Em Cúcuta, recordista de zika na Colômbia, problemas espelham o Nordeste brasileiro

Cidade quente e seca, que já teve surtos graves de dengue e chikungunya, tem criadouros em reservatórios de água; proximidade com a fronteira com a Venezuela atrai ainda mais pacientes

Lígia Formenti, enviada especial a Cúcuta, O Estado de S. Paulo

06 Março 2016 | 03h00

Sexta cidade da Colômbia, Cúcuta é classificada como hiperendêmica para doenças ligadas ao Aedes aegypti. Primeiro veio a dengue, com seu rastro de casos graves e aumento dos atendimentos. Há dois anos, foi a vez da chikungunya. O médico Samuel Bautista se recorda que a doença, que provoca dores nas articulações, fez tamanho estrago na cidade em 2014 que, em uma noite de dezembro, nada menos do que 64 funcionários do Hospital Universitário Erasmo Meoz estavam afastados por incapacidade. “Foi o caos. O hospital cheio e sem funcionários, que também estavam doentes.”

Com a zika é diferente. Embora ela tenha chegado com força na cidade, a primeira onda foi silenciosa. Três ou quatro dias de mal-estar, algo que não sobrecarrega serviços de saúde ou que mude de forma significativa a rotina da cidade. “Mas claro que já havia a situação do Brasil, o que colocou todos em estado de alerta.”

Como o Nordeste do Brasil, Cúcuta é quente e seca e os criadouros não estão associados a pratos de plantas. Os mosquitos se proliferam graças à intermitência no abastecimento. Para driblar a falta de água, a população se defende com tanques de água, caixas, poços. Empobrecida, a comunidade não tem muitas vezes recursos para providenciar uma cobertura adequada para os poços, caixas ou latões. “Não há uma casa aqui que não tenha um reservatório”, garante o diretor da Clínica Medical Duarte, de Cúcuta, Ruben Dario Santiago. Com o fenômeno El Niño, o problema se intensificou. 

Cúcuta ainda tem um problema adicional: a população flutuante. Situada na fronteira com a Venezuela, a cidade ainda recebe um número significativo de pessoas vindas daquele país. “Estamos tomando medidas de prevenção, mas não há como responder pelo que acontece no país ao lado”, diz o diretor do Instituto Departamental de Saúde de Cúcuta, Juan Alberto Bittar. “É uma combinação perfeita para que o problema se estenda por ainda mais tempo.”

A estimativa é de que os serviços de saúde de Cúcuta tenham atendido 40 gestantes com zika moradoras da Venezuela. “Estamos em busca dessas mulheres, mas não conseguimos localizá-las”, ressalta Bittar. 

Também em Cúcuta vive um grupo de 27 famílias deportadas no ano passado da Venezuela, em um acampamento improvisado, encravado no meio da cidade. “Temos aqui 25 crianças. Do grupo, boa parte já pegou zika”, afirma Beatriz Loaiza, de 46 anos. “Vivemos aqui sem perspectivas, sem ajuda do governo. Apenas temos comida, doada pelas pessoas.

Governo. O vice-ministro Fernando Gómez diz que a solução é o combate aos criadouros, o uso de larvicidas e campanhas com a população. “Há uma mobilização. Tanto é que, desde janeiro, zika é a palavra mais procurada no Google na Colômbia.”

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