Tarla Wolski/Futura Press
Tarla Wolski/Futura Press

Em Chapecó, enfermaria da endoscopia vira ala de covid

Pacientes internando mais cedo e danos maiores indicam comportamento diferente da doença; Estado pede adoção de protocolo de Manaus para vacinação em massa

Fábio Bispo, especial para o Estadão

19 de fevereiro de 2021 | 11h00

FLORIANÓPOLIS - Karima Ahmad, 24 anos, descobriu na quarta-feira, 17, que estava infectada pelo coronavírus, após apresentar os primeiros sintomas da doença e procurar uma farmácia. No dia seguinte foi a vez da mãe, Leila Ahmad, de 50 anos, testar positivo. A jovem, que apresentou sintomas mais fortes, como febre, cansaço e tontura, tentou duas vezes atendimento, mas não conseguiu: “Está tudo superlotado, tanto público quanto privado, tentei ir duas vezes, mas muita espera. Me senti mal na fila e voltei para casa”, contou ao Estadão por telefone. Ela e a mãe estão isoladas em casa, e sem nenhum tratamento. Pretendem voltar à unidade ainda essa semana e esperar até serem atendidas.

Dentro dos hospitais, a enfermaria da endoscopia virou ala de covid. Faltam leitos e espaço. “A situação é de caos em Chapecó. Antes, nós estávamos internando pacientes após 12 dias do contágio, agora, após cinco dias as pessoas já estão precisando de internações. O quadro clínico também é um pouco diferente, há casos de infecções bastante avançadas em poucos dias”, explicou a médica infectologista Carolina Cipriani Ponzi.

Nesta quinta-feira, antes das 9h da manhã, a médica já tinha atendido 20 novas internações por coronavírus no Hospital da Unimed em Chapecó, onde quatro setores do hospital foram adaptados exclusivamente para atendimento de covid-19. “Temos mantido conversas com infectologistas do Brasil todo e o que percebemos é uma mudança no perfil do vírus. A testagem nos pacientes confirma que é o mesmo patógeno, mas ainda não temos a comprovação de fato que se trata de mutação”, emenda.

A Secretaria da Saúde do Estado pediu ao ministro Eduardo Pazuello (Saúde) que seja aplicado em Chapecó o mesmo protocolo de Manaus, para ampliação dos grupos de vacinação. A ocupação dos leitos de UTIs na região está no limite da capacidade há mais de 20 dias. A transferência de pacientes virou rotina, em duas semanas 74 pessoas foram encaminhadas para hospitais de outras regiões. O número de mortes aumentou e na quarta-feira, 17, a cidade somou 41 óbitos em 24 horas, maior registro desde dezembro, quando a região enfrentou um boom de casos.

Ainda não há comprovação da nova variante do vírus em Chapecó. Até o momento, em Santa Catarina, foram quatro casos importados confirmados da variante P.1, circulante em Manaus, todos registrados em Joinville: são dois homens residentes na cidade, de 55 e 71 anos; e um homem, de 69 anos, e uma mulher, de 64; residentes no Amazonas. Todos já tiveram alta hospitalar.

O prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), que vinha resistindo a adotar medidas de isolamento mais rígidas, anunciou novo decreto na tarde desta quinta-feira proibindo festas e eventos sociais, mesmo festas de famílias. Também será reduzido horário de funcionamento dos estabelecimentos e a venda de bebidas para consumo no local está proibida, como em postos de combustíveis e lanchonetes. As aulas em Chapecó também seguem suspensas.

Na quarta, o governador Carlos Moisés (PSL) anunciou a ampliação de 34 leitos de UTI e 10 leitos de enfermaria na região Oeste. E a Assembleia Legislativa destinou R$ 20 milhões de seu orçamento também para a ampliação de leitos.

Para Carolina Ponzi, a abertura de novos leitos é necessária e urgente, mas frisa que ainda são necessárias mais ações preventivas. “Abrir novos leitos é a postura reativa, o que precisamos ter também é uma postura preventiva”, afirmou. Segundo a médica, há muitos pacientes na região sendo atendidos em situação “que não é a ideal”, como pessoas intubadas em prontos-socorros.

“Se fizermos uma conta de padeiro, simples, considerando que 80% dos casos são leves e vão ter que ficar isolados em casa. Temos indústrias com 50, 100 pessoas afastadas por covid. Sendo que 20% precisa de atendimento hospitalar e 5% de UTIs, hoje, precisaríamos no mínimo de 200 leitos”, explicou.

Atualmente a cidade conta com 2.051 casos de infectados com vírus ativo, segundo dados do governo do Estado. Em Chapecó, onde a situação é a mais crítica da região, tem apenas 52 leitos ativos, todos ocupados. Na região oeste, nas quatro unidades públicas são 115 leitos, 113 deles estavam ocupados nesta quinta-feira. Todas as unidades básicas do município estão atendendo casos confirmados e suspeitos, fazendo uma primeira triagem.

Até o momento, Santa Catarina utilizou 58% das doses das 298 mil vacinas enviadas pelo governo federal. A Secretaria de Saúde do Estado aguarda o envio de novas doses para contabilizar quantas poderão ser enviadas para Chapecó. A cidade aplicou, até o momento, 8.586 doses -0,03% da sua população de 224 mil habitantes -, sendo 910 já imunizados com a segunda dose.

O Ministério Público de Santa Catarina e o Ministério Público de Contas têm cobrado celeridade e transparência na vacinação nos municípios. O Estado tem tido dificuldades de contabilizar e demonstrar aos órgãos de controle o número de vacinados, além de apresentar lentidão na vacinação. Na segunda-feira, o MP emitiu recomendações aos prefeitos de todas as regiões para esclarecer diretrizes que deveriam ser seguidas para otimizar e agilizar a campanha de imunização. Na mesma recomendação, o promotor de Justiça Luciano Trierweiller Naschenweng apresentou estudo que aponta três anos para que o Estado consiga imunizar 70% da população no atual ritmo de aplicação das doses.

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