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Em intercâmbio estudantil na Bélgica, brasileiro é pressionado a voltar ao Brasil, ou perde seguro

João Miguel Oliveira tem quatro dias para retornar a Brasília por causa da pandemia do novo coronavírus

André Borges, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 18h12

BRASÍLIA – Na última segunda-feira, 16, o estudante brasileiro João Miguel Oliveira voltava para sua casa, na pequena cidade de Mouscron, na Bélgica, quando recebeu uma mensagem no celular. Em francês, a organização de intercâmbio estudantil AFS informava, em poucas palavras, que ele tinha quatro dias para arrumar suas coisas. João seria enviado imediatamente para o Brasil, de volta para a casa de seus pais, em Brasília, para fugir da pandemia do novo coronavírus.

O garoto ficou sem saber o que fazer. Ligou para o pai, Miguel Ivan Nonato, que ainda não tinha sido comunicado sobre nada. O estudante tinha chegado à Bélgica em agosto do ano passado, para ficar por lá até julho deste ano, fazendo um curso equivalente à conclusão do Ensino Médio no Brasil. Para realizar o sonho do filho, Nonato desembolsou, antecipadamente, US$ 11 mil, hoje equivalente a mais de R$ 55 mil.

O contrato com a empresa de intercâmbio incluía não só os estudos, mas também a garantia de um seguro-saúde para o menino, durante todo o tempo que permanecesse na Bélgica. É neste ponto que a situação se complicou. O seguro-saúde de João, como o de seus amigos e de outros milhares de alunos que estão em intercâmbio mundo afora, prevê o pagamento integral de gastos com a sua saúde, caso seja necessário. No caso do brasileiro, esse valor está fixado em até US$ 1 milhão.

João não é um caso isolado. O drama do intercâmbio envolve milhares de pessoas neste momento. Uma pesquisa feita no ano passado pela Associação Brasileira de Agências de Intercâmbio apontou que cerca de 365 mil brasileiros, de todas as idades, faziam algum curso de intercâmbio em outros países.

“Quando falei com a empresa sobre a situação do meu filho, me disseram apenas que o contrato do intercâmbio seria finalizado e, com isso, acabaria também o seguro-saúde dele. Meu filho ficou transtornado com isso, com medo de pegar avião nessa situação dos aeroportos e de passar por vários países, além de não saber como ficarão as coisas no Brasil nas próximas semanas”, diz Nonato.

A Bélgica, como a maior parte dos países europeus, já fechou seus comércios, locais de passeio público e mantém aberto apenas o necessário. O país está em quarentena desde a última terça-feira. Até o dia 5 de abril, as pessoas terão de permanecer em suas casas. As saídas só estão autorizadas para ir a hospitais, farmácias e supermercados. A Bélgica já registrou 2,2 mil casos de contaminação e 37 mortes.

João permanece em sua casa, com a família belga que o recebeu durante sua estada para o curso. Depois de conversar com os pais no Brasil, todos decidiram que, para segurança do estudante, seria melhor permanecer na Europa.

“Eu deixei claro para a empresa que já paguei pelo serviço e que não queria encerrar o contrato, para que não deixassem meu filho sem proteção de saúde. Mas me pressionaram, disseram que eu não tinha opção. Tinha que aceitar o retorno dele ao Brasil. Caso contrário, que eu deixasse meu filho na Bélgica, mas sem seguro-saúde”, relata Nonato.

Por videoconferência, João conversou com a reportagem. O estudante brasileiro tem se reunido com amigos para tentar buscar uma solução para permanecer no país, com segurança e o seguro-saúde que já pagaram. “Tenho amigos do mundo inteiro que estão passando por isso. As empresas de intercâmbio têm feito a mesma pressão com eles”, diz.

 

A organização americana AFS foi questionada sobre a situação de João e demais alunos brasileiros que estão em intercâmbio em outros países. A companhia não se posicionou sobre o seguro-saúde do aluno.

Por meio de nota, a AFS declarou que “está monitorando de perto a disseminação do coronavírus” e que, “nessas circunstâncias, muitos países começaram a suspender as aulas, fechar fronteiras e aplicar medidas estritas de quarentena”.

“À luz destes acontecimentos que mudam a cada instante, os parceiros da rede AFS estão implementando um plano coordenado para levar os participantes para casa sempre que possível e de forma segura. Estamos trabalhando individualmente com cada participante e família para providenciar o que é melhor para eles nas circunstâncias atuais. O AFS continuará fornecendo todo o apoio e serviços do programa aos participantes que permanecerem sob os cuidados da família hospedeira por enquanto”, declarou.

Segundo a empresa, o objetivo é “retornar os estudantes da maneira mais segura possível”. “Acreditamos firmemente que é do maior interesse de nossos participantes estar de volta com suas famílias em seus países de origem.”

A empresa afirmou que, se não for possível para um participante viajar ao seu país, “continuará fornecendo todo o suporte e serviços do programa, até que seja possível retornar ao seu país de origem”. “Essa não é uma decisão fácil. Como líderes na educação intercultural global, conhecemos a natureza transformadora da experiência completa de intercâmbio para participantes, famílias e voluntários. Entristece-nos levar essas experiências a um fim precoce.”

 

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