REUTERS / Bruno Kelly
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Em meio à pandemia, estudante perde a mãe após recusa do Samu em Manaus

“Assim que ela começou a passar mal, ligamos. Mas disseram que não adiantava vir até minha casa porque nos prontos-socorros não havia balões de oxigênio suficientes"; ligou mais uma vez e, novamente, não foi atendida

Alisson Castro, especial para o Estado

07 de maio de 2020 | 05h00

MANAUS - A universitária Lene Freire, de 30 anos, moradora da zona norte de Manaus, viu a mãe morrer em casa após ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em 25 de abril. “Assim que ela começou a passar mal, ligamos. Mas disseram que não adiantava vir até minha casa porque nos prontos-socorros não havia balões de oxigênio suficientes". Ela ligou mais uma vez e, novamente, não foi atendida. 

A mãe – Sila Freire, de 64 anos, que tinha diabete e pressão alta – morreu após meia hora. Na certidão de óbito, aparece causa indefinida. “Disseram que, se a levassem, iria morrer na frente do hospital porque não tinha equipamentos”, disse. “Foi desesperador e não podíamos fazer nada.” Lene foi à delegacia registrar boletim de ocorrência e lá ouviu que casos similares já haviam sido registrados.

O aumento no número de mortes em casa é gritante, segundo o presidente do Sindicato das Empresas Funerárias do Estado do Amazonas, Manuel Viana. “Antes da epidemia, quando havia por volta de 30 mortes por dia, atendíamos seis óbitos domiciliares. Depois da epidemia, já ultrapassamos 40, quando temos, em média, cem óbitos ao dia", diz o médico. 

"Realmente, houve aumento muito grande de óbitos em residências. Percebemos que, por causa do estrangulamento do sistema de saúde, as pessoas pensam em não se arriscar levando os doentes ao hospital, onde não tem vaga. Estão deixando seus familiares em casa, tomando medicamento”, acrescenta Viana.

O governo do Amazonas informou ter rede de urgência e emergência com três grandes prontos-socorros, nove serviços de pronto-atendimento, além de hospitais de campanha, e disse não haver falta de atendimento se ela não buscou os serviços, com funcionamento 24 horas por dia.

"As informações mostram que não há como sustentar que uma paciente que sequer buscou atendimento em qualquer uma das unidades de porta aberta do Estado, como a demanda relata, deixou de receber  assistência por falta de estrutura", acrescentou o governo. 

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