Mauro Pimentel / AFP
Mauro Pimentel / AFP

Em cinco meses, Brasil forma 9,6 mil médicos, que ficam concentrados em grandes centros

Novos registros foram influenciados pelo crescimento da oferta de cursos e vagas de medicina nos últimos anos e também pela antecipação de formaturas para reforço de frentes contra a covid-19

Vinícius Valfré, Brasília

09 de junho de 2020 | 19h43

BRASÍLIA - Levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) apontou que o Brasil passou a ter mais 9.653 médicos nos cinco primeiros meses do ano. Os novos registros foram influenciados pelo crescimento da oferta de cursos e vagas de medicina nos últimos anos e também pela antecipação de formaturas para reforço de frentes contra a covid-19

Desde 2000, 280.948 médicos saíram das faculdades, ou seja, uma média de 14 mil. Em 2020, em cinco meses, o País formou quase 70% da média anual do período. 

Ao todo, hoje, o Brasil conta com 523.528 médicos com registros ativos nos conselhos regionais. Desses 422 mil (80%) têm menos de 60 anos. Portanto, estão fora a faixa etária de risco e poderiam, caso não tenham comorbidades, atuar na linha de frente à pandemia.

Para o CFM, o resultado mostra um contingente significativo em "condições de engrossar" o enfrentamento à doença. O levantamento não detalhou as especialidades de cada um dos profissionais. Apesar do quantitativo, a distribuição dos profissionais pelo Brasil indica a concentração deles em grandes centros.

Os Estados que mais lidam, proporcionalmente, com mortos pelo novo coronavírus não são os que têm maior número de profissionais da medicina por habitante. É o caso, por exemplo, do Amazonas. Com 548 óbitos para cada milhão de habitantes, o Estado do Norte do País é o apenas o 23º em total de médicos por pessoa. Há menos de dois profissionais para cada 1 mil moradores.

No Ceará, conforme dados consolidados até a segunda-feira, 8, pelas secretarias estaduais, eram 459 mortos por milhão de habitantes. Em proporção de médicos comparados com a população, o Estado era só o 18º. 

Donizetti Giamberardino, vice-presidente do CFM, afirma que as causas do desequilíbrio na distribuição de médicos pelo País são históricas e não podem ser superadas sem um política pública consolidada para redistribuição dos profissionais. 

"Temos um número suficiente de médicos no Brasil para combater essa situação. A única coisa que temos, que é uma herança pré-pandemia, é uma grande desigualdade social. Como consequência temos uma má distribuição de médicos pelo Brasil. Os médicos ainda seguem a riqueza do Brasil, isso em virtude de falta de políticas públicas efetivas de fixação", afirmou ao Estadão.

A desigualdade também aparece no volume de adesões ao programa "O Brasil Conta Comigo", lançado pelo Ministério da Saúde em busca de voluntários para atuação contra o novo coronavírus. Segundo o estudo do CFM, 10.588 médicos se apresentaram até o final de abril. 

Mais da metade deles se voluntariaram para centros que incluem São Paulo (19,6%), Minas Gerais (12,9%), Rio Grande do Sul (10,3%), Paraná (6,5%) e Rio de Janeiro (6,2%). Para Sergipe, Tocantins, Roraima, Acre e Amapá apareceram menos de 100 voluntários em cada um desses tados. 

"Não há uma política de fixação do profissional de saúde nas regiões mais remotas do nosso Brasil. Não é com coisas voluntárias que vamos resolver a distribuição", opinou Donizete. 

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