Joe Raedle/AFP
Joe Raedle/AFP

Em Dallas, reza por vítimas de Ebola monopoliza culto

A cada domingo, alguém se levanta para narrar história; bispo cria serviço de aconselhamento e sugere orientar quem está na África

CLÁUDIA TREVISAN, Enviada especial de O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2014 | 02h04

DALLAS - Bem antes de o primeiro caso de Ebola fora da África ser diagnosticado, a doença já fazia parte do cotidiano da congregação do bispo Nathan Kortu, formada por refugiados e imigrantes da Libéria, em Dallas. A cada domingo, alguém se levanta no culto para narrar a história de um familiar ou conhecido atingido pelo vírus em seu país de origem, que registra o maior número de casos da doença.

No dia 20, o vírus atravessou o Atlântico e chegou a Dallas com o liberiano Thomas Duncan, que se tornou a primeira pessoa a receber o diagnóstico fora da África. Há uma semana, ele está isolado no Hospital Presbiteriano.

Além da ameaça aos que ficaram em seu país, a comunidade de liberianos teme agora o risco de ser estigmatizada nos Estados Unidos. "Quando dizem no trabalho ou na escola que são da Libéria, muitos são imediatamente associados ao Ebola. Não deveria existir esse estereótipo", disse Kortu ao Estado. Segundo ele, cerca de 10 mil liberianos vivem na região metropolitana de Dallas.

Luto. Como todos que frequentam sua igreja, ele tem vários familiares na Libéria, incluindo duas irmãs e um irmão. Por enquanto, nenhum foi contaminado, mas muitos amigos morreram em razão da doença, afirmou. Diante do aumento no número de pessoas de sua congregação que estão perdendo familiares, o bispo decidiu criar um serviço de aconselhamento para ajudá-las a lidar com o luto.

No culto deste domingo, 5, uma mulher que não quis ser identificada contou que sua filha morreu vítima do Ebola no dia 20 e deixou seis filhos, que agora estão em quarentena. Ela pediu aos demais que rezassem para que seus netos cheguem sem a doença ao fim do período de 21 dias de incubação. O médico Gayflor Koboi pediu orações para o amigo e também médico John Dada, que havia recebido o diagnóstico de Ebola dois dias antes. Pouco mais de cem pessoas foram à cerimônia.

A congregação enviou na sexta-feira, 3, um contêiner ao país africano com luvas, máscaras e suprimentos médicos. "Alguns hospitais e centros de atendimento estão fechados, por falta de material de proteção", observou Kortu, que vive há 29 anos nos Estados Unidos. O bispo exortou a congregação a realizar uma campanha de educação dos familiares na Libéria sobre estratégias para evitar a transmissão do vírus, que incluem gestos simples como lavar as mãos com frequência e evitar contato físico com pessoas que apresentem sintomas.

Estado 'crítico'. O estado de saúde do liberiano Thomas Duncan se agravou no fim de semana e passou de "sério" para "crítico". Ainda assim, ele não está sendo medicado com a droga experimental utilizada no tratamento de dois americanos diagnosticados com Ebola na África e transferidos para os Estados Unidos no mês passado. Ambos se curaram.

Em entrevista à CNN, o diretor dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDCs), Eric Duncan, disse que o remédio poderia "agravar" o estado de Duncan. O Ebola tem alto índice de mortalidade e não há método de cura reconhecido.

O chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, Anthony Fauci, disse à rede CBS que a droga experimental, chamada ZMapp, é de "difícil produção" e deve demandar entre um mês e meio a dois meses para estar disponível. As autoridades sanitárias de Dallas continuam a monitorar 50 pessoas que tiveram contato com Duncan depois de ele manifestar sintomas da doença, no dia 25. O liberiano só foi internado e isolado três dias mais tarde. 
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