Felipe Rau|Estadão
Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo Felipe Rau|Estadão

Em São Paulo, ao menos seis pessoas morrem em casa por dia

Com pandemia, foram 409 casos na capital paulista de 16/3 a 21/5; média normal na cidade entre 2014 e 2018 não chegava a 3

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 05h00

Ao menos 409 pessoas morreram dentro de casa com suspeita ou confirmação de covid-19 na cidade de São Paulo desde o início da pandemia, revelam dados da Secretaria Municipal da Saúde. Os números, referentes ao período de 16 de março (quando o primeiro óbito pela doença na capital foi registrado) a 21 de maio, representam 6,1 mortes em domicílio por dia, mais do que o dobro da média de mortes diárias em domicílio por problemas respiratórios observada em cinco anos anteriores, segundo levantamento do Estadão.

De acordo com dados do portal Datasus, do Ministério da Saúde, o número médio de pessoas mortas em domicílio por doenças respiratórias na cidade de São Paulo foi de 2,8 entre os anos de 2014 a 2018, último período com dados disponíveis, menos da metade do observado agora entre vítimas da covid-19.

A maioria das vítimas com suspeita ou confirmação de infecção pelo novo coronavírus que morreram em casa, sem ter acesso à assistência médica, era idosa. De acordo com os dados da secretaria, 336 (82,1%) tinham 60 anos ou mais, das quais 240 eram maiores de 75 anos, a faixa etária mais afetada.

Apesar da predominância de mortes em domicílio entre os mais velhos, foram registrados ainda 41 óbitos em domicílio cujas vítimas tinham idades entre 50 e 59 anos, 20 mortes entre pessoas de 40 a 49 anos, e 11 entre menores de 40 anos – incluindo duas crianças. Uma morte não teve a idade declarada.

Quanto à região da cidade, os distritos com o maior número de mortes em casa foram Cidade Ademar, na zona sul, e Pirituba, zona norte, ambos com 11 ocorrências cada. Aparecem em seguida, com dez óbitos cada, os distritos de Capão Redondo, Cidade Dutra, Grajaú (todos na zona sul), Cangaíba (zona leste) e Vila Medeiros (zona norte). “As mortes em casa que a gente atende são todas na periferia. Você quase não vê isso acontecer em bairros de classe média-alta porque é uma população que tem mais acesso a um médico e está mais atenta aos primeiros sinais da doença. Já as classes mais pobres são as que estão mais expostas e que encontram o serviço de saúde mais saturado”, contou ao Estadão um médico do Samu que diz estar atendendo mais casos do tipo nos últimos dois meses.

O profissional, que não quis ter o nome divulgado, relatou que as equipes do serviço de emergência já estavam habituadas, antes da pandemia, a atender algumas mortes em domicílio, principalmente no início da manhã. “Antes, geralmente eram idosos que tinham morte súbita enquanto dormiam e, quando o familiar ia acordá-lo, percebia que havia algo errado. Agora, continuam sendo principalmente idosos, mas atendemos mortes em domicílio o dia todo”, diz.

O médico socorrista conta que são duas as situações mais comuns que explicam as frequentes mortes por covid-19 nas residências: ou o paciente buscou uma unidade de saúde e, por não apresentar inicialmente tanta gravidade, acabou liberado a voltar para casa, ou ele nem chegou a ter tempo de buscar assistência porque teve uma piora repentina.

“A família geralmente relata que a pessoa já estava apresentando tosse, febre baixa e prostração (fraqueza), mas como eram sintomas leves, ainda não tinha ido ao médico. Só que é muito comum a pessoa estar com manifestações leves e ter uma súbita descompensação. De repente, ela afunda de vez”, alerta o especialista.

Ele diz que isso é comum entre os idosos, que já têm uma prevalência maior de doenças crônicas que agravam um eventual quadro de infecção pelo coronavírus. “Se o idoso já tem uma patologia e pega covid-19, o vírus descompensa as doenças de base e evolui muito mais rápido e de forma menos favorável”, diz o médico ao Estadão. “A chance dessa pessoa ter uma morte súbita em domicílio é maior. Se ela retardar um pouquinho a ida ao pronto-socorro, pode piorar repentinamente. Mas também não foram poucas as situações em que a família conta que o paciente tinha procurado o serviço médico. A verdade é que os hospitais acabam internando só os casos graves.”

Dados do Portal da Transparência do Registro Civil, que reúne números de cartórios, mostram que o fenômeno não é exclusivo da cidade de São Paulo. No mesmo período analisado (16 de março a 21 de maio), o País teve aumento de 15,8% no número de mortes em domicílio em relação ao registrado em 2019, considerando todas as causas, não só as respiratórias. O número de ocorrências do tipo passou de 36.263 em 2019 para 41.995 neste ano.

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'Não podemos fazer nada', é o que ouve família ao pedir socorro em Manaus

Avanço do coronavírus faz sistema de saúde colapsar na capital do Amazonas

Thaise Rocha e Bruno Tadeu, Especiais para o Estadão

15 de junho de 2020 | 05h00

Após ligar dois dias seguidos solicitando uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Rosinha Alves perdeu a tia Maria Portella, de 61 anos, que estava com suspeita de covid-19. Em Manaus, esse não é o primeiro relato de morte em casa por falta de estrutura no serviço de atendimento.

A família mora na comunidade São João, localizada na BR-174, que liga Manaus a Boa Vista, cujo hospital mais próximo é o Delphina Aziz, que tornou-se referência no tratamento do coronavírus no Estado. Maria Portella começou a manifestar sintomas como febre, dor no corpo e diarreia no dia 20 de abril. Ela chegou a ter uma melhora na sexta-feira, dia 24, mas no dia seguinte ficou debilitada. 

“Sábado (dia 25) ela ficou ruim mesmo, tossia demais e acabava desmaiando. Antes de ela sentir falta de ar pela primeira vez, eu já tinha ligado e disseram que não tinha ambulância. Liguei no domingo, 26, quando ela piorou mesmo e disseram: 'Não podemos fazer nada, procure o pronto-socorro mais perto’. Eu disse: 'Moça, a senhora sabe onde a gente mora? A gente mora na BR-174, a gente não tem dinheiro para alugar carro’”. 

Ainda segundo Rosinha, a atendente a teria chamado de ignorante. “É por que não é parente seu, senhora, a titia está morrendo”, ela lembra ter respondido. Maria pediu para a irmã lhe abanar e ficou apontando para os peitos, já que não consegui falar. Três horas depois, ela morreu. 

Além da dor da perda, a família também teria que lidar com as dificuldades para o sepultamento. A ambulância chegou a ser enviada à comunidade após a morte de Maria e os profissionais orientaram a família a registrar um boletim de ocorrência em uma delegacia próxima. 

“A ambulância veio e disse ‘vá na delegacia e faça um BO’. Só isso. Fui no 19º DIP (Distrito Integrado de Polícia) e mandaram eu procurar o SOS funeral. Fui e disseram que iam remover o corpo a meia-noite de domingo, dia 26. Não vieram. Quando deu 14h da segunda, o corpo ainda estava aqui. Procurei a imprensa e vieram remover às 22h da segunda-feira. Isso por causa da reportagem, se não, nem tinham vindo”, disse. 

Para Rosinha, se a ambulância tivesse sido enviada quando solicitada, talvez sua tia ainda estivesse viva, já que ela não fumava, não fazia uso de bebidas alcoólicas e nem possuía problemas de saúde. 

Dados

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), apenas em Manaus, de abril a até o início do mês de junho foram registrados 980 óbitos em domicílio, sendo 538 de casos confirmados de covid-19 e 91 suspeitos. Maio foi o mês com número mais expressivo de morte por coronavírus, registrando 348. Os dados para o interior do Estado não foram informados. 

Há também casos de pessoas que preferiram ficar em casa em vez de buscar atendimento, como o seu Raimundo Gama Leandro, que faleceu aos 93 anos, com suspeita de covid-19. Segundo o neto, Daniel Oliveira, o avô apresentava uma gripe que o fez definhar com o passar do tempo. O idoso estava sendo acompanhado por um dos filhos, que é enfermeiro, e pediu para não ser levado ao hospital porque não queria morrer sozinho. No dia da sua morte, 20 de abril, ele chegou a gravar um vídeo para família.

“Minhas filhas, eu estou muito ruim, eu não consegui dormir essa noite. Minhas filhas, venham para cá, estou precisando de vocês, eu estou muito mal e acho que não passo dessa noite. Por favor, venham para cá”, disse Raimundo na gravação, conforme relembra Daniel. “Veio um problema respiratório durante a noite, ele passou a noite inteira acordado, de manhã ainda gravou o vídeo e, às 20h, ele morreu. Ele falou que não queria morrer sozinho, ele queria morrer em casa”, acrescentou o neto.

Colapso

Em paralelo à superlotação de leitos clínicos e de UTI, que chegou a acumular mais de 1.300 pessoas internadas na capital, a repentina piora de doentes crônicos em isolamento domiciliar comprometeu o pronto-atendimento de inúmeras vítimas fatais.

Com o sistema de saúde à beira do colapso durante semanas, o Samu de Manaus, que recebia média de dez chamados por dia, passou a atender mais de 50 ocorrências diárias. 

A grande maioria dos casos eram de parada cardiorrespiratória, segundo o diretor médico do Samu, Domício Melo. “O solicitante informava que o paciente estava inconsciente e sem respirar. Outro fator é que, normalmente, não informam qualquer fato que possa relacionar com covid-19”, descreveu.

O rápido agravamento de uma gripe pegou de surpresa a família de Damião Antonio da Silva, de 80 anos. Muito debilitado, o aposentado, que era diabético e tinha problemas cardíacos, morreu nas primeiras horas do dia 21 de abril. Foi atendido pelo Samu cerca de 1h30 depois, segundo a sobrinha Leydianne Silva, de 31. “Ficamos tristes porque não teve um exame minucioso. No laudo dizia que foi de causa natural”, disse.

No período de pico da pandemia, a diretora da Fundação de Vigilância Sanitária (FVS) do Amazonas alertou que muitos pacientes chegavam nas unidades de saúde em estágio muito avançado da doença, sem possibilidade de tratamento. “Começa com sintomas de febre, respiratórios, tosse seca e vão avançando, principalmente em pacientes hipertensos, diabéticos, ou que tenham outras comorbidades, como doenças cardíacas, pulmonares ou mesmo que sejam obesos”.

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