Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Em SP, quase 600 unidades de saúde têm estoque zerado de bloqueadores usados em pacientes covid

Médicos estão recorrendo a remédios mais antigos, já fora de uso, para suprir a escassez

Priscila Mengue e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 05h00

Pelo menos 591 serviços municipais de saúde do Estado de São Paulo estão com os estoques de bloqueadores neuromusculares zerados. Os sedativos estão em falta em 342 serviços. Os dois medicamentos são essenciais para a intubação de pacientes – procedimento que se tornou mais frequente por ser usado no tratamento dos casos mais graves de covid-19. Médicos estão recorrendo a remédios mais antigos, já fora de uso, para suprir a escassez.

Os dados são de levantamento divulgado pelo Conselho de Secretários Municipais de Saúde de São Paulo (Cosems/SP). Como o Estadão já havia noticiado, não só hospitais, mas também Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), pronto-socorros e até postos de saúde têm recebido pacientes graves de covid-19 por causa do recrudescimento da pandemia no Estado. A Secretaria Estadual de Saúde diz que o Ministério da Saúde não está enviando os medicamentos nas quantidades necessárias.

Nesta quinta-feira, 8, São Paulo alcançou a marca de 2,5 milhões de casos confirmados de covid-19 e 80 mil mortes. Segundo balanço da Secretaria Estadual de Saúde, há 28.147 pacientes internados com quadros graves da doença neste momento, sendo 12.681 em leitos de terapia intensiva. As taxas de ocupação das UTIs no Estado se mantêm em 88%.

O levantamento do Cosems/SP foi realizado junto a 1514 serviços de saúde de 265 municípios. Além de estarem zerados em 591 serviços, os estoques dos bloqueadores neuromusculares são suficientes para uma semana (303 serviços), duas semanas (147), três semanas (72), um mês (73), 45 dias (69), dois meses (45) e mais de 60 dias (214). Os bloqueadores são relaxantes musculares usados durante os procedimentos de intubação.

A situação também é preocupante em relação aos sedativos, também essenciais no kit de intubação. Dos 931 serviços municipais de 275 prefeituras que responderam no sistema estadual, 342 estão zerados. Nos demais, o estoque é suficiente para atender pacientes por até: uma semana (225), duas semanas (88), três semanas (49), um mês (60), 45 dias (40) e dois meses (32). Outros 95 responderam ter medicação do tipo suficiente para mais de dois meses.

“Estamos usando sedativos e bloqueadores mais antigos, tentando resgatar os medicamentos que usávamos lá atrás para que ninguém fique sem assistência”, afirmou Geraldo Reple, presidente do Cosems/SP e secretário municipal de Saúde de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. “Estamos revendo todos os protocolos.”

Os dados foram colhidos pelo conselho na segunda-feira, 5, a partir do Sistema de Monitoramento de Consumo e Estoque dos Medicamentos do Kit Intubação (Medcovid), da Coordenadoria de Assistência Farmacêutica (CAF) e Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

A Secretaria Estadual de Saúde informou, em nota, que o ministério não está enviando medicamentos no volume suficiente para atender as demandas do Estado. “Após constantes cobranças da Secretaria de Estados de Saúde por medidas urgentes ao Ministério da Saúde para auxílio no fornecimento de medicamentos para intubação, o governo federal liberou para o Estado de São Paulo desde a última semana de março 215.313 ampolas de neurobloqueadores e anestésicos, o que corresponde a apenas 6% do que é necessário para atender a demanda mensal da rede pública, de 3,5 milhões”, explica a nota.

“A secretaria tem enviado ofícios e participado de reuniões com representantes federais, além de apresentar propostas como a realização de acordos com farmacêuticas, aquisição estratégica internacional, monitoramento diário da demanda (atualmente é semanal), além de pleitear a ampliação da disponibilidade de compra por ata federal, atualmente restrita a 60 dias de consumo. Para diversos itens, o saldo proporcional de São Paulo se esgotou na primeira semana de março.”

Oxigênio

O abastecimento do oxigênio também preocupa, menos pela escassez em si, mais pela logística de distribuição. “Temos uma boa capacidade de produção”, afirmou Reple. “O problema é a logística. Com o aumento dos casos, os cilindros de oxigênio precisam ser trocados com muito mais frequência. E isso é complicado em cidades mais distantes.”

Um outro levantamento divulgado nesta quinta, dessa vez pelo Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), indica que, em todo o Brasil, gestores de 1.068 municípios relataram preocupação sobre o estoque de cilindros de oxigênio e até mesmo do risco de desabastecimento nos próximos dias se a curva de casos de covid-19 se mantiver em alta e houver novos entraves junto a fornecedores.

Até a publicação desta reportagem o Ministério da Saúde não havia se manifestado sobre os problemas relatados pelos gestores.

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