Janaína Fideles /Arquivo Pessoal
Janaína Fideles /Arquivo Pessoal

Na Grande Natal, idoso morre de covid-19 após esperar 11 dias por leito de UTI

Secretaria de Estado da Saúde não cumpriu determinação judicial que pedia transferência de João Alves de Souza para unidade de terapia intensiva das redes pública ou privada

Ricardo Araújo, Especial para O Estado

16 de junho de 2020 | 19h13

NATAL - Faltando pouco menos de um mês para o aniversário de 81 anos, o aposentado João Alves de Souza perdeu a guerra pela vida para a covid-19. Após 11 dias internado no Hospital Maternidade Belarmina Monte, em São Gonçalo do Amarante, na Grande Natal, o idoso que apresentava comorbidades como diabetes e hipertensão morreu no fim da tarde desta segunda-feira, 15, à espera de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). 

"Meu pai apresentou um quadro de diarreia, febre e dor no corpo. Levamos ao hospital e deu uma alteração no exame de sangue. O médico pediu o teste rápido para covid-19, que deu negativo. Voltamos para casa e ele começou a piorar e pediu para voltar para o hospital", contou a filha Janaína Fideles. "No dia 4 de junho, ele deu entrada na unidade com prescrição para UTI. No nono dia, foi intubado. Depois de três dias, não resistiu. Eu perdi meu pai na segunda-feira, por volta das 16h30", relembrou, emocionada. 

João Alves de Souza, cuja família tem raízes na Paraíba, foi enterrado às pressas nesta terça-feira, 16, no Cemitério do Distrito de Olho D'Água do Chapéu, distrito de São Gonçalo do Amarante, num jazigo emprestado. 

O idoso era mais um entre os 132 pacientes que aguardavam, até esta terça-feira, um leito de internação na rede pública de saúde do Rio Grande do Norte para tratar a covid-19, conforme plataforma da Central de Regulação da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN). Destes, sete estavam listado na Prioridade 1, que são os casos graves que necessitam de leito de UTI para tratamento; e outros 53 aguardam vagas em leitos com respiradores mecânicos. Não há, porém, nenhuma vaga nos hospitais referenciados pela Sesap/RN para a covid-19 na Grande Natal e na região oeste do Estado, consideradas os epicentros da pandemia localmente. Até mesmo os hospitais privados instalados em Natal estão fechando, de maneira temporária, os prontos-socorros por falta de leitos.

"Eu corri para tentar salvar meu pai. Tinha laudos que mostravam que os órgãos dele estavam parando. Ele era um paciente de extrema gravidade. Em São Gonçalo do Amarante não tem hospital de referência para a covid-19. Muita gente está morrendo nesse hospital. Daria tempo ter salvado o meu pai, mas o leito de UTI não chegou. Onde está o Hospital de Campanha?", questionou Janaína Fideles. 

O Hospital Maternidade Belarmina Monte é o mesmo que, dias atrás, uma médica plantonista se negou a atender uma idosa alegando falta de leitos e informando à família que a idosa "entraria ali para morrer."

No caso do aposentado João Alves de Souza, nem mesmo uma determinação judicial foi capaz de garantir a transferência do idoso para um leito crítico para o tratamento da infecção causada pelo novo coronavírus. No dia 12 de junho, dois dias antes do óbito, o juiz plantonista Luis Felipe Lück Marroquim, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, deferiu o pedido de tutela de urgência impetrado pela família de João Alves de Souza e determinou ao Estado do Rio Grande do Norte a "internação na rede hospitalar pública ou privada regulada" do idoso "para uma Unidade de Terapia Intensiva - UTI pelo tempo necessário ao restabelecimento efetivo de sua saúde".

A medida, porém, não foi cumprida pela Secretaria de Estado da Saúde Pública. Conforme exposto pela Central de Regulação da pasta, em nota, "como os hospitais da rede pública de saúde estão com as UTIs Covid colapsadas, a Regulação tentou um leito de UTI na rede privada pactuada com o SUS, que também não tinha leito disponível". 

A expectativa da Sesap/RN é de abrir aproximadamente 50 novos leitos de UTI nos próximos 15 dias em hospitais públicos de Natal e da Região Metropolitana. 

Decreto renovado

A expectativa de reabertura das atividades comerciais no Rio Grande do Norte para esta quarta-feira, 17, será frustrada. O governo estadual irá editar um novo decreto ampliando a quarentena para o dia 24 de junho, em razão do elevado número de pacientes à espera de leitos de clínica médica e de Unidade de Terapia Intensiva para o tratamento da covid-19. A postergação foi criticada por entidades ligadas aos setores de Comércio e Serviços no Estado, que apontam prejuízos superiores a R$ 190 milhões por causa do fechamento dos empreendimentos comerciais. 

"As medidas de intensificação do isolamento social do último decreto, a antecipação dos feriados, pelo Estado e por alguns municípios, e o Pacto pela Vida que contou com a adesão da maioria dos municípios potiguares, certamente têm nos revelado bons resultados que poderão ser observados nos próximos dias. Mas, infelizmente, não são suficientes para nos dar segurança para a reabertura do comércio", disse a governadora Fátima Bezerra (PT).

O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio RN), Marcelo Queiroz, criticou o adiamento. "A economia está além do limite que pode suportar. O comércio já demitiu cerca de dez mil pessoas, o setor deixou de faturar, até o fim de maio, R$ 192 milhões. Além disso, os números que temos hoje no Estado, relativos ao avanço da doença, permitem que o protocolo de retomada seja implantado, já que ele é extremamente rigoroso e prevê passos firmes e graduais com responsabilidade e toda a segurança possível para empreendedores, colaboradores e clientes", declarou Queiroz. 

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