PATRICIA SANTOS/AE
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Em seis anos, País desativa 10,1 mil leitos pediátricos na rede pública

Apenas em UTIs neonatais, para recém-nascidos em estado grave, seriam necessárias mais 3,2 mil vagas, segundo parâmetros da Sociedade de Pediatria

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

27 Março 2017 | 03h00

Brayan tinha só um dia de vida quando foi diagnosticado com disfunção cardíaca grave. Os médicos da maternidade avisaram à família que ele teria de ser transferido para um hospital especializado e passar por cirurgia o mais rápido possível. Quanto mais o procedimento demorasse, maior era o risco de morte. A vaga, porém, só saiu três meses depois, quando a família entrou com ação na Justiça. “Toda noite era uma angústia. A gente ia embora do hospital e não sabia se ele estaria vivo no outro dia”, diz a atendente Érica Bezerra de Melo, de 25 anos, mãe do bebê.

Brayan, hoje com 6 meses, aguentou esperar e sobreviveu à cirurgia. Já Luan, nascido em novembro, não suportou tamanha demora. Diagnosticado também com problema no coração, o bebê morreu com só 70 dias, após aguardar um mês por um leito que nunca foi liberado. “A gente tenta acreditar que ele veio para esse mundo numa missão. Ou a gente pensa assim ou fica revoltado”, diz a prima do menino, a estudante Maria de Jesus Araújo, de 19 anos.

A situação da rede hospitalar para crianças no País preocupa. Entre 2010 e 2016, o Sistema Único de Saúde (SUS) fechou quase 10,1 mil leitos de internação em pediatria clínica (para pacientes de 0 a 18 anos), segundo levantamento inédito feito pela Sociedade Brasileira de Pediatria e obtido com exclusividade pelo Estado. Em 2010, a rede pública tinha 48,2 mil vagas do tipo (entre leitos próprios e conveniados). Em 2016, caiu para 38,1 mil.

Só em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) neonatais, estruturas necessárias para atender recém-nascidos em estado grave, como Brayan e Luan, faltam 3,2 mil leitos, conforme parâmetro da Sociedade de Pediatria. Segundo a entidade, são necessários ao menos 4 leitos do tipo por mil nascidos vivos. No País, a taxa atual é de 2,9. 

“É uma situação gravíssima porque as crianças muitas vezes chegam a um serviço de pronto-socorro e não têm para onde ser encaminhadas. Sofrem a família, a criança e a equipe médica”, afirma Luciana Rodrigues Silva, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria. 

Ela atribui a situação à falta de investimento do Ministério da Saúde na área. “Muitos serviços estão fechando as portas por uma questão financeira. Há ainda casos de unidades desativadas porque não têm profissionais suficientes no quadro.”

Dificuldade. Nascido no interior do Tocantins, Luan foi um dos cinco bebês que morreram nos últimos meses no Estado à espera de transferência. No caso dessas crianças, a dificuldade era ainda maior do que a oferta do leito. Não há, em todo o Tocantins, serviço que faça cirurgia cardíaca infantil. O governo estadual depende da liberação de vagas em Goiás, que também enfrenta déficit de leitos.

“Como não há o serviço organizado aqui, sempre que surge paciente com essa necessidade, o Estado fica no escuro, tentando resolver de última hora e achar a vaga em outros locais”, explica Maria Roseli de Almeida Pery, promotora do Ministério Público Estadual (MPE) do Tocantins. Após as mortes dos bebês, ela entrou com ação civil pública para tentar obrigar a Secretaria Estadual da Saúde a criar uma unidade de saúde que absorva a demanda.

Maria de Jesus até chegou a procurar o MPE na tentativa de conseguir a transferência de Luan. “Entraram com ação, mas aí tem muita burocracia na Justiça, teve o feriado de carnaval no meio e as coisas não andavam. No dia 1º de março, na Quarta-Feira de Cinzas, ele não aguentou mais”, afirma.

O quadro dramático não se limita a regiões com estrutura mais precária. São Paulo, Estado mais rico do País, é também o que mais perdeu leitos pediátricos no período. No Estado, a Defensoria Pública acumula casos de crianças da capital que só conseguiram vaga por decisão judicial ou cuja sentença favorável chegou tarde. 

“A fila é a coisa mais cruel que existe porque quem cuida da regulação dos leitos acaba tendo que brincar de ser Deus, organizando por gravidade os que vão conseguir”, afirma Flávio Américo Frasseto, defensor público da Infância e Juventude.

Embora tenha tido alta, Brayan vai precisar de cirurgias cardíacas no futuro. Para a família, fica o receio de enfrentar tudo de novo. “Não gosto nem de pensar para não sofrer por antecipação. Nossa maior preocupação é ele não conseguir leito quando precisar”, afirma a mãe.

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Após cesárea de emergência, bebê esperou um mês por vaga

Equipe médica disse à mãe para não 'cruzar os braços' na busca por um leito; criança sofria de doença grave no coração

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

27 Março 2017 | 03h00

A copeira Rosiane Merlone, de 31 anos, passou pela angústia de uma cesárea de emergência, duas hemorragias e ainda ver a filha entubada logo após nascer. Como se não bastasse isso, ainda teve de ouvir dos médicos para “não cruzar os braços” na tentativa de buscar leito especializado para a bebê, nascida com um quadro grave de cardiopatia – como se a transferência da pequena Milena dependesse só do esforço dos pais.

“Os médicos diziam que o caso dela era muito grave e que era para a gente correr atrás de uma transferência com urgência porque eles não estavam conseguindo vaga em nenhum hospital e, a qualquer momento, minha filha podia não responder mais ao tratamento”, conta Rosiane, que deu à luz em 9 de outubro, em uma maternidade municipal de São Paulo.

Embora soubesse que sua atuação na busca por leito era limitada, Rosiane tentou tudo para salvar a filha. Procurou a Defensoria e até uma emissora de TV para contar seu drama.

“Mesmo assim demorou mais de um mês para ser transferida”, conta a mãe. Após ser transferida, Milena passou por cateterismo e ainda ficou mais três meses internada. 

O bebê foi conhecer sua casa só em 17 de fevereiro. “No tempo em hospitais, pegou bactéria, teve AVC (acidente vascular cerebral). Nosso medo era de receber a pior notícia dos médicos. Ainda bem que essa notícia não veio”, afirma Rosiane.

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Com superlotação, hospital de Goiás tem duas mortes de bebês

Crianças morreram por infecção neste mês; unidade tinha internados, mas capacidade era de 22 leitos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

27 Março 2017 | 03h00

Consequência do déficit de leitos pediátricos na rede pública de Goiás, a superlotação de uma unidade de tratamento semi-intensivo neonatal do Hospital Materno Infantil, referência em Goiânia, pode ter sido responsável pela morte de dois bebês por infecção hospitalar neste mês.

“Estamos investigando a raiz desse surto de KPC (superbactéria), mas, sem dúvida, a superlotação da Ucin (Unidade de Cuidado Intermediário Neonatal) contribuiu para essa situação. Temos uma capacidade instalada de 22 leitos na unidade e, no período em que ocorreu o surto, estávamos com 36 bebês internados”, afirma Rita Leal, diretora regional do Instituto de Gestão e Humanização (IGH), organização social que administra o Hospital Materno Infantil.

Ela explica que, embora a superlotação aumente o risco para os pacientes, o hospital não pode negar atendimento aos bebês e gestantes que procuram a unidade. “Somos um hospital porta aberta. Temos de atender a quem procura. No entanto, é claro que quando você tem uma superlotação, há problemas. A distância adequada entre os leitos não é respeitada e o número de profissionais é insuficiente para todos os pacientes”, afirma Rita.

Rita ressalta que, assim que o surto foi identificado, todas as providências foram tomadas para isolar os pacientes com suspeita de infecção e evitar novas contaminações. “Colocamos uma equipe exclusiva pra cuidar desses bebês,”, afirma. Procurada, a Secretaria de Saúde de Goiás não se manifestou.

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Investimento na área de Pediatria aumentou, diz ministério

Segundo a pasta, redução de leitos está relacionada à mudança no perfil epidemiológico e à tendência mundial de desospitalização

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

27 Março 2017 | 03h00

O Ministério da Saúde diz ter elevado em 12% o investimento na área entre 2010 e 2016. A redução de leitos, defende, está relacionada à mudança no perfil epidemiológico e à tendência mundial de desospitalização. Segundo a pasta, “tratamentos que antes exigiam internação passaram a ser feitos no âmbito ambulatorial e domiciliar”.

O ministério diz ter seguido essa lógica ao investir na expansão de leitos pediátricos voltados aos casos de maior complexidade. Segundo o órgão, se considerar só esse tipo de vaga, a expansão é de 15% no período.

A Secretaria Estadual da Saúde afirmou que a redução “se concentrou principalmente entre os hospitais filantrópicos, como as Santas Casas”, entidades que sofrem dificuldades financeiras “em razão do subfinanciamento federal da saúde”.

Assim como o ministério, a secretaria disse que mudanças em protocolos clínicos levaram à redução da necessidade de internação. O Estado promete ao menos 30 leitos de UTI pediátrica e neonatal com a entrega de nove hospitais em construção.

A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (capital que mais perdeu leitos) diz que já trabalha na implantação de 117 novos leitos pediátricos neste ano, nos hospitais da Brasilândia e de Parelheiros, ambos em obras. Apesar da redução, segundo a pasta, houve aumento de vagas em alguns tipos de serviço, como UTIs infantis. Ressaltou ainda que tem “sistema de regulação de vagas informatizado e online 24 horas por dia”, que otimiza o uso de leitos.

Já a Secretaria de Saúde do Tocantins disse que atua “na busca de vagas em centros pediátricos de cirurgia cardíaca de todo o País para que sejam feitas as transferências necessárias”. Afirmou ainda que “vem empreendendo todos os esforços” para implantar serviço do tipo no Estado.

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