Em Bonaire, caçar peixes-leões virou atração turística

Operadoras de turismo já oferecem mergulhos guiados do tipo safári, especificamente para caçar essa espécie

Herton Escobar,

25 Junho 2011 | 15h55

Caçar peixes-leões virou uma febre em Bonaire nos últimos meses, desde que os primeiros arpões ELF começaram a ser distribuídos pela administração do Parque Nacional Marinho (que cobre todos os ecossistemas costeiros da ilha, até 60 metros de profundidade). Algumas operadoras de turismo já oferecem mergulhos guiados do tipo safári, especificamente para caçar peixes-leões, e vários moradores também mergulham quase que diariamente para isso, praticando uma mistura de serviço ambiental com esporte radical.

Há até um grupo no Facebook, no qual caçadores trocam informações sobre a localização de peixes-leões e as melhores técnicas para caçá-los e cozinhá-los.

John e Cindi Jensen, um casal de americanos aposentados, são os maiores predadores da espécie na ilha, com mais de 800 peixes-leões arpoados desde janeiro de 2010. Eles mergulham regularmente para caçar, de três a quatro vezes por semana, e competem com os amigos para ver quem mata mais peixes-leões.

A motivação principal, segundo eles, é ambiental. "Isso aqui é a nossa casa", afirma John, apontando para o mar de águas transparentes, logo ali ao lado. "Não podemos deixar que o peixe-leão tome conta de tudo." Ao mesmo tempo, não conseguem mascarar a adrenalina que sentem durante as caçadas. "Temos de admitir que é um esporte viciante", afirma Cindi, que já se picou várias vezes manuseando os peixes debaixo d'água, e nem por isso perdeu o entusiasmo pela caça. (O veneno dopeixe-leão não é letal para seres humanos, mas causa dor intensa e inchaço por várias horas se não for tratado rapidamente. O melhor remédio é colocar a área afetada em água quente, o que "quebra" a proteína do veneno.)

Uma vez, Cindi e John arpoaram 69 peixes-leões em um único mergulho, com um casal de amigos. Mas não dizem exatamente onde, para evitar que caçadores menos experientes vão para lá e espantem os peixes que sobraram, ou danifiquem os corais com seus arpões. "Você percebe claramente os peixes que já foram atacados mais de uma vez", afirma Cindi. "Eles ouvem nossa respiração debaixo d'água e se escondem imediatamente." Por isso, diz ela, é importante matar os peixes logo na primeira tentativa, para evitar que eles aprendam a reconhecer os mergulhadores como uma ameaça.

Por enquanto, somente residentes recebem autorização para portar ELFs. Há 220 deles espalhados pela ilha. Cada arpão tem um número de série e o usuário assina um contrato com o Parque Nacional, comprometendo-se a não emprestar a arma para ninguém e não matar nenhuma outra espécie além do peixe-leão (o que seria um crime pela legislação local). A administração do parque, porém, tem planos de autorizar turistas a caçar com ELFs também, desde que façam um cursinho preparatório e mergulhem com um guia de mergulho profissional. "Tenho mais cem ELFs reservados para isso", disse ao Estado o gerente do parque, Ramón de León.

Cindi e John são radicalmente contra isso. Temem que os turistas, sem treinamento adequado, assustarão os peixes-leões, tornando cada vez mais difícil caçá-los. Para León, porém, quanto mais gente caçando debaixo d'água, melhor. "A grande vantagem de Bonaire é que temos mergulhadores o ano todo, em grande número, e eles querem ajudar", diz. "Não podemos deixar a população de peixes-leões aumentar demais, e a única maneira de fazer isso é mergulhando."

A moda de caçar peixes-leões é tão intensa que já incomoda algumas pessoas, como o holandês Niels Bouman, um instrutor de mergulho que mora em Bonaire há vários anos. "Não me agrada a ideia de transformar isso num esporte, de transformar opeixe-leão numa espécie de troféu", diz ele. "Entendo que é necessário caçá-lo, e não sou contra isso, mas temos de respeitar todas as formas de vida marinha, incluindo o peixe-leão. Matar animais não é algo que deveria ser divertido em hipótese alguma."

Já Patrick Holian, outro americano aposentado que adotou Bonaire como residência, não se incomoda. "Desde que estejam matando peixes-leões, não me importo se estão se divertindo com isso ou não", argumenta ele. "Eu odeio esse peixe. Quanto mais matarem, melhor."

Se esse esforço de caça está, de fato, tendo um impacto na multiplicação do peixe-leão na ilha, é prematuro dizer. A impressão geral é que sim. Nos recifes que são mergulhados com mais frequência, e o esforço de caça é maior, a abundância de peixes-leões é tipicamente menor do que nos recifes mais afastados e menos visitados, onde o esforço de caça é menor.

"Não tenho dúvida de que a caça está fazendo a diferença", avalia Jerry Ligon, biólogo e instrutor de mergulho em Bonaire há 17 anos. "Não quero nem imaginar como estariam nossos recifes se não estivéssemos fazendo isso."

Há cinco meses Ligon mergulha regularmente com seu arpão no Recife Bari, em frente à empresa onde trabalha, para tentar mantê-lo livre de peixes-leões. Em todos os mergulhos ele mata alguns. E mesmo assim, no mergulho seguinte, sempre aparecem mais, de algum lugar. Para cada peixe-leão morto, sempre parece haver outro pronto para substituí-lo pouco tempo depois.

Os caçadores, infelizmente, nunca voltam de mãos vazias.

 

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