Alex Silva/Estadão
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'Em um mês, teremos o estrangulamento do sistema de saúde', diz governador de Minas Gerais

Romeu Zema afirma que poderá adotar medidas mais rígidas na tentativa de evitar a propagação do novo coronavírus

Leonardo Augusto, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 18h40

Belo Horizonte - Na semana em que Minas Gerais bateu recorde no número diário de mortes por covid-19, o governador Romeu Zema (Novo) anunciou nesta quinta-feira, 18, o que chamou de "estrangulamento" da rede estadual de saúde. Assim, para tentar evitar o colapso, Zema poderá adotar medidas mais rígidas na tentativa de evitar a propagação do novo coronavírus

Na quarta-feira, 17, Minas Gerais bateu recorde de mortes na comparação diária ao longo da pandemia, atingindo 537 óbitos, 35 a mais do que o acumulado até a terça-feira, 16, conforme dados da Secretaria de Estado de Saúde. O total de casos nesta quinta-feira é de 24.906, 1.559 a mais que a quarta, 17. 

Zema afirmou que, "apesar de tudo" o que o Estado tem feito, a rede de saúde pode entrar em colapso por causa do ritmo de elevação dos casos de covid-19. "Em um mês, teremos o estrangulamento total do sistema de saúde", declarou. E pediu aos prefeitos que "façam tudo o que possa ser feito", além de anunciar que, caso a situação de alta nos registros da doença não melhore, poderá adotar medidas drásticas em pelo menos parte do Estado. 

Dois dos maiores municípios mineiros, Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e Betim, na Grande Belo Horizonte, recuaram e determinaram o fechamento de pelo menos parte da atividade econômica local depois de adotarem o caminho da liberação. A capital Belo Horizonte não chegou a recuar, mas, desde 25 de maio, quando iniciou a reabertura, anunciou duas liberações, de um total de quatro possíveis. Os anúncios são semanais. Por duas vezes, o município não autorizou novos setores a reabrir.

Comparação entre os setores da atividade econômica que o governo estadual estabeleceu no plano "Minas Consciente", que busca orientar as prefeituras na retomada, e os que foram autorizados a voltar pelos municípios mostra  descompasso entre o Palácio Tiradentes e as prefeituras. 

Em Belo Horizonte, por exemplo, a primeira liberação colocou de volta ao funcionamento salões de beleza. Pelo "Minas Consciente", que se organiza por "ondas", a volta deste setor só poderia ocorrer na onda amarela, a segunda fase de reabertura pelo padrão estabelecido pelo governo estadual. Antes da amarela, há a etapa branca. A fase inicial é a verde, em que funcionam apenas serviços essenciais. Em Betim, houve o retorno de bares e restaurantes. Pelo plano estadual, o setor só voltaria retomar com o fim da pandemia.

Em 6 de maio, conforme o seu organograma, o governo estadual autorizou que cidades da Região Central de Minas, onde estão Belo Horizonte e Betim, avançassem para a onda branca. Neste estágio estão previstos, por exemplo, o funcionamento de lojas de artigos de cama, mesa e banho. Na capital, as duas atividades foram liberadas pelo município, respectivamente, no dia 25 de maio e no dia 8 de junho. Além disso, no dia 10 de junho, o próprio governo de Minas, com o avanço nos casos de covid-19, recuou a região Central, onde estão Belo Horizonte e Betim, para a onda inicial, a verde. A capital e a cidade da Região Metropolitana não aderiram, ao menos até o momento, ao programa "Minas Consciente".

O secretário de Saúde, Gladstone Rodrigues, de Uberlândia, município que iniciou a reabertura em 27 de abril, e que anunciou recuo da decisão em 2 de junho, afirma haver distância entre o que faz os governos federal, estadual e municipais em relação à pandemia. Uberlândia também não entrou no "Minas Consciente". "O problema da pandemia é complexo. As orientações do governo federal são diferentes das do governo estadual, e as do governo estadual também são diferentes da municipal. Não se conseguiu uma diretriz única", avalia. No município, o segundo maior do Estado, o número de casos era de 88 no início da reabertura. Havia 7 mortes. Hoje são 2.418 casos e 46 óbitos.

O secretário afirma não haver a menor dúvida de que o aumento nos registros da doença tem relação com a reabertura do comércio. "Nós sabíamos que isso aconteceria. O que tentamos fazer é dosar", disse. Rodrigues afirma ainda que o número de casos na cidade reflete mais a realidade, por haver nível maior de testagem. "Em Uberlândia, 2.421 pessoas a cada 100 mil são testadas. No Estado, essa relação é de 137 por 100 mil", apontou. Ao longo da pandemia, o titular da pasta confirma que 20 mil kits de teste foram comprados, e que o Estado repassou, até hoje, 3.240 destes. 

As prefeituras não são obrigadas a aceitar o "Minas Consciente", mas o secretário-geral do governo mineiro, Mateus Simões, reclamou, durante pronunciamento na quarta-feira, 17, do que chamou de ações "divorciadas" da prefeitura de Belo Horizonte no processo de reabertura da cidade. "Nos últimos dias, começamos a ver uma deterioração muito clara do quadro de contágio da Região Metropolitana que tem causado preocupação efetiva do governo. A capital e cidades da região apresentam piores índices em termos de contágio e concentram nossa preocupação. A curva se agravou depois da reabertura do comércio divorciadas dos protocolos do 'Minas Consciente'", disse.

O secretário acusou ainda a gestão municipal de não cumprir promessas de aumento no número de leitos de unidade de terapia intensiva e de compra de respiradores. "Foram prometidos inicialmente em Belo Horizonte mais de mil leitos. Se falou em sete mil leitos com respiradores. Nada disso foi implantado", afirmou. 

O auxiliar de Zema, que fez as declarações ao lado do governador, disse ainda que as autoridades municipais deveriam se manifestar sobre dificuldades que estejam enfrentando para que o Estado possa ajudar. "Falta medicação, como alguns têm dito? Temos que ser informados".

Simões ressaltou ainda que a prefeitura precisa reconhecer erros, e reclamou da reabertura dos shoppings populares na cidade, autorizada pelo município na primeira fase de liberação do comércio. "Precisamos que os administradores municipais percebam os equívocos que foram cometidos até aqui e que corrijam sua rota. E que interrompam medidas inadequadas que foram adotadas, se adequem ao 'Minas Consciente' ou adotem programas seus, mas que sejam capazes de garantir segurança sanitária e ampliação da capacidade de assistência".

A prefeitura, depois do pronunciamento de Simões, afirmou em nota que "diferente do que sinalizou o Governo do Estado é importante esclarecer que o aumento de casos da covid-19 em Belo Horizonte e na Região Metropolitana não se deve exclusivamente à retomada de atividades, uma vez que a curva começou a sua fase ascendente, uma semana antes da flexibilização em Belo Horizonte". "Este aumento não tem relação com a não adesão dos protocolos do 'Programa Minas Consciente', mesmo porque cidades que aderiram ao programa do Estado tiveram que voltar atrás", continuou o texto.

Segundo a nota, a capital mineira tem o protocolo próprio, o "Plano de Contingência", que utiliza muitas das ações positivas que o "Minas Consciente" também usa, além de outras diretrizes que não são necessárias em cidades de menor porte. A Prefeitura lamenta "que pessoas utilizem a pandemia para fins políticos".

Na retomada da atividade econômica, em 25 de maio, Belo Horizonte tinha 1.402 casos de covid-19 e 42 mortos. Hoje são 3.723 casos e 97 mortos. A prefeitura de Belo Horizonte se pronunciará nesta sexta-feira, 19, sobre nova possível etapa da reabertura.

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