ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Em tempos de covid-19, ‘microbolha’ busca vencer a solidão com segurança

Conseguir estabelecer contato social sem quebrar as principais regras de distanciamento impostas pela pandemia tornou-se desafio e necessidade

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 21h00

Dá para cravar: ninguém aguenta mais a quarentena imposta pela pandemia de coronavírus. Quem pode fazer isolamento social já está há quase quatro meses praticamente olhando para as paredes. Para enfrentar essa maratona que não tem fita de chegada à vista, muita gente está flexibilizando seu confinamento e encontrando outras pessoas que também estão isoladas. Cada um na sua bolha, mas em contato para não “surtar”.

A razão disso é o peso mental do isolamento. Quanto mais rigorosa a quarentena, maior o custo para o bem-estar psicológico, dizem os especialistas. A psicóloga Mary Yoko Okamoto, professora de pós-graduação na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e uma das responsáveis pelo programa de teleacolhimento dos calouros, diz que insegurança, incerteza e medo do futuro são os sentimentos mais comuns deste período. 

O psicanalista Christian Dunker afirma que nossa capacidade de suportar privações é finita. “Não somos de aço inoxidável ou de elástico. Nós estamos pagando um preço psíquico pelo isolamento. O contato com o outro representa o nosso reconhecimento. Dependemos do outro para entender melhor o que sentimos”, explica o professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Ampliar a bolha individual aumenta o contato social, contribui com o equilíbrio emocional e tenta minimizar o risco de transmissão da doença. Se ocorrer uma infecção, ela permanece na bolha e não será transmitida a outras pessoas. Pode ser uma saída temporária à espera da vacina ou de um remédio eficaz contra a covid-19

No caso da pedagoga Claudia Ribeiro, de 46 anos, a medida deu certo. A educadora mora em São Sebastião, litoral norte de São Paulo, com o marido, Marcos Ribeiro, de 56 anos, e o filho Renan, de 26. O marido é diabético e o filho tem uma deficiência intelectual com lisencefalia (má formação cerebral), o que exige cuidados respiratórios, pois os pulmões dele são frágeis. 

Os dois têm, portanto, maior vulnerabilidade à covid-19. No início de julho, eles decidiram correr um risco calculado para diminuir a solidão. A missão era encontrar a amiga Elisangela, que teve alta depois de uma internação por trombose.

Na chegada à casa em Boraceia, também litoral norte, trocaram de roupa e de sapatos. As portas tinham panos ensopados de água sanitária. Usaram máscaras, luvas, spray de álcool 70 para lavar as louças e lavaram as mãos a toda hora. Não trocaram abraços nem beijos.

No mês de abril, ela havia adotado os mesmos cuidados para encontrar a mãe, Iraildes Meira, de 63 anos, em Águas de Lindoia, no interior paulista. Valeu, diz a pedagoga. “O calor humano nos confortou e alegrou nossos corações. Estávamos tristes e esquecidos no mundo. Após o encontro, nós nos sentimos mentalmente vivos”, diz a especialista em educação especial.

Na escolha entre o lado racional – o isolamento é a única ferramenta eficaz contra a contaminação – e o afetivo – a saudade dos filhos e netos – , o engenheiro civil Michel Lutfi, de 66 anos, e a assistente social Maria Beatriz Lutfi, de 62, também pegaram um pouquinho de cada. Foram três meses sem contato com os netos Arthur e Diogo, de 7 e 4 anos. A angústia aumentou quando a filha, Renata, teve covid-19 seguida de uma pneumonia. A solidão pesava de todos os lados.

Após uma consulta de rotina com o cardiologista da família, surgiu a pergunta: com todos os cuidados, nós podemos reencontrá-los? O médico disse “sim”, mas com uma condição: nada de beijos e abraços.

Foi assim que a família começou a se encontrar toda semana desde o início de julho. As bolhas se uniram e ficaram mais felizes. “É difícil, mas a gente respeita o distanciamento. A gente brinca na varanda e também com jogos de mesa. Foi uma decisão acertada, que fez bem para todo mundo”, conta a avó.

Essas cenas exemplificam uma nova forma de afeto, opina a psiquiatra Lívia Basseres. “As relações humanas não vão voltar a ser como antes. A gente precisa se cuidar para evitar a contaminação e também da saúde mental, que costuma ser minimizada. As videoconferências são importantes e os encontros, quando acontecem, têm de ser muito valorizados. É uma oportunidade também de refletir sobre os afetos e as relações”, diz a especialista do Instituto de Psiquiatria da USP.

Como montar sua bolha

Essas soluções individuais não são invenção nossa. Foi lá fora que surgiram os termos “bolhas” e “microbolhas sociais”. Quando começou a retomar a vida social após um enfrentamento bem-sucedido da pandemia, a Nova Zelândia recomendou que as pessoas continuassem dentro da bolha de suas casas, mas que começassem a expandi-la para se reconectar com a vida lá fora. Na Inglaterra, o governo britânico recomendou que as bolhas sociais, geralmente familiares, fizessem combinações com dois ou três outros grupos.

Não dá para comparar a situação da Nova Zelândia e do Reino Unido com a do Brasil, mas a ideia é a mesma. A decisão de encontrar alguém pessoalmente é delicada, pois a pandemia ainda não acabou por aqui. A retomada de atividades não essenciais em várias cidades, como a abertura de shoppings e academias, por exemplo, traz uma sensação de fim da pandemia. É falsa. Não acabou. 

Existem situações mais complexas para criar bolhas, além dos laços familiares, como amigos que dividem o apartamento, por exemplo. Como controlar que todos se protejam na mesma medida se os laços não são tão fortes? 

A advogada Beatriz Rossi, de 26 anos, e o analista de Relações Internacionais Vinícius Cipelli, de 25 anos, têm de pensar sobre essa questão toda semana.

Junto há dois anos, o casal restringiu o namoro aos sábados e domingos. Ela pega o carro em Santo André, na região metropolitana, e só para na garagem do prédio em Pinheiros. Os dois trabalham em regime de home office.

O casal alinha esse rigor de prevenção com o amigo com quem Cipelli divide o apartamento e normalmente leva a namorada. “Quando alguém chega, a gente pergunta se lavou as mãos e usou álcool em gel, mas só isso. O controle é da consciência e do bom senso de cada um. A gente já se conhece e sabe que dá para confiar”, diz a advogada.

Dunker concorda com esse pacto de confiança. “É uma aplicação particular da regra de quarentena e análise de risco. Isso envolve negociação e um pacto de confiança. Não dá para saber se o outro está respeitando, é preciso equalizar os conceitos de quarentena. Às vezes, é necessário investigar a vida de cada um e entrar na intimidade do outro, coisas que não gostamos muito de fazer”, diz o professor do Instituto de Psicologia da USP.

Para contornar o problema, os encontros entre amigos do publicitário e escritor Airton Bovo, de 59 anos, têm um traço em comum: todo mundo fez o teste de covid-19. Não é uma obrigatoriedade, mas uma prática que se tornou comum no grupo. Trata-se de uma solução particular em um País com baixa testagem e que não conhece ao certo o número de infectados. “É uma segurança para todo mundo”, justifica.

Participam dos encontros quatro pessoas por vez em locais abertos, ao ar livre, como chácaras e sítios, ou em Moema, na zona sul da cidade, onde vive boa parte do grupo. A cada semana, o encontro reúne pessoas diferentes para ampliar as experiências.

Cuidados têm de ser respeitados, alertam especialistas

Embora reconheçam o desgaste emocional causado pela quarentena, epidemiologistas e infectologistas se dividem sobre a eficácia das medidas de prevenção nos encontros presenciais. Alguns se mostram céticos quanto à ausência de beijos e abraços. Outros alertam para a possibilidade de contaminação pelo ar. Todos destacam a necessidade de disciplina para que as bolhas minimizem o risco de contágio.

Desde que exista disciplina, com cuidados antes e durante o encontro, não há problema, opina a infectologista Rosana Richtmann. “É prática que, com segurança, pode garantir que as pessoas tenham algum tipo de vida social”, diz a médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Grupo Santa Joana.

“Do ponto de vista psicológico, é compreensível que as pessoas comecem a fazer as próprias recomendações. Nós convivemos com o medo, da morte e da doença, por muito tempo e em isolamento. Mas as medidas de prevenção precisam ser respeitadas sempre, em todas as situações”, afirma a infectologista Sylvia Lemos Hinrichsen, consultora de Biossegurança e Controle de Riscos da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Para minimizar esses riscos, Márcio Bittencourt, mestre em Saúde Pública e médico do Hospital Universitário da USP, recomenda o uso de máscaras, além da higienização das mãos. Também é necessário, completa o especialista, evitar lugares fechados, o contato prolongado e as aglomerações.

O médico e professor Jean Gorinchteyn, também do Emílio Ribas, mostra ceticismo quanto à adoção das medidas. “As pessoas não vão se encontrar ao ar livre. Em geral são jantares ou almoços. Numa mesa, ninguém vai manter 2 metros de distância. Além disso, elas vão retirar as máscaras para comer. Esse é um cenário de risco”, adverte o infectologista.

Paulo Eduardo Brandão, virologista da Faculdade de Veterinária da USP, adiciona outro alerta: a possibilidade de transmissão do novo coronavírus pelo ar. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um informe científico em que passa a considerar o fato. “O vírus precisa de pessoas perto de pessoas, mas ele também se transmite pelo ar. Esse é um risco que mina a hipótese de segurança em um parque ou praia”, exemplifica. 

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