EFE/Antonio Lacerda
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Em SC, avanço da covid-19 coloca todas das regiões em alerta; Blumenau proíbe idoso em ônibus

Na famosa cidade turística, número de infectados subiu oito vezes após reabertura de shoppings; na capital, vereadores querem derrubar decreto que fechou comércio

Fábio Bispo, especial para O Estado

26 de junho de 2020 | 10h00

FLORIANÓPOLIS - O avanço da covid-19 em Santa Catarina colocou todas as regiões do Estado em sinal de alerta. Dados do painel de riscos, por região, apontam nível grave para a doença em praticamente todo o território. Na região da Foz do Rio Itajaí, o nível é gravíssimo. A evolução da doença acabou forçando prefeitos a adotarem novas medidas esta semana, mas não há consensos.

Em Blumenau, o prefeito Mário Hildebrandt (Podemos), proibiu a partir desta sexta-feira, 26, a circulação de idosos no transporte coletivo. No entanto, a medida é vista como discriminatória pela Defensoria do Estado. Parques públicos e aglomerações também estão proibidos. Shopping Centers e comércio, em geral, não foram afetados pela nova medida.

Segundo Hildebrandt, as medidas foram tomadas após a taxa de ocupação das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) atingir 60%. Ele reforça que o foco será na população idosa. “Se eles são os que mais ocupam os leitos de UTIs, se esse número aumentar, eles serão os que mais vão sofrer”, disse.

Sobre não adotar medidas no comércio em geral e nos shopping centers, o prefeito disse que pretende manter as atividades econômicas, mas ampliando o distanciamento social. “Os shoppings já estão com restrições de 50%”, argumentou.

A decisão do prefeito de excluir somente os idosos do transporte não agrada a Defensoria Pública do Estado. Na semana passada, a entidade conquistou na Justiça decisão que proíbe a concessionária do transporte público de retirar as gratuidades do serviço, como anunciado pelo Município. 

Para o defensor público Fernando Correa, a medida é discriminatória e viola o Estatuto do Idoso, além de apresentar uma série de problemas sobre a fiscalização. “Outras pessoas, que também integram grupo de risco, não estão tendo acesso vedado ao transporte público. Na prática, acarreta em medida discriminatória, porque apenas os idosos seriam visivelmente integrantes do grupo de risco”, disse.

Além disso, pessoas que, eventualmente, não apresentarem o cartão de idoso, poderiam acabar passando despercebidas ao pagar a passagem. “Isso é nitidamente ilegal, já temos decisões no Tribunal de Justiça de São Paulo e STF que dizem que é ilegal esse tipo de restrição”, continuou Correa.

Evolução dos casos em Blumenau

O sapateiro Reinildo Stuhlert, de 55 anos, que tem loja há mais de 20 anos na 7 de Setembro, uma das vias mais movimentadas de Blumenau, disse que o movimento caiu em 60%, mesmo com a reabertura do comércio, em abril. Mesmo assim, ele apoia medidas mais rígidas. “Eu vejo que as pessoas estão se cuidando muito pouco. Claro que queremos continuar prestando o serviço e atendendo clientes, mas, se as coisas continuarem assim, eu acho que as medidas têm que ser mais rígidas”, afirmou. 

Em abril, quando a cidade reabriu os shopping centers, após um mês de fechamento, 153 pessoas estavam infectadas. Na última quarta-feira, 24, eram 1.146 casos e seis mortes, número oito vezes maior. 

O infectologista que atua em Blumenau, Amaury Mielle, avalia a situação como de “extrema gravidade”. Segundo ele, Blumenau não cumpre o "dever de casa" e a flexibilização no Estado começou antes da hora.

“Não tivemos a implantação clara e objetiva de um isolamento ou de uma quarentena. Eu sempre digo que tivemos um aconselhamento para ficar em casa, mas não um isolamento. Se a gente analisar o que foi feito aqui em Santa Catarina, por exemplo, as medidas do litoral eram diferentes das medidas de Blumenau, assim como na Capital e no Oeste. Desde o início, acho que houve um erro estratégico que custou e está custando nessa demora para vermos uma luz no fim do túnel”, lamentou. 

O médico ainda questiona os critérios anunciados pela municipalidade que reduz, por exemplo, em algumas horas, o funcionamento de estabelecimentos, sem se basear no que aponta a epidemiologia e as projeções estatísticas. “Quando se toma uma medida restritiva hoje, você tem que avaliar daqui para a frente. Onde está escrito que duas horas fazem diferença estatística, quando se restringe funcionamento do estabelecimento?”, questionou.

Mortes aumentaram em 40% após liberação do transporte

Em 1º de junho, o governador Carlos Mosés (PSL) autorizou que municípios tivessem autonomia para decidir sobre a flexibilização nas cidades. As medidas seriam tomadas com base no painel de riscos, que divide o Estado em microrregiões.

A primeira iniciativa nas principais cidades, após o decreto, foi liberar o transporte público, o que ocorreu a partir do dia 8 de junho. Desde então, o número de infectados cresceu 30% no Estado, saltando de 15.737 para 20.921. Já o número de mortes aumentou em 40%, de 56 para 80.

A evolução da covid-19 na capital de Santa Catarina

Em Florianópolis, o prefeito Gean Loureiro (DEM) também voltou a restringir algumas atividades na cidade. Desde quarta-feira, 24, shoppings, galerias, academias e quadras esportivas deverão ficar fechados 14 dias, no mínimo.

Restaurantes só poderão abrir das 11 às 15h, em dias de semana. O uso de máscaras passou a ser obrigatório em toda a cidade e a multa por descumprimento da regra é de R$ 1.250.

A medida do prefeito de Florianópolis gerou reações. Entre elas, um projeto para derrubar o decreto, protocolado na Câmara Municipal por vereadores da própria base governista. Comerciantes acompanharam a apresentação da proposta em uma manifestação em frente ao Parlamento. A matéria foi encaminhada para discussão.

Florianópolis tem 1.208 casos e 13 mortes. Santa Catarina tem 20.921 casos e 279 mortes. No momento, 1.271 pessoas estão internadas. A ocupação de leitos é mais grave na região de Itajaí, que enfrentou momentos de colapso do sistema de saúde no fim de abril.

Na Grande Florianópolis, o Hospital Regional também emitiu um comunicado à Secretaria de Saúde apontando a lotação da unidade para todas as especialidades. / COLABOROU NICOLAS HORÁCIO, ESPECIAL PARA O ESTADO

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