Unidade de Pronto Atendimento na capital paraense. Na madrugada de 19 de abril, ao se levantar da cama, ele perdeu o equilíbrio e tentou se apoiar em um ventilador de pé, que quebrou. A morte de Ivens ocorreu às 5h e seu corpo só foi levado para o IML 12 horas depois.

É com um misto de emoção e revolta que o genro de Ivens, o sociólogo Angelo Madson, conta a história da espera da remoção do corpo. "Ele era meu braço direito. Quando eu precisava viajar, ele cuidava da família", conta Madson. O sogro morava com ele e com a filha há mais de um ano, na parte de cima de um imóvel ainda em construção - o casal e os dois filhos são moradores do andar de baixo - na periferia de Belém. As obras estavam no fim quando o mestre de obras adoeceu. Ele tranquilizou Ivens, dizendo que estava bem. Mas foi aí que o idoso começou a se sentir mal.

O sociólogo conta que, no início da pandemia, sugeriu a interrupção das obras. Mas a ideia não foi adiante. "Meu sogro falou que as obras iam continuar somente com ele, o mestre de obras e o ajudante. Isso foi há um mês e meio, naquela época não estava como hoje, as pessoas não tinham orientação para usar máscara", explica Madson. Ele conta que Ivens passava a maior parte do tempo recluso no quarto, vendo televisão.

De acordo com Madson, Ivens ficou com os sintomas da covid-19 por nove dias, sem querer ir a uma UPA. "Com o sistema de saúde em colapso, ele tinha medo de sair de lá direto para o cemitério", diz o sociólogo. No dia 18 de abril, Madson notou que o sogro tinha dificuldade para respirar e que as extremidades das mãos estavam roxas.

Mesmo se negando a sair de casa, Ivens foi levado a uma UPA pelo genro e pela filha. "Quando chegamos lá não tinha nada. A enfermeira disse que ele precisava de oxigênio com urgência, mas não sabia onde poderia ter em Belém. Deram uma injeção na mão dele para ele melhorar, não foi me permitido ficar com o documento de atendimento, a enfermeira puxou da minha mão. A prefeitura sabia da debilidade, então não queria criar provas contra si", afirma Madson que, junto com a mulher, tratava do idoso com sessões de nebulização com soro fisiológico.

Às 3h do dia 19, Madson foi ver se o sogro precisava de algo. Ivens estava com a língua enrolada, com dificuldade para respirar. O sociólogo tentou levá-lo novamente para atendimento, mas o idoso não quis. Duas horas depois, Madson escutou um barulho no andar de cima. Foi verificar o que era e encontrou Ivens no chão. "Tentei fazer de tudo, mas ele não dava resposta, estava sem batimento cardíaco", lembra Madson.

Ao fazer o boletim de ocorrência para registrar a morte do sogro em uma delegacia, Madson ouviu dos policiais que o IML estava removendo naquele domingo de manhã os mortos do dia anterior. O corpo só foi retirado da casa às 17h. Um jornalista amigo de Madson avisou a secretária de comunicação do Pará, que intercedeu. Segundo o sociólogo, o atestado de óbito de Ivens atribui a morte à "síndrome respiratória aguda grave dependendo de exames complementares". "Mas o enterro dele seguiu o protocolo da covid-19. Ele foi enterrado com a bermuda que vestia quando morreu. Não houve tratamento de corpo", conta Madson.

Agora, Madson e a família estão no escritório da webrádio Idade Mídia Comunicação para Cidadania, no centro de Belém. O sociólogo acredita que também foi infectado. "Estou isolado dentro do estúdio. Não abraço minha família nem chego perto. Fico o tempo todo de máscara", diz o sociólogo. A mulher dele testou positivo para covid-19.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Belém afirma que irá apurar o que ocorreu na UPA. O IML de Belém esclarece que faz a remoção apenas dos corpos que sofreram mortes violentas. A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) não respondeu os questionamentos do Estado.

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