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O médico Cubano Yones Bermudez e outros cubanos cuidam de bar EPITACIO PESSOA/ESTADAO

Em SP, ‘bicos’ de médicos cubanos vão de balconista de farmácia a garçom

Um dos oriundos da ilha atua hoje como animador de festas em Sorocaba e criou até um ‘refúgio’ para colegas

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2019 | 03h00

SOROCABA - Yonel Cruz Bermudez, de 35 anos, ficou quatro anos no Mais Médicos e hoje acumula as funções de garçom, cozinheiro e animador de festa em um bar que abriu em Sorocaba (SP). Assim como ele, muitos outros médicos cubanos fazem “bicos” em todo o Estado. 

O bar Cuba Libre anima as noites na região próxima do aeroporto de Sorocaba com comida e música cubanas. “As contas não param de vencer e não dava mais para ficar esperando o governo. Resolvi arriscar e acho que o mais difícil já passou. O bar já tem até karaokê e está bombando”, conta.

Dois cubanos que atuavam em Campinas, interior paulista, e dois que migraram de Pernambuco para São Paulo também trabalham com Bermudez no Cuba Libre. “Eles ajudam a preparar e servir pratos, ensinam a dançar salsa, fazem um pouco de tudo. Aqui virou um refúgio”, brinca Yonel.

Enquanto isso, Mercedes Rosário Sosa passou pela fase de experiência e foi contratada como balconista de uma farmácia, em Piracicaba. “Fiz muitos amigos e meus ex-pacientes acham estranho quando me encontram no balcão da farmácia. Mas dou graças a Deus por estar aqui.”

Já Victor Manoel Valenciano, de 35 anos, ganha a vida fazendo sessões de terapia holística, em Franca. Ele empregou uma parte do dinheiro que havia economizado para fazer o curso que o habilitou para os atendimentos. “Estou conseguindo duas ou três sessões por dia. Muitos clientes são indicados por amigos e pacientes com quem fiz amizade”, disse.

Valenciano está no Brasil desde 2014 e, durante três anos e meio, atendeu pacientes em uma Unidade Básica de Sáude de Franca. A esposa e os dois filhos pequenos, de 7 e 2 anos, estão em Cuba. “Além de me manter, preciso mandar dinheiro para eles, por isso a situação está difícil.” Ele procurou trabalho em farmácia, hospital e outras áreas médicas para qualquer atividade que não exigisse o diploma, mas nada conseguiu. “Não posso ficar parado à espera do Revalida, porque a prova exige estudo e muitos de nós não têm condições psicológicas de fazer o exame no momento.”

Y., de 35 anos, porém, pediu para não ser identificada, para que a família, em Cuba, não se envergonhe da situação em que se encontra: passou a fazer e vender doces e salgados para sobreviver em Nova Odessa, também no interior paulista. “Não quero dar mais preocupações à minha família.

Ela conta que, desde que deixou o programa, não conseguiu outro trabalho e as economias minguaram. “Mandei currículos para todo lugar, não tive oportunidade. Não tinha outro meio de pagar o aluguel e outras contas. Estou muito triste, pois de médica, passei a quase mendiga”, lamenta. Algumas amigas brasileiras que conheciam o talento culinário de Y. a convenceram a fazer doces para vender. “Faço também croquetas e torrejas (rabanadas), que leva pão, leite, canela e é frita no azeite. Em Cuba é um doce do dia a dia.”

A médica cubana Mercedes Rosário Sosa passou pela fase de experiência e foi contratada como balconista de uma farmácia, em Piracicaba, também no interior. “O dinheiro que tinha guardado deu para pagar aluguel, água, luz e internet, mas acabou.” Mercedes foi a primeira de quatro cubanos a chegar à cidade pelo Mais Médicos. Ela veio ao Brasil em janeiro de 2014 e passou por várias unidades de saúde do município. “Fiz muitos amigos e meu ex-pacientes acham estranho quando me encontram no balcão da farmácia. Eu dou graças a Deus por estar aqui."

Mercedes trouxe os dois filhos para o Brasil, por isso decidiu ficar no país. “Acho esta cidade maravilhosa. Gostaria muito de fazer a vida aqui.” O mais novo dos filhos, um menino de 11 anos, está na escola. O mais velho, de 20 anos, conseguiu uma colocação no setor de limpeza de uma loja de móveis. “Ele ganha R$ 25 por dia e esse dinheiro nos ajuda muito.”

 

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Dois mil médicos cubanos continuam no País e sobrevivem na informalidade

Eles viraram motoristas de app, ambulantes, vigilantes e faxineiros

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2019 | 03h00

BRASÍLIA - Eles chegaram para trabalhar como médicos e agora são motoristas, ambulantes, faxineiros, criadores de peixes ornamentais e pedreiros. Desde o fim do ano passado, quando o governo cubano rompeu o acordo de cooperação com o Brasil em uma reação a críticas do então presidente eleito Jair Bolsonaro, um grupo de 2 mil profissionais do Mais Médicos decidiu ficar, diante da promessa de que não ficariam desamparados. Mas até agora não há perspectiva de que eles voltem a exercer a Medicina.

Niurka Valedez Perez Schneider foi uma das que resolveram permanecer. Acolhida pelo prefeito da cidade goiana de Cidade Ocidental, ela deixou o posto onde atuava e passou a trabalhar no hospital, numa atividade administrativa. “Quando chego, evito entrar pela porta principal. Sempre tem um paciente ou outro que pergunta se não posso dar uma olhadinha rápida. Atender é minha paixão, mas estou impedida.”

Roberto Carlos Rodriguez Bach vive na cidade amazonense de Nova Olinda do Norte e vez ou outra é também abordado por moradores em busca de uma consulta. Há cinco anos ali, ele casou-se com uma brasileira, tem dois filhos e não esconde a saudade do atendimento médico que fazia no distrito indígena em que trabalhava. “Desde que saí, o posto continua vago. A informação é de que nesta semana uma pessoa deverá iniciar o trabalho. Mas, imagine, cinco meses sem uma pessoa fixa para atuar no lugar.”

Enquanto a aldeia esperava por um médico, Bach viu suas economias irem embora. A solução foi começar a trabalhar com a mulher, vendendo farofa com carne salgada em uma praça da cidade. “Isso faço à noite. De dia, trabalho em um supermercado, arrumando estoques.”

Chamados de “irmãos” no programa de governo de Bolsonaro, os cubanos acreditavam que teriam uma oportunidade de continuar no programa, criado pelo governo de Dilma Rousseff em 2013 para fixar médicos em áreas de difícil acesso, onde brasileiros não se interessavam em atuar. Em novembro, depois do rompimento, o então ministro da Saúde do governo Michel Temer, Gilberto Occhi, afirmou que os médicos cubanos interessados em permanecer no País receberiam assistência.

"Fomos humilhados. Nossa vez nunca chegou”, comenta Niurka. A estimativa é de que cerca de 700 casaram-se com brasileiros e, por isso, têm permissão para trabalhar no País. Mas isso não vale para a Medicina. Estrangeiros que não estão no Mais Médicos somente podem exercê-la se validarem o diploma. Isso é feito por uma prova, cuja realização é determinada pelo MEC, com calendários mais rígidos e mais longos que vestibulares. Enquanto uma solução não vem, o grupo resiste, pensa em novas formas de sustento e se organiza para cobrar respostas do governo federal.

Reflexos

Bach não é o único médico cubano cujo cargo ficou desocupado por um longo período. Assim que a cooperação com o governo de Cuba foi extinta, o Ministério da Saúde organizou sucessivas rodadas de seleção para preenchimento de 8.517 vagas abertas com o fim do Mais Médicos. Editais foram realizados e os postos foram ocupados por médicos formados no Brasil ou graduados no Exterior. Deste total, até o início de abril, 1.052 profissionais já haviam saído do programa. “Eles arrumam outras ocupações, passam em provas de residência, não se adaptam”, relata o presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde, Mauro Junqueira.

Os reflexos da dificuldade enfrentada pelo preenchimento dos postos de saúde podem ser constatados no Diário Oficial. Semana passada, para conter o descontentamento dos municípios – os principais afetados, sobretudo na atenção básica –, o Ministério da Saúde afrouxou as penalidades para equipes incompletas do Programa de Saúde da Família. Antes, municípios que não repusessem profissionais da equipe em um prazo de 60 dias eram penalizados com a suspensão de repasses de recursos. Agora, esse prazo é de seis meses, justamente para dar uma folga na contratação.

Licença

Secretários municipais estão entre os grupos que mais fazem pressão para que a situação dos médicos cubanos seja resolvida. Junqueira disse estar otimista e espera que, até o fim do mês, um projeto de lei a respeito esteja pronto. O grupo defende a concessão de uma autorização para cubanos trabalharem por período determinado.

A autorização já é concedida pelo Ministério da Saúde a médicos formados no exterior. Ela prevê uma série de condições: profissionais têm de cumprir uma carga horária mínima e somente podem trabalhar na atenção primária nas cidades atendidas pelo Mais Médicos. “A ideia seria estender a autorização por um ano ou dois para que cubanos possam voltar a atuar no programa”, diz Junqueira.

Nesse formato, seria estabelecido um período para que o profissional pudesse se preparar para realizar a prova de validação do diploma – processo indispensável para que médicos formados no exterior possam também atuar no País.

Ao Estado, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que as mudanças não podem ser feitas por meio de portaria. “Têm de ser feitas via Congresso”, diz. Integrantes da pasta confirmaram que a alternativa mais cotada seria a concessão da autorização temporária.

Pelas contas da pasta, são 2 mil profissionais que, depois do fim do acordo, decidiram ficar no Brasil. Desse total, 22 profissionais atuam no programa amparados em decisões judiciais. Os médicos cubanos se organizaram num grupo que reúne 1.700 pessoas.

Nesta semana, o Estado conversou com um médico do Espírito Santo que decidiu trabalhar como pedreiro. Com receio de se expor, ele não quis dar entrevistas. “Alguns não querem se deixar fotografar na nova atividade”, conta Niurka. O constrangimento de ser visto exercendo outra função vem acompanhado também da sombra da medicina.

“Tem muita gente que não quer dar emprego mais simples, achando que seria uma afronta para a gente”, conta a médica, que ao lado de colegas fundou a associação para lutar pelos direitos dos profissionais que não quiseram voltar para Cuba. “Nessa nova situação, nossa formação é ao mesmo tempo nosso orgulho e obstáculo .”

Poucos são os que se sentem à vontade para dizer porque, diante de tantas dificuldades, não quiseram retornar para Cuba. “Tenho muitas esperanças de fazer o Revalida e exercer a profissão aqui”, diz Bach. “Não quero nada de graça, apenas uma oportunidade para continuar trabalhando num lugar que me apaixonei, que formei vínculos, que tenho certeza de que posso ajudar e, claro, também posso ficar feliz.”

'Vamos nos virando'

Sem perspectiva a curto prazo de voltar a exercer a medicina, Juan Carlos Salas começou a trabalhar como motorista de um aplicativo. “É uma função digna, consigo dinheiro para despesas pequenas”, constata o cubano, que chegou a Pires do Rio em 2014 graças ao Mais Médicos. Embora a esperança de retomar as consultas  seja grande, Salas diz que não vai apenas esperar uma providência do governo. Seguindo os passos de um colega, ele iniciou um curso de terapias alternativas. Já fez um de ventosas e agora  prepara-se  para fazer um de acupuntura. “Está mais próximo da minha área, o rendimento é melhor do que o de motorista”, constata.

Salas diz estar surpreso com a demora em encontrar uma solução para o caso de cubanos que decidiram permanecer no País mesmo depois do fim do acordo com Cuba. “Achávamos que, por causa das diferenças políticas, seria encontrada uma saída. Teríamos o salário integral de médico do programa ou seria feito uma prova para validarmos o diploma”, conta. Mas nada disso foi feito. Quanto mais o tempo passa, mais grave a situação de colegas.  “Vamos nos virando. Mas não seria muito melhor para todos se pudéssemos trabalhar como médicos?"

Doações

O médico Yonnel Gomez Barreiro reduz o tom de voz quando o assunto é seu sustento. Aos 36 anos, ele passou a  viver de  doações de  pacientes que atendeu durante o programa  Mais Médicos. A queda no padrão de vida foi rápida. Quando chegou a Luziânia, em 2014, ele dividia com colegas cubanos um quarto de hotel na região central da cidade. “Entre ajuda de custo do município e o salário pago pelo governo, recebia cerca de R$ 5 mil”. Mesmo pouco,  o dinheiro foi essencial para levar a diante os planos de casamento com a Vânia, uma motorista da cidade com quem, pouco tempo depois, teve o filho Gabriel.

Desde que o governo de Cuba rompeu o acordo de cooperação com o Brasil, Barreiro já perdeu as contas de quantas entrevistas de emprego já fez. Tentou trabalhar em farmácia, em recepção. “Mas as pessoas têm um certo receio de achar que eu, como médico, agora não posso fazer esse tipo de atividade. Eles ficam com vergonha.” As fraldas de Gabriel vêm de doações, o supermercado é oferta de um colega cubano que anos atrás, certo de que queria continuar no Brasil, validou o diploma. “Não perco a esperança de voltar a atuar”, diz.

Enquanto isso não acontece, para ter um pouco mais de liberdade com dinheiro, começou a fazer uma criação de peixes ornamentais em três caixas d'água, dispostas no quintal apertado dos fundos da casa em que vive.  “Como não tenho mais pacientes, trato deles com muita atenção. Refeições, cuidados. E eles sabem quando me aproximo, parece que até já me conhecem”, tenta se animar. A ideia é vendê-los. “Já tenho um colega que se comprometeu a me ajudar. Sei que isso não será suficiente para me sustentar. Mas será uma ajuda.”

Uma das maiores críticas feitas ao acordo do Mais Médicos com Cuba era  que um porcentual significativo do salário dos profissionais ficava com o governo cubano. A justificativa era de que o dinheiro iria para pagamento de benefícios. Para críticos, essa estratégia era comparada a trabalho escravo.

Apesar das dificuldades, Yonnel diz não ter vontade de voltar para Cuba. “Eu gosto do meu país. Mas fiz minha vida aqui.”

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