REUTERS/Amanda Perobelli
REUTERS/Amanda Perobelli

Em meio à pandemia, impacto à saúde mental pode ser maior do que o do coronavírus

O sinal de alerta está aceso entre psicólogos, psiquiatras e grupos que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade. A preocupação é que a saúde mental seja deixada de lado agora e se torne um problema ainda maior mais para frente

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 12h00

SÃO PAULO - Os impactos da pandemia do novo coronavírus serão sentidos sobre a saúde mental da população por um tempo ainda mais longo que sobre a saúde física e podem afetar a capacidade de retomada do País quando o período de isolamento acabar. Por isso, é preciso, além de cuidar da doença em si, prestar assistência para que não haja uma adoecimento ainda mais amplo da sociedade.

O sinal de alerta está aceso entre psicólogos, psiquiatras e grupos que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade. A preocupação é que a saúde mental seja deixada de lado agora e se torne um problema ainda maior mais para frente. Não à toa, têm pipocado lives nas redes sociais com dicas sobre como lidar com as emoções durante o isolamento. Mas  algumas situações podem precisar de intervenções reais. 

“Em uma pandemia, o medo aumenta os níveis de ansiedade e estresse em indivíduos saudáveis e intensifica os sintomas daqueles com transtornos psiquiátricos pré-existentes. Durante as epidemias, o número de pessoas cuja saúde mental é afetada tende a ser maior que o número de pessoas afetadas pela infecção”, aponta um grupo do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas e do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Em artigo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, eles fazem uma revisão das implicações para a saúde mental em outras epidemias, como ebola e zika, e ponderam sobre o que pode ocorrer agora, com uma pandemia sem equivalente na nossa história recente.

“Tragédias anteriores mostraram que as implicações na saúde mental podem durar mais tempo e ter maior prevalência do que a própria epidemia e que as impactos psicossociais e econômicos podem ser incalculáveis se considerarmos sua ressonância em diferentes contextos”, escrevem os autores liderados pelo psicólogo Felipe Ornell, que atua no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Em outro artigo, publicado na mesma revista, o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Psiquiátrica da América Latina e colegas lembram que “em tempos de medo e incerteza, quando ameaças à própria sobrevivência e à dos outros se tornam um dos principais problemas da vida cotidiana, muitos acreditam que os cuidados com a saúde mental podem esperar e que os esforços devem se concentrar na preservação da vida”. 

Mas, alertam que adotar medidas que preservem a saúde mental pode ajudar a amenizar a crise na prestação de serviços de saúde: “A saúde mental é precisamente uma das chaves para sobreviver a esta pandemia recente e tudo o que isso implica a curto, médio e longo prazo, desde a potencial crise na prestação de serviços de saúde até ajudar a preservar e reconstruir uma sociedade pós-pandêmica”. 

O cenário, atual, porém, envolve diversos gatilhos para sintomas de ansiedade e depressão. Começa com os efeitos do isolamento da quarentena e se amplifica com os medos diversos – da doença ao desemprego – e com os lutos que já estão vindo e que ainda virão.

Fuga ou luta

“Temos um mecanismo muito primário de luta e fuga. Em uma situação de perigo, de medo, a gente aciona muito rápido esse mecanismo, que gera alterações fisiológicas que nos permitem lutar ou correr. Ele enrijece músculos, o sangue é direcionado para as regiões centrais do corpo, as mãos ficam mais frias, o corpo sua para poder escorregar num atrito, o coração bombeia mais rápido. Esses também são elementos comuns em diversos transtornos psiquiátricos, nas fobias, nas ansiedades, no TOC (transtorno obsessivo compulsivos)”, explicou Ornell ao Estado.

“O problema é que estamos diante de um fenômeno que aciona todo esse mecanismo na gente, mas não podemos lutar contra ele, porque é invisível, nem correr dele, porque nem podemos sair de de casa. Mas o processo fisiológico continua acontecendo”, continua o psicólogo.

“Em primeiro e em último grau, estamos falando de medo: nesse momento de ser contaminado, de contaminar, do que vou fazer com o meu filho que está o dia inteiro em casa e eu preciso também trabalhar. Lá na frente vão ser outros medos, como o socioeconômico”, afirma. 

“Isso começa a aparecer em forma de tensão muscular, de insônia, de candidíase, de herpes labial e doenças psicossomáticas relacionadas. Mas se continuar estressando, acionando esse mecanismo biológico de luta ou fuga constantemente sem poder direcionar isso para alguma coisa… a chance de ter um agravamento de transtornos psiquiátricos ou de desenvolvimento pra quem não tinha, é bastante grande. É o que nos preocupa”, diz o pesquisador.

Ele afirma que isso ocorreu com o surto de ebola em 2014. “Depois de um ano do surto, mesmo as pessoas que não ficaram doentes, continuaram com sintoma psiquiátricos ou desenvolveram quadros graves.”

O psiquiatra Rodrigo Leite, do Instituto de Psiquiatria da USP, que tem feito lives no instagram sobre saúde mental em tempos da covid-19, afirma que já está vendo o sofrimento psíquico de forma geral, como sintomas depressivos, de ansiedade, alteração do sono e aumento do consumo de substâncias como álcool e drogas.

“No médio e longo prazo começaremos a ter outros complicantes: situações de luto, de perdas de pessoas próximas, começarão a surgir os problemas com as questões financeiras. A saúde mental se altera como decorrência de uma somatória de fatores.”

Ele recomenda uma atenção especial para algumas populações específicas. “Quem ficou na linha de frente contra o coronavírus, quem não consegue se proteger, quem já tinha uma fragilidade anterior, quem já fazia tratamento psiquiátrico e pode romper a logística de tratamento com a dificuldade de locomoção com o isolamento e pode piorar a situação”, diz.

Leite estima que aos atendimentos a quem já têm diagnóstico vão se somar novos pacientes que podem se desenvolver por causa da situação. “Isso vai aumentar a demanda por saúde mental. Precisamos cuidar que isso não se torne crônico, que essas pessoas não acabem ficando incapacitadas para o trabalho nem que aumente a taxa de suicídio. Mais do que nunca, temos agora de reforçar essa vigilância porque o tamanho do que pode acontecer é imprevisível.”

Nem todos, explica o psiquiatra, vão precisar necessariamente de medicação ou atendimento médico, mas as pessoas vão precisar de acolhimento, de orientação. “Os investimentos estão voltados para a doença, mas temos de considerar investir nesse momento também em saúde mental. Nossa geração nunca passou por algo assim, não temos ideia do impacto que terá, de como se planejar, mas temos de ter isso em mente.”

Preste atenção

Os especialistas ouvidos pelo Estado dão algumas pistas que as pessoas podem prestar atenção para avaliar como estão lidando mentalmente com a epidemia:

  • “Pergunte-se sempre: como estou me sentindo hoje? Como eu estava ontem, nos últimos dias? Algo mudou?”, recomenda Felipe Ornell, da UFRGS
  • Segundo ele, é normal e saudável ter medo diante de algo que de fato é assustador. “Mas é importante reconhecer quais são os medos essa situação tem me despertado: de morrer, de infectar outros, de não dar conta da situação financeira, de não ter contato com as pessoas, de não poder sair para comprar drogas no caso dos usuários”, diz.
  • “Com base nessas respostas, tente avaliar: tem alguma coisa que eu possa fazer a esse respeito nesse momento? Mais do que isso: é uma coisa segura?”, orienta.
  • Alguns elementos podem ser controlados, há alguns mecanismos para conseguir controlar a ansiedade, como exercícios de respiração. “Isso ajuda muito, mexe na oxigenação cerebral, engana o cérebro no mecanismo de luta e fuga. Eu não consigo controlar quanto tempo essa crise vai durar, quantas pessoas vão morrer, mas tenho controle de como vou lidar, mas preciso saber quais são os meus medos”, afirma Ornell.
  • A partir disso também é possível dividir: o que dá para resolver agora e o que pode deixar para depois. Ou o que eu não dá para resolver agora e necessariamente vai ficar para depois ou quais demandas podem ser postergadas.
  • Ornell também recomenda alguns testes na internet validados para sociedade brasileira e que permitem mensurar o nível de estresse, de ansiedade. “Sabendo em qual nível de ansiedade ela está, vale fazer uma listinha mental de pessoas que pode acionar, quais serviços podem apoiar. Eventualmente a pessoa não vai dar conta sozinha mesmo e vai precisar de uma atenção mais especializada”, diz.
  • Rodrigo Leite, da USP, afirma que vale a pena buscar um acolhimento inicial com os muitos grupos de ajuda que têm surgido, mas se não forem suficiente, é caso de procurar um atendimento profissional. Com a regulamentação da telepsiquiatria, é possível ajudar quem vai precisar de tratamento ou de medicação.

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