Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Em São Paulo, local da moradia influencia morte por covid-19; na Europa, idade era fator de risco

Estudo da Rede Nossa São Paulo mostra que localidades com piores índices de qualidade de vida apresentam maior número de mortes por covid-19

Giovanna Wolf, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2020 | 10h01

O endereço é um fator de risco na pandemia do novo coronavírus em São Paulo: os bairros na cidade com piores índices de qualidade de vida também são as regiões mais impactadas pela doença. É o que mostra uma pesquisa da Rede Nossa São Paulo. Segundo o estudo, os bairros que apresentam mais mortes por covid-19 têm um número três vezes maior de favelas em comparação com a média da cidade - Brasilândia e Sacomã, por exemplo, que concentram mais de 500 óbitos, têm 30% e 25% de domicílios em favelas, respectivamente.

A pesquisa cruzou os dados do Mapa da Desigualdade de 2019, que analisa indicadores de qualidade de vida e vulnerabilidades sociais, com o número de mortes registradas de covid-19 pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo até 18 de junho. "Se na Europa a covid-19 foi um risco para quem tinha mais idade, aqui no Brasil onde a pessoa mora também é um risco. A desigualdade é um problema estruturante no Brasil e a pandemia ataca ainda mais essas vulnerabilidades", afirmou Jorge Abrahão, coordenador geral da Rede Nossa São Paulo, ao Estadão.

De acordo com o estudo, bairros onde há menor expectativa de vida também têm mais óbitos por covid-19. Grajaú, onde a idade média ao morrer é 59 anos, e Cidade Tiradentes, cujo número é 57 anos, somam juntos 460 mortes. Enquanto isso, Moema, onde a idade média ao morrer é 81 anos e Jardim Paulista, cujo número é 80 anos, têm apenas 130 óbitos.

A professora Soraia Domingues, de 44 anos, que participa do coletivo Grajaú Faz Assim, tem lidado diariamente com essa desigualdade. "Apesar da pandemia ser a mesma para todo mundo, os acessos e as estruturas são diferentes. Vejo questões urgentes hoje como alimentação e saneamento básico, e também de saúde mental na periferia", afirma ela, que juntamente com o coletivo já ajudou a atender 1.500 famílias no bairro, com distribuição de alimentos e produtos de higiene.

Para Marcivan Barreto, presidente da Central Única das Favelas do Estado São Paulo (CUFA), o impacto da pandemia está sendo maior em regiões com favelas também por causa da dificuldade do isolamento: "Como falar de isolamento social em lugares que têm aglomerados de casas e muitas pessoas vivendo na mesma residência? Para uma pessoa em um bairro de classe alta é possível ficar em isolamento e conversar pela janela com os vizinhos. Nas favelas tem sido um desafio fazer as pessoas ficarem dentro de casa", diz ele, que mora em Heliópolis há 40 anos.

A Rede Nossa São Paulo também analisou o impacto da pandemia de covid-19 na população negra na cidade. Nos bairros com maior população preta e parda o número de mortes pela doença é maior: Jardim Ângela, por exemplo, que tem 60% da população preta e parda, apresenta um número de mortes 5,5 vezes maior que o Alto de Pinheiros, em que pretos e pardos são 8%, mostrou a pesquisa.

Problema antigo

Ligia Vizeu Barrozo, professora do departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) explica a desigualdade sócio-espacial no município de São Paulo não é uma questão nova: "Existe um padrão bem nítido entre a mortalidade e a espacialidade. Mesmo antes da pandemia, os riscos das principais causas de morte em SP eram maiores nas áreas periféricas", afirma, completando que as principais capitais do Brasil sofrem com esse problema da desigualdade social em seus municípios.

Soraia, que mora no Grajaú, sabe bem disso: "As dificuldades com assistências vêm de muito tempo, e agora estão escancaradas. Desde 2017 nosso coletivo trabalha para fortalecer a rede de serviços básicos na nossa região."

Marcivan Barreto, da CUFA, espera que a pandemia chame a atenção para a desigualdade: "Precisamos de uma ação mais atuante por parte dos governantes e de mais carinho com essa população. No pós-pandemia, os problemas vão continuar", diz.

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