Victor Moriyama|The New York Times
Enterro de vítima do coronavírus no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo Victor Moriyama|The New York Times

Enterro de vítima do coronavírus no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo Victor Moriyama|The New York Times

Em SP, risco de morte de negros por covid-19 é 62% maior em relação aos brancos

Especialistas atribuem a estatística a questões socioeconômicas e históricas

Gonçalo Junior , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Enterro de vítima do coronavírus no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo Victor Moriyama|The New York Times

Dados do boletim epidemiológico da Prefeitura de São Paulo do dia 30 de abril apontam que o risco de morte de negros por covid-19 é 62% maior em relação aos brancos. No caso dos pardos, esse risco é 23% maior. Especialistas apontam que questões socioeconômicas, como saneamento básico precário, insegurança alimentar e dificuldade de acesso à assistência médica, aumentam o risco de adoecer e morrer. Nos Estados Unidos, por exemplo, os negros também estão mais expostos ao novo coronavírus.

As estatísticas fazem parte do 3° Boletim Covid-19 da Secretaria Municipal de Saúde. O documento traz dados e análises referentes à situação epidemiológica e ações para o enfrentamento da doença até o dia 24 de abril. Essa parte da pesquisa considera o número de óbitos (suspeitos e confirmados) por covid-19 entre brancos, pretos, amarelos, pardos e indígenas, de acordo com a classificação de raça/cor do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) utilizada pelo órgão paulistano. Considerando-se 100 mil habitantes na capital, a taxa de mortalidade por idade é de 9,6 para brancos, 15,6 para negros e 11,88 para pardos.

O Estado ouviu especialistas de várias áreas, entre ativistas, virologistas, infectologistas, médicos e biomédicos. Brancos e negros. Embora análises estratificadas por etnias sejam escassas no Brasil, estudiosos dizem que a desigualdade social é também um fator a mais de exposição à doença. Questões sociais e históricas ajudam a explicar a presença dos negros como grupo de risco da covid-19.

“Piores condições de vida e trabalho determinam o maior risco de adoecimento e morte, não apenas pela covid-19, mas também por outras doenças. A dificuldade de acesso aos serviços de saúde é um fator crucial para aumentar o risco de complicações e óbitos”, afirma a biomédica Joilda Silva Nery, professora adjunta do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e integrante do grupo de trabalho Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Essa dificuldade de exercer o direito à saúde não está localizada apenas no momento dramático de procurar o hospital neste momento, com UTIs lotadas em todos os Estados. De acordo com a professora Márcia Alves dos Santos, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o problema é estrutural e foi identificado, por exemplo, no estudo do IBGE chamado “Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população”, de 2019.

“A população negra demonstrou os piores indicadores no que tange à estrutura econômica, mercado de trabalho, padrão de vida e distribuição de renda e educação”, enumera. “Esses indicadores corroboram o racismo, que é um determinante em saúde. E isto está refletido no boletim epidemiológico da prefeitura de São Paulo”, completa.

A médica Denize Ornelas traduz os índices do IBGE para o dia a dia. “Uma pessoa negra não consegue fazer o isolamento social quando está doente porque tem uma casa menor que as casas de classe média, com menos cômodos, um banheiro só e até falta de água. Com isso, uma pessoa infectada traz maior risco de contaminação das pessoas ao redor”, diz a diretora de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.

Celso Athayde, um dos criadores da Central Única das Favelas, acrescenta que a população negra tem poucas condições de seguir a quarentena. “É natural que os negros sofram as maiores baixas por vários motivos. Somos 78% da base da pirâmide, que está exposta desde o início da pandemia para o Brasil não parar, como frentistas, garis, balconistas de farmácia ou caixas de supermercado. O colapso do sistema acerta em cheio os mais vulneráveis, aqueles que têm cor”, avalia.

Joilda acrescenta outro exemplo prático: uma campanha promovida por professores e estudantes do Instituto de Saúde Coletiva da Ufba que distribuiu milhares de kits de higiene e lanches para pessoas em situação de rua. Pesquisa do Projeto Axé em parceria com a Ufba, o Movimento Nacional da População Rua e a Defensoria Pública da Bahia aponta que 58% da população de rua em Salvador são negros ou pretos; 34% são pardos e apenas 5% são brancos. “Como garantir que fiquem em casa, lavem as mãos sem acesso a direitos básicos como condições dignas de moradia e saneamento básico, sem falar da alimentação?”, questiona a especialista.

O médico e infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Paulo Olzon sugere outro recorte, diferente da questão étnica. “(O maior risco de morte entre os negros) pode não ser em relação à cor, mas sim em relação à situação socioeconômica. Provavelmente os que moram em situação pior e ganham menos são negros e pardos, se comparados aos de cor branca”, argumenta.

Luís Eduardo Batista, pesquisador do Instituto de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo e do Grupo de Trabalho Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) destaca o contexto histórico do impacto das epidemias sobre a população negra.

"Quando estudamos a história das endemias e das epidemias no Brasil com a lente da determinação social do processo saúde, doença e morte, percebemos que a população negra foi sempre uma das mais duramente impactadas e na pandemia da covid-19 não será diferente. O que nos cabe agora é mitigar esse impacto é é por isso que várias organizações da sociedade civil estão atuando para proteger e garantir o direito de todas e todos à saúde", afirma. 

Outras doenças

Infectologistas apontam que a população negra é um dos grupos de risco também em função das comorbidades que atingem esse segmento em maior número. São os casos da hipertensão e da diabetes e, principalmente, a anemia falciforme, todas elas fatores de risco para o adoecimento e complicações por covid-19.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, as comorbidades mais presentes em idosos falecidos por covid-19 são a cardiopatia crônica, diabetes, pneumopatias crônicas, condições neurológicas e insuficiência renal crônica. Em óbitos de menores de 60 anos, os mesmos fatos se observam, com destaque para obesidade, doença renal e imunossupressão. Se o paciente tiver mais que 60 anos, for hipertenso e diabético, o risco é potencializado. Se for cardiopata ou asmático, a situação é ainda mais grave.

“O que deve ter havido é que a hipertensão é mais frequente entre os negros. Provavelmente, tem relação com comorbidades da raça negra do que propriamente o fato de o paciente negro ter mais chance de ter a covid-19. Mas teríamos de fazer uma análise dos pacientes para saber se realmente eram hipertensos, diabéticos e assim por diante”, afirma Clóvis Arns da Cunha, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A mesma posição é defendida por Emanuelle Goes, pesquisadora do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde da Fiocruz. “A população negra (soma de pretos e pardos) apresenta maior exposição às morbidades elencadas para grupo de risco, como hipertensão, diabetes, obesidade e câncer”, argumenta. “Mas, antes de tudo, o racismo institucional neste contexto de pandemia vai agravar a situação das pessoas negras no momento da procura pelo serviços de saúde. A consequência disso é uma maior taxa de mortalidade para esse grupo racial”, explica.

O virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), também descarta fatores genéticos na maior incidência da covid entre os negros. “Já acompanhei discussões sobre o tema e não existem fatores genéticos”, afirma. “É possível afirmar, quase com certeza, que o maior risco entre os negros não tem relação com a raça”, corrobora Clovis Arns da Cunha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Pessoas usam máscaras para se proteger do coronavírus no aeroporto JFK, em Nova York Stephanie Keith|The New York Times

Negros americanos também estão mais expostos ao coronavírus

Dificuldade do acesso ao sistema de saúde é um dos fatores responsáveis pela situação

Gonçalo Junior , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Pessoas usam máscaras para se proteger do coronavírus no aeroporto JFK, em Nova York Stephanie Keith|The New York Times

O panorama de vulnerabilidade da população negra é o mesmo nos Estados Unidos. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças apontam que 30% dos pacientes de covid-19 são negros mesmo que representem apenas 13% da população. Os dados, no entanto, não são completos. Faltam informações étnicas em 75% dos pacientes.

Os dados são dramáticos em algumas cidades. Em Chicago, cidade 30% negra, as pessoas dessa etnia representam 70% dos casos de coronavírus na cidade. Na Louisiana, cerca de 70% das pessoas que morreram são negras, embora apenas um terço da população desse Estado seja afro-americana.

Especialistas em saúde pública dos Estados Unidos apontam que qualquer pessoa pode estar infectada com coronavírus, mas certas populações são mais vulneráveis à contaminação. Isso ocorre porque a exposição ao vírus e a capacidade de lidar com ele dependem, entre outros fatores, do acesso aos serviços de saúde.

Muitas comunidades negras norte-americanas simplesmente não podem pagar pela saúde — nos Estados Unidos os serviços são privados. Com isso, boa parte dos infectados não recebe serviços de assistência médica e pode falecer em suas próprias casas. 

O tipo de trabalho realizado pelas comunidades negras e a exposição prolongada ao vírus também são fatores importantes. Quando as autoridades defendiam o isolamento social como a melhor maneira de se evitar o vírus, os negros continuaram trabalhando, pois exercem atividades que dificilmente realizam home office, como o setor de transportes, por exemplo.

As patologias preexistentes agravam ainda mais a situação. Em Nova Orleans, quase 60% da população é negra. Nesse segmento, as taxas de obesidade e de hipertensão são muito superiores à média nacional. Em Chicago, os negros sofrem com frequência de diabetes, patologias cardíacas e respiratórias. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.