Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Em SP, falta médico em 1 de 10 equipes de Saúde da Família

Conforme dados oficiais da gestão Fernando Haddad (PT), há problemas em 150 grupos, especialmente na periferia paulistana

Adriana Ferraz e Paula Felix, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Uma em cada dez equipes do Programa Saúde da Família (PSF) está incompleta em São Paulo, conforme dados oficiais da gestão Fernando Haddad (PT). Na comparação com 2014, o déficit de médicos passou de 99 para 150. No ano passado, o problema atingia mais núcleos: 195. O problema ocorre em todas as regiões da cidade, especialmente na periferia, onde, historicamente, é mais difícil manter os profissionais, seja pela distância, pelo salário ou pela dificuldade de adaptação. Cada equipe atende de 1 mil a 4 mil famílias.

A Secretaria Municipal da Saúde afirma que tem trabalhado para zerar a falta de médicos e, até junho deste ano, já havia conseguido reduzir o problema para 11,4% de 1.310 núcleos. Mas quem depende das consultas para renovar receitas, por exemplo, corre para não ficar sem medicamentos. Sem médico na unidade de origem, o jeito é procurar outra porta de entrada.

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É o caso do pintor Carlos Alberto Faria da Silva, de 49 anos. Usuário do PSF na unidade Vila Santa Lúcia, no Jardim Ângela, zona sul da capital, ele diz que espera de dois a quatro meses para passar pelo médico. “Às vezes só tem enfermeiro no posto, que não pode receitar remédio nem pedir exame. Eu preciso das duas coisas porque sou dependente químico e faço tratamento permanente.”

Por causa do déficit, os médicos que atuam no programa acabam sobrecarregados. Na unidade Fazenda da Juta 1, no extremo da zona leste, as quatro equipes de PSF perderam os responsáveis do fim do ano passado para cá, conta a conselheira de saúde Mara Noemi Salim, de 53 anos. “Eles foram saindo um a um. A única médica que tinha ficado acabou saindo também, assim que chegou um profissional novo. Agora faltam três.”

Segundo Mara, a distância do centro e a dificuldade de adaptação com a comunidade são justificativas recorrentes para a saída dos profissionais. “Há ainda quem arrume um emprego que pague mais e aí vai embora mesmo, o que é uma pena, porque esse tipo de atendimento depende muito do vínculo entre médico e paciente.”

Na unidade vizinha, Fazenda da Juta 2, o déficit é menor. Conselheira do posto e também usuária, Ana Cristina Toledo de Camargo, de 51 anos, relata que hoje somente uma equipe, das cinco, está sem médico. “Ele saiu em março e depois disso nenhum outro aceitou assumir a vaga. Esse é um problema recorrente. Vira e mexe acontece isso”, diz. Segundo ela, o maior prejuízo desse déficit é percebido no acolhimento dos pacientes que relatam algum tipo de emergência.

“O acolhimento é o serviço prestado a quem chega na unidade sem hora marcada. Serve para atender quem tem alguma queixa emergencial. Quando tem uma vaga aberta os demais acabam sobrecarregados porque precisam atender os pacientes regulares e os que chegam de outras equipes”, diz Ana.

Domicílio. A dona de casa Adriana da Silva, de 39 anos, é paciente do PSF da Vila Dionísia, na zona norte paulistana. Ela reclama que sua família nunca foi visitada em casa por um médico ou mesmo um enfermeiro. “Em casa, só passam os agentes de saúde, de ‘coletinho azul’. Eles perguntam como a gente está e vão embora”, afirma. “Nos meses de maio e junho nem isso aconteceu.”

A família de Adriana, no entanto, não demanda cuidados especiais. Segundo a dona de casa, ninguém sofre de doença crônica, por exemplo, como diabete ou hipertensão. Assim, as consultas costumam ser de rotina e são sempre feitas na unidade de saúde.

Na Vila Dionísia, as visitas às casas dos pacientes são promovidas, na maioria das vezes, somente por agentes comunitários de saúde. Enfermeiros ou auxiliares podem acompanhar, mas médico, dificilmente. Geralmente, só quando o paciente está acamado ou tem dificuldades de locomoção. Na prática, esse é o modelo adotado em toda a cidade.

Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Gonzalo Vecina diz que todos os integrantes da equipe são importantes para o resultado final. “Mas é claro que a falta do médico é a mais sentida pelos pacientes. Na atenção básica, o vínculo é fundamental e a rotatividade atrapalha. Diante do déficit, é preciso encontrar mecanismos que acelerem o processo de substituição desses profissionais, mesmo que isso não seja feito pela Prefeitura”, afirma.

Vecina se refere ao modelo adotado pelo Município, de terceirizar a gestão de parte dos serviços de saúde às Organizações Sociais. Na capital, as chamadas OSs são responsáveis por 100% das equipes de PSF.

Secretaria espera 50 profissionais do Mais Médicos

A Secretaria Municipal da Saúde informou que parte do déficit de médicos no Programa Saúde da Família já foi reduzido em 2016. Segundo a secretária adjunta de Saúde, Célia Cristina Bortoletto, o total de equipes sem médico caiu de 195 para 150 nos últimos seis meses. “Com a chegada de 50 novos profissionais do Programa Mais Médicos ainda em agosto, a queda será maior”, afirmou.

A secretária ressalta que a falta de médicos é sentida em pouco mais de 10% do total de equipes. “Esse porcentual reflete uma flutuação natural do mercado e ocorre mais no início do ano, quando os profissionais vão atrás de residências. É ruim, claro, mas não é um número alto”, afirma. 

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