Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

Em NY, quase 9 em cada 10 pacientes que precisaram de respirador não sobreviveram

Os dados são de um estudo considerado o mais abrangente feito com os pacientes nos EUA até o momento

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 12h00

WASHINGTON — Um estudo feito no Estado de Nova York, o mais afetado pelo coronavírus nos Estados Unidos, mostrou que 20% dos pacientes hospitalizados por covid-19 morreram, mas a situação para os que precisaram de respiradores mecânicos foi muito diferente: 88,1% dos que foram colocados em respiração mecânica morreram. O estudo, assinado por pesquisadores do sistema Northwell Health, é considerado o mais abrangente feito com os pacientes nos EUA até o momento. Os Estados Unidos têm 870 mil infectados pelo coronavírus e cerca de 50 mil mortes, sendo mais de 16 mil concentradas em Nova York


Entre 1 de março e 4 de abril, os pesquisadores analisaram 5,7 mil pacientes infectados que foram hospitalizados em 12 hospitais na maior prestadora de serviços de saúde do Estado de NY, a rede Northwell. Os hospitais analisados ficam na cidade de Nova York, em Long Island e em Westchester County, regiões consideradas epicentro do vírus no Estado. A média de idade dos pacientes era de 63 anos, sendo que 56,6% eram hipertensos, 41,7% obesos e 33,8% diabéticos. 

Durante a hospitalização, 14,2% dos pacientes foi tratados em uma Unidade Intensiva de Tratamento (UTI) e 12,2% precisaram de respiração mecânica. Após serem liberados, 2,2% dos pacientes precisaram de nova internação em um tempo médio de três dias depois da alta. O estudo contabiliza apenas pacientes que já tiveram alta ou morreram, não considerando os que continuavam internados quando o período do levantamento foi concluído. 

A maioria (70%) dos que chegaram ao hospital e precisaram ser hospitalizados não tinham febre, apesar de este ser um sintoma que vinha sendo requisito nos EUA para testar casos suspeitos de covid-19 em março e apontado pelo CDC, a autoridade de saúde americana, como a queixa mais recorrente dos infectados por coronavírus.

Os dados sobre a alta mortalidade entre os pacientes que precisaram dos ventiladores - a respiração mecânica invasiva - reacenderam nos Estados Unidos o debate sobre o uso destes equipamentos. A mortalidade dos que foram colocados em respiradores foi ainda mais alta do que já indicavam os dados iniciais nos Estados Unidos e também da China

Os respiradores mecânicos são necessários para garantir oxigênio aos pacientes que têm os pulmões falhando. Para isso, o paciente precisa ser sedado ter um tubo colocado pela sua garganta. A taxa de mortalidade para pacientes colocados em respiração mecânica por qualquer problema respiratório é alta, perto dos 50%, segundo especialistas, mas no caso do coronavírus tem sido ainda mais elevada.

Não há pesquisa científica que indique até o momento a razão pela maior mortalidade nestes casos - se tem a ver com a gravidade dos pacientes quando chegam a essa etapa do tratamento no caso da covid-19. Como o procedimento é invasivo e os estudos têm sugerido a dificuldade de recuperação dos infectados pelo coronavírus que precisam do equipamento, médicos têm relatado nos EUA que postergam o tanto quanto possível o uso dos respiradores mecânicos. 

Há também o receio de que não haja respiradores disponíveis para todos aqueles que precisarem, o que gerou uma corrida dos governos estaduais e federais dos EUA para garantir a compra dos equipamentos e para converter a produção industrial interna para confeccionar os ventiladores.

"Eu olhei para todos aquelas radiografias de pessoas nos respiradores e chamei uma amiga que é responsável pela UTI e perguntei: estou deixando passar alguma coisa? Por que estamos buscando ventiladores e eles não estão funcionando? Ela me disse: 'essa é uma grande questão sobre a qual ninguém tem falado'. E eu pensei: se isso não irá funcionar da forma como precisamos, nós temos que falar sobre isso", afirma a médica Kathryn Dreger, que trabalha em Northern Virginia e é professora assistente de medicina na Georgetown University. Em um artigo ao jornal The New York Times com o título "o que você precisa saber sobre os ventiladores", Kathryn quis chamar a atenção para o uso agressivo dos equipamentos e passou a dar entrevistas sobre o assunto desde então. "Escrevi o artigo porque senti o dever de avisar meus pacientes e deixá-los saber como o respirador realmente funciona para que eles pensem sobre isso, discutam isso com suas famílias", afirma a médica. 

Ela afirma que o estudo com base nos pacientes em NY é uma fotografia que pode se alterar, considerando que os pesquisadores não incluíram os pacientes que continuaram internados após o fim da pesquisa. Os próprios pesquisadores consideram que a taxa de mortalidade pode ser diferente se incluídas posteriormente informações sobre os pacientes que continuaram hospitalizados depois do encerramento da análise. Sobre o tratamento, a médica diz que é necessário, apesar de machucar boa parte dos pacientes. "É um pouco como dizer, você machucou a mão dele quando o agarrou e o impediu de cair do penhasco? Eles vão morrer se você não os colocar no ventilador", afirma. 

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