Lucio Bernardo Junior / Câmara dos Deputados
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Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, covid-19 matou um em cada cinco infectados

Taxa de mortalidade é a maior do Estado do Rio, entre municípios com volume considerável de casos

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 15h06
Atualizado 15 de abril de 2020 | 16h45

RIO - O município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, apresenta uma taxa de mortalidade preocupante para infectados pela covid-19. Na cidade de 920 mil pessoas, emtre os 94 casos confirmados com a doença, houve 20 mortes, quase 1 para 5. Enquanto isso, o principal hospital caxiense tem poucos equipamentos de proteção individual (EPIs), e funcionários reclamam da falta de treinamento para lidar com a pandemia.

A taxa de mortalidade é um dado sujeito à imprecisões uma vez que está relacionado à quantidade de pessoas diagnosticadas com a doença. Se há poucos testes, ela pode ficar muito alta, mas mesmo na comparação com outras cidades do Estado, os números de Caxias destoam. Na capital, por exemplo, a taxa de mortalidade está em 6%, ou seja, quase um a cada 20 diagnosticados com a covid-19 acaba morto. Nas vizinhas Nova Iguaçu e Belford Roxo, também na Baixada Fluminense, o porcentual se encontra no patamar da capital.

Em Caxias,  até  o prefeito foi contaminado pelo coronavírus. Antes um negacionista da gravidade da doença e da necessidade de adotar medidas de isolamento social, Washington Reis (MDB) teve a confirmação de que está infectado pelo covid-19 no último sábado. Foi internado e está em uma unidade de tratamento semi-intensivo de um hospital privado em Botafogo, na zona sul da capital, a cerca de 30 quilômetros do município que governa.

Duas semanas antes, no fim de março, o conhecido político da Baixada chegou a dizer que era contra o fechamento de igrejas porque “a cura virá de lá, dos pés do Senhor”. Na região, é forte a presença de igrejas evangélicas neopentecostais.

O fechamento do comércio na cidade só foi determinado por Reis no dia 3 de abril, após a confirmação da primeira morte pela doença. A ordem veio mais de duas semanas depois da decisão do governador Wilson Witzel (PSC), que decretou emergência no Estado em meados de março.

A situação no município é alarmante também por problemas da Saúde que vão além do número de mortos. Servidores da área não haviam recebido até a terça-feira, 14, os salários de março. Segundo apurou o Estado com funcionários do Hospital Municipal Moacyr do Carmo, os vencimentos caíram nas contas após o atraso ser divulgado pela imprensa.

O hospital, inclusive, sofre com o número reduzido de equipamentos básicos para lidar com pacientes infectados, como os EPIs.

“Percebo que, de forma geral, nós da equipe não estamos preparados para esse tipo de evento, mal sabendo como desequipar os EPIs”, conta uma profissional que preferiu não se identificar. “Estamos nos sentindo fragilizados, e uma grande parte da equipe está saindo de licença por suspeita ou por ser do grupo de risco.”

No total de casos confirmados, Caxias é a quarta cidade com mais vítimas do coronavírus no Rio. Depois da capital, quem mais registra contaminados são Niterói, na Região Metropolitana, e Volta Redonda, no Sul fluminense. Ambas, contudo, têm taxas de mortalidade bem inferiores: 7% e 5%, respectivamente. Ao todo, o Estado tem 3.410 confirmações da covid-19, com 224 mortes, até o início da tarde desta quarta, 15.  

Um dos hospitais de campanha anunciados pelo governo de Wilson Witzel - ele próprio infectado pelo coronavírus - será construído na cidade da Baixada. A capacidade estimada para essa unidade é de 200 leitos.

Outro lado

Procurada, a Prefeitura de Duque de Caxias alegou que “adotou uma série de ações restritivas com o objetivo de proteger a população do novo Coronavírus.” A resposta cita um decreto publicado no dia 31 de março que suspendeu atividades como shoppings, lojas e bares.

“Ainda assim, em algumas regiões da cidade e mesmo cientes das restrições, há comerciantes que insistem em continuar com suas atividades. Diante disso, equipes de segurança e postura do município estão diariamente nas ruas para fazer cumprir a determinação do prefeito Washington Reis”, diz a nota.

Além disso, segundo o Executivo caxiense, estão sendo tomadas iniciativas como a veiculação de campanhas de orientação de higiene e “etiqueta respiratória”; higienização das ruas; campanha para uso de máscaras e distribuição delas à população mais vulnerável; e circulação de carros de som pela cidade, alertando sobre o perigo de aglomerações.

Ainda de acordo com a Prefeitura, a Secretaria Municipal de Saúde iniciou a realização de teste rápido em todos os profissionais da área que apresentem sintomas respiratórios. Ao comentar a alta taxa de mortalidade no município, o Executivo aproveitou para criticar a demora para sair o resultado dos exames de confirmação da doença.

“A demora do retorno dos resultados dos exames, que são enviados para o laboratório de referência da SES RJ (Secretaria Estadual de Saúde), e por conta da alta demanda, são um agravante neste momento, tanto no caso dos óbitos como na confirmação dos casos notificados.”

Em relação ao caso do Hospital Moacyr do Carmo, a Prefeitura garantiu que a direção prepara a equipe desde o início de março para lidar com a doença, com ensinamentos como o uso correto de EPIs, lavagem das mãos e coleta de material para teste.

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