André Coelho/EFE
André Coelho/EFE

Ômicron faz média de mortes por covid subir 566% no Brasil em um mês

Média avançou nesta quarta-feira a 653 óbitos diários, ante 98 no início de janeiro; expectativa é de que o avanço em óbitos, internações e novos casos continue pelas próximas duas semanas

João Ker e Emílio Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2022 | 05h00

Apesar de considerada menos letal, a variante Ômicron do coronavírus fez a média móvel de mortes pela doença aumentar 566% no último mês, saltando de 98 para 653 óbitos diários nesta quarta-feira. Mesmo com mais de 70% da população brasileira já imunizada com duas doses ou a vacina de aplicação única, a alta transmissibilidade da cepa tem aumentado as internações em leitos de enfermaria e UTI, enquanto gestores de saúde apontam que a maioria dos quadros graves está concentrada em idosos, pessoas com comorbidades e não vacinados.

"A subida foi bem lenta na primeira (onda), rápida na segunda e meteórica com a Ômicron", explica Luiz Carlos Zamarco, secretário adjunto de Saúde de São Paulo. "A partir daí, a curva de internações e infecções se estabilizou, com casos de menor complexidade, o que facilitou o giro de leitos", diz. "Hoje temos de maneira clara que podemos estar muito próximos do chamado platô, para que entre 15 e 20 de fevereiro haja estabilidade", aponta o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido.

Segundo Aparecido, um terço dos óbitos pelo coronavírus é de pessoas que não completaram o esquema vacinal. O restante ele atribui a pacientes com alguma comorbidade grave, cujo quadro é agravado pela covid.

Esse é o mesmo perfil dos óbitos que têm impulsionado a média móvel da Bahia. Nesta quarta, o Estado registrou 45 mortes por covid, o maior total diário desde 7 de agosto, ao mesmo tempo em que e a média de casos ativos e novas notificações gira em torno dos 30 mil, o maior patamar de toda a pandemia. "Temos mais casos, porém um quarto dos óbitos de março do ano passado", observa Izabel Marcílio, coordenadora de Operações de Emergência. 

O cenário se repete no Distrito Federal, onde a letalidade é menor, mas a alta nas transmissões tem pressionado as unidades de atendimento primário e desfalcado equipes médicas. "Essa característica avassaladora de transmissibilidade é sem precedentes", diz Fernando Erick Damasceno, secretário adjunto de Saúde. Dos 40 óbitos por covid deste ano, ele afirma que 34 foram em pessoas que não completaram o esquema vacinal. 

No Mato Grosso do Sul, a onda de transmissão tem forçado o Estado a abrir novos leitos para dar conta da demanda. Cerca de 30% dos profissionais da saúde se infectaram com a nova variante. "Para um Estado pequeno como o nosso, isso é muito", diz Geraldo Resende, secretário estadual de Saúde. 

No Rio Grande do Sul, houve um aumento de nove vezes no total de mortes por covid entre as últimas semanas de dezembro e de janeiro. Só nesta quarta, o Estado registrou 57 novas vítimas da pandemia. A onda da nova variante também atingiu crianças de 5 aos 14 anos, cujas infecções aumentaram em até 300% no mesmo período, principalmente porque a maioria delas ainda não tinha acesso à imunização.

"É significativo, mas aquém do que tivemos em outras épocas, como março do ano passado", explica Bruno Naundorf, do Gabinete de Crise do Estado. "Também tivemos mortes de crianças nesse período, mas a principal população (que chega a óbito) é quem tem idade avançada e comorbidade. Esse tem sido o perfil da covid desde o início e continua agora, além de também termos observado que quem não se vacinou tem risco mais acentuado."

Incerteza

Em todos os Estados, a expectativa é de que esse aumento em óbitos, internações e novos casos permaneça pelas próximas duas semanas, até atingir um platô. Mas isso não significaria o fim da pandemia. "Estaríamos mais uma vez vencendo uma etapa, fazendo com que todas as pessoas sejam atendidas e medicadas", frisa Aparecido.

A incerteza se explica pela ausência de parâmetros como a taxa de positividade, explica Isaac Schrarstzhaupt, analista de dados e coordenador na Rede Análise Covid-19, formada por pesquisadores voluntários. Essa taxa é obtida quando se divide o número de testes positivos pelo número de testes realizados. "Isso permite prever a tendência do comportamento da doença. Se tivéssemos, poderíamos apostar no pico ou no platô", diz. No País, porém, a testagem é baixa.

Para a epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Ethel Maciel, a desigualdade nos índices de vacinação entre os Estados é outro fator a dificultar predição. "Acredito que em alguns Estados como o Rio já passamos pelo pico, mas há uma diferença de desenvolvimento da Ômicron e da vacinação pelo País de pelo menos de duas a três semanas", afirma. "Acabamos olhando para dados de outros países em que essa variante levou de 25 dias a 45 dias para atingir o pico."

A falta de investimentos federais em campanhas de divulgação da necessidade de reforço na vacinação também não contribui, diz a epidemiologista . "A gente já sabia que seria preciso a dose de reforço para essa variante e ainda estamos muito atrás, com porcentual muito baixo quando comparado com outros países como o Reino Unido e a Dinamarca, que começam a retirar as restrições", afirma.

Segundo Resende, um dos problemas no Mato Grosso do Sul tem sido exatamente o movimento contrário à vacinação, potencializado por uma onda "intensa" de politização da pandemia e negacionismo sobre a imunização . "Houve um incremento maciço de bombardeio nas redes sociais com mensagens que têm aumentado a dificuldade do nosso trabalho, além de um quantitativo muito grande de pessoas que sequer usam máscara", observa.  

Síndrome Respiratória Aguda Grave

O diagnóstico do Infogripe, da Fiocruz, divulgado ontem, também não é animador. Os casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) têm sinal forte de crescimento nas tendências de longo prazo (seis semanas) e de curto prazo (três semanas). Essa tendência deve se manter em 23 Estados brasileiros. Do total, quase 80% dos casos neste ano são decorrentes da covid-19.

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