EFE/EPA/DANNY CASEY AUSTRALIA AND NEW ZEALAND OUT
EFE/EPA/DANNY CASEY AUSTRALIA AND NEW ZEALAND OUT

Em meio ao coronavírus, supermercados ao redor do mundo reservam hora exclusiva para idosos

Ação que visa ajudar população vulnerável ao covid-19 durante compras já foi registrada em países como Austrália, Argentina, Alemanha e Reino Unido. Cenário é de desabastecimento em várias nações

João Ker, Gonçalo Junior e Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2020 | 09h27

Vários supermercados da Austrália dedicaram uma hora de seu funcionamento exclusivamente a clientes idosos na manhã desta terça-feira, 17. A medida experimental permite que as pessoas mais velhas, que integram o grupo de risco para o covid-19, possam fazer compras com tranquilidade e evitar o contato social.

Longas filas foram registradas em mercados de Melbourne e Sydney, mas alguns clientes saíram de mãos vazias. "É o primeiro dia que aplicamos esta hora dedicada a eles e sabemos que nem tudo foi perfeito em todas as nossas lojas", admitiu em um comunicado a diretora geral da rede de supermercados Woolworths, Claire Peters. A empresa reservou o horário de 7h às 8h para os idosos e pessoas com necessidades especiais. 

Nem todos aplaudiram a iniciativa. "Esta medida é importante, mas não acredito que seja a melhor alternativa. Deveriam facilitar a entrega a domicílio, porque não deveríamos ver pessoas de 93 anos fazendo compras", declarou Irie Voico, de 71 anos, à AFP.

Alguns criticaram a aglomeração de pessoas que estão entre as mais vulneráveis ao novo coronavírus, enquanto outros expressaram satisfação com a medida, destinada a permitir que os idosos evitem grandes concentrações de pessoas. 

"Foi tudo muito bem esta manhã. Parabéns Woolworths. Todos estão se comportando muito bem", disse Max Hill, de 75 anos. Até o momento, a Austrália já registrou quase 400 casos e cinco mortes provocadas pelo coronavírus.

No subúrbio de Melbourne, no estado australiano de Vitoria, a rede IGA também declarou que clientes idosos e com deficiências teriam exclusividade nas compras durante uma hora por dia, até 7 de abril. Medidas similares foram observadas em outros supermercados ao redor do mundo. Em Palermo, maior bairro de Buenos Aires, o supermercado Disco também está dedicado o horário de 7h às 8h exclusivamente aos clientes com mais de 65 anos. A medida vale entre segunda-feira e sábado, por tempo indeterminado. Em seu site, a rede informou ainda que a disponibilidade de alguns produtos foi afetada pela pandemia e ainda pede para que os clientes levem apenas o necessário para a família. 

 


Na segunda-feira, 16, a rede Iceland, na Irlanda do Norte, também recomendou a todas as suas filiais do Reino Unido que disponibilizassem duas horas por dia aos clientes idosos e “pessoas vulneráveis”, como deficientes físicos, a começar na quarta-feira, 18. Em suas redes sociais, eles publicaram: “Estamos dando [aos nossos gerentes] a flexibilidade para oferecer isso onde for possível, e medidas serão anunciadas nas lojas que decidirem tomar essa atitude”. 


Na República da Irlanda, o supermercado SuperValu Fairways decidiu implementar a mesma estratégia, entre 7h e 8h, a partir desta quarta. Ao todo, já foram registrados 233 casos do coronavírus e duas mortes até a segunda-feira, 15. Já na Alemanha, a rede de atacado Lidl and Tesco implementou duas horas exclusivas aos clientes vulneráveis. 

Cenário é de desabastecimento em vários países

A Itália registra falta de alimentos na cidade de Milão, uma das mais importantes do País. “Na semana passada, era difícil encontrar alguns produtos de higiene, como papel higiênico, lenços de papel, fraldas e absorventes, mas conseguiram controlar. Agora, faltam frutas e verduras”, conta a estudante de moda Victoria Faragó, de 23 anos, que vive na Itália há um ano.

O governo aprovou na última quarta-feira, dia 11, um “bloqueio total” do país, com o fechamento dos estabelecimentos comerciais e de serviços, com exceção de supermercados, bancos e farmácias. A restrição vale por duas semanas. Cinemas, teatros, museus, escolas e universidades já tinham sido fechados.

Mesmo nas regiões em que ainda existe oferta nas prateleiras, a rotina de compras foi alterada. A fotógrafa e jornalista brasileira Camila Leonelli, que vive na Lombardia, distante 40 km de Milão, também na região norte na Itália, afirma que os funcionários controlam o número de pessoas nos mercados e até a distância de um cliente para o outro na fila do caixa. “Eles colocaram fitas no chão para marcar o local em que a pessoa deve ficar, mantendo um metro de distância para o outro”, explica a brasileira de 31 anos.

A última medida, conta Camila, foi a colocação de um vidro de proteção, uma espécie de redoma, no local de trabalho dos profissionais que atuam nos caixas. Ela reduziu as idas ao supermercado a uma vez por semana.

A estudante Bianca Alves Pinto, de 22 anos, viveu dias mais tensos em Madrid. Ela conta que percebeu momentos de desespero, quando o número de casos ultrapassou a marca de mil na semana passada. “Fui ao mercado na hora do almoço, o Mercadona, e estava vazio. Não tinha frutas. Voltei no sábado e havia umas 100 pessoas esperando o mercado abrir. Metade foi para o setor de carnes e a outra metade correu para a área de produtos não perecíveis. Consegui pegar o meu papel higiênico no sufoco”, conta a brasileira. “Hoje, eu fui ao Carrefour, e estava vazio. Poucas pessoas nas ruas. Não existe mais álcool gel, mas acho que não teremos falta de outros produtos”, avalia.

Desde que o primeiro ministro Pedro Sánchez anunciou estado de emergência, as pessoas não podem sair de suas casas, exceto quando o deslocamento for estritamente necessário, como para trabalhar, comprar medicamentos e alimentos ou ir ao hospital. Durante esse período, todas as lojas ficarão fechadas, com exceção de farmácias e daquelas que vendem alimentos e outros produtos de necessidade básica. 

Na França, a estudante Luiza Nobrega Felix também vem encontrando prateleiras vazias, tantos nos grandes mercados como nos endereços mais discretos do subúrbio da capital. Ela vive em Rueil Malmaison. Nos últimos dias, Luiza teve dificuldade para encontrar pão e macarrão. “Percebo que alguns produtos estão com uma quantidade mais baixa”, diz a brasileira de 26 anos.

O País começou a semana com sua rotina drasticamente alterada em função das últimas medidas para a contenção da epidemia do novo coronavírus. Esta segunda-feira foi o primeiro dia em que as instituições de ensino de todo o país amanheceram de portas fechadas. 

A administradora Julia Janikian, de 23 anos, mora na Alemanha há oito meses e é a primeira vez que observa uma “correria para se abastecer”. Segundo ela, nem no inverno ou quando teve um alerta de furacão no começo deste ano as pessoas se comportaram dessa forma. Papel higiênico, sabonete e antissépticos são os itens que mais faltam.

“Eu estava relativamente tranquila em fazer estoque, mas saiu uma notícia de que tudo em Berlim vai fechar”, contou Julia na última sexta-feira, 13. Naquele dia, preocupada com a situação, ela foi ao supermercado fazer compras: só achou papel higiênico no segundo estabelecimento e as prateleiras de macarrão, molho de tomate e leite estavam quase vazias. Durante o fim de semana, museus, bares e restaurantes não abriram.

“Minha preocupação atual não é pegar o vírus, mas ficar isolada. Com tudo fechando em Berlim e a Europa em caos, estou com medo de ficar presa aqui sozinha. Ninguém sabe quanto tempo vai durar esse surto, então não tem como saber quanto tempo as fronteiras vão ficar fechadas”, disse Julia.

Ela conta que a família dela está preocupada e que uma prima foi diagnosticada com covid-19 em São Paulo. A administradora tem uma viagem para o Brasil programada para julho, mas um dos voos de conexão, dentro da Europa, foi cancelado e ela não conseguiu comprar outro até agora. “Não acho que o cenário lá (no Brasil)  fique muito melhor que na Europa, mas pelo menos estaria em casa", diz Julia, que queria antecipar a viagem.

Nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump decretou estado de emergência nacional, a compradora brasileira Alline Moraes Galdi, de 34 anos, relata que antes de grandes nevascas, produtos como pão, leite e ovos somem das prateleiras, mas ela nunca tinha visto algo parecido nas proporções dos últimos dias. Ela mora no país há seis anos.

“Há filas enormes nos caixas, corredores cheios de pessoas, carrinhos lotados e faltam produtos como papel higiênico, peito de frango, frutas, enlatados e congelados”, conta ela, que reside em Michigan, onde o primeiro caso confirmado de infecção pelo novo coronavírus foi registrado em 11 de março.

Porém, desde o dia 4, os grandes mercados e atacadistas começaram a apresentar falta de mercadorias ou demora na reposição. Alline acredita que, embora as pessoas tenham medo de contrair o vírus, o fechamento de fronteiras, escolas e estabelecimentos potencializaram o pânico generalizado.

Ela afirma que não está aflita, mas sente que tem responsabilidade social, tendo em vista que a maioria das pessoas jovens podem não desenvolver sintomas ou tê-los de forma leve e ainda assim transmitir o vírus. Por isso, ela tem seguido a orientação de distanciamento social e a implementação do trabalho remoto desde segunda-feira, 16, por tempo indeterminado.

Já Mariana Boueri de Assis Figueiredo Lamana, de 33 anos, é estudante e monitora na Universidade do Estado do Arizona, nos EUA, e teve as aulas e os atendimentos presenciais transferidos para o online. Ela mora há quatro anos no país e também relata não ter visto esvaziamento de prateleiras tão intenso quanto agora.

Água, papel toalha, papel higiênico e conservas estão em falta nos mercados por onde passou. “Desde o fim de fevereiro, as pessoas já estavam começando a se mobilizar sobre a necessidade de fazer estoques de produtos em casa”, conta Mariana. Ela afirma que está preocupada, mas não em pânico, porque mora apenas com o marido e não tem crianças ou idosos em casa.

“O problema do esvaziamento das prateleiras é que vai faltar coisas para outras pessoas. Faz uns 10 dias que estou procurando papel higiênico e não consigo achar. Não tem nada na Amazon e nos sites dos grandes supermercados daqui está tudo esgotado”, relata. Consciente, a estudante diz que não pretende fazer estoque quando encontrar os produtos de que precisa. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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