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Em caso de estupro, melhor quebrar tudo

Como em muitos casos de estupro, é comum vítimas contarem que ficaram em choque, anestesiadas, não conseguiram reagir, subservientemente obedecendo a comandos, mesmo contra sua vontade

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2018 | 02h00

Gostaria de começar o artigo estimando o número de decisões que tomamos por dia. Infelizmente não encontrei fonte confiável. O oráculo moderno da internet fala em 35 mil decisões diárias, o que não me parece razoável. 

Para fechar essa conta, ao longo de 24 horas teríamos de deliberar sobre alguma coisa a cada dois segundos e meio. Duvido. Sobretudo porque terceirizamos grande parte das decisões que tomamos na vida. Enquanto escrevo o artigo posso até escolher quais palavras usar, mas depois não posso – nem preciso – pensar sobre a ordem das letras. 

Aliás, a própria estrutura das frases, sentenças e parágrafos requer pouca decisão – devo seguir as regras da gramática (e se as firo, leitor, saiba que o faço mais por ignorância que por rebeldia). Decidir ser compreendido pelos leitores constrange minha liberdade – é preciso obedecer às convenções.

Viver requer sim ações contínuas. Nem todas, porém, são verdadeiras escolhas. Diante de um prato de comida, pronta a garfada não precisamos decidir mastigar e engolir. A propósito, com relação à refeição encontrei dados objetivos: uma dupla de cientistas contou, em média, 220 decisões sobre a alimentação ao longo de um dia. 

A maior parte, contudo, é feita inconscientemente a partir de pistas ambientais. O tamanho do prato influencia na quantidade de comida. As regras sociais ditam a ordem dos alimentos.

Não é só com relação à comida e aos artigos de jornal que nos fiamos no comportamento alheio para guiar o nosso próprio. No trabalho, no clube, na igreja, na fila do açougue, o tempo todo espelhamos os outros para não gastar a energia que requer um raciocínio consciente. Obedecer é muito mais rápido e econômico.

Em situações desconhecidas, inesperadas e ameaçadoras, então, nem se fale. Nas catástrofes sempre há histórias de sobrevivência miraculosa – ou tragédias enormes – por causa do comportamento em massa das pessoas.

Assustado, nosso cérebro entra em modo de fuga ou luta, pronto para fazer alguma coisa, qualquer coisa, mitigando a ameaça. Não fomos programados para decidir racionalmente o que fazer em caso de emergência – quem tinha essa tendência não sobreviveu para deixar descendentes. É por isso que há protocolos de crise, rotas de fuga preestabelecidas, simulações de evacuação, brigadas de incêndio. Não perca tempo pensando. Siga as regras.

Quem nunca se viu numa situação dessas pode achar estranho ler os relatos de assédio sexual em Abadiânia (GO). Como em muitos casos de estupro, é comum vítimas contarem que ficaram em choque, anestesiadas, não conseguiram reagir, subservientemente obedecendo a comandos, mesmo contra sua vontade. Por que não gritaram? Ou não se recusaram? Não fugiram? Pode parecer fácil a distância, na tranquilidade do domingo, lendo jornal. Mas, particularmente no caso do João de Deus, é muito mais complexo.

As pessoas ali estão doentes, fragilizadas. Totalmente vulneráveis. Isso já deixa o cérebro inclinado a ligar o modo de sobrevivência, reduzindo o dispendioso modo raciocínio crítico. Além disso, o acusado é figura de autoridade máxima, alguém em quem previamente se investiu toda confiança. Se há um líder a ser seguido, é ele. 

E de repente, sem aviso, quando menos se esperava, surge um pênis e a ordem de acariciá-lo. Imagine o choque. Mais: imagine o choque para alguém que já estava ansiosa. Qual o protocolo para essa situação? Um branco toma conta da mente. Não houve treinamento de evacuação em caso de estupro num centro religioso. Mas o cérebro quer fazer algo. O paradoxo é que a escolha natural e imediata é seguir ordens. São ordens que causaram tudo isso, para começo de conversa. 

Dá para entender um pouco mais o trauma? É por isso que as vítimas se sentem culpadas. Envergonhadas. Não denunciam. Elas também acham que deveriam ter reagido. Mas não conseguiram. Talvez esse seja o momento de criarmos outros protocolos de crise. Não acho que tem problema ensinar as meninas a serem princesas. Desde que ensinemos também quando – e onde – dar uma joelhada.

*é psiquiatra

Contato:

facebook/danielbarrospsiquiatra

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