Crédito: Marcos Santos/Secom
Crédito: Marcos Santos/Secom

Em visita ao Pará, ministro interino da Saúde promete mais 30 respiradores

Após agenda em Manaus na última terça-feira, 26, Pazuello esteve em unidades de saúde de Belém; imprensa não pôde acompanhar

Roberta Paraense, especial para O Estado

27 de maio de 2020 | 23h48

BELÉM - Para acompanhar os trabalhos de combate à pandemia do novo coronavírus no Pará, o ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuello, desembarcou em Belém no fim da manhã desta quarta-feira, 27. O atual titular da pasta fez uma rápida visita a dois hospitais da rede estadual exclusivos para o tratamento de infectados pela covid-19. Apesar de ter se mostrado preocupado com o avanço da doença rumo às cidades do Interior, o militar ficou apenas na capital paraense, onde as medidas de isolamento já começaram a ser flexibilizadas por causa do declínio na curva de contágio.  

Na Base Aérea Militar de Belém, Pazuello foi recebido por políticos simpatizantes ao Governo Federal, pelo prefeito da cidade, Zenaldo Coutinho (PSDB), e pelo governador Helder Barbalho (MDB). Ao descer da aeronave VC-99, o titular da pasta, ao trocar poucos minutos de conversa com os presentes, discutiu sobre protocolos menos rígidos de isolamento e comentou sobre o envio de 30 respiradores à capital paraense.  

Zenaldo Coutinho, imediatamente, postou um vídeo nas suas redes sociais falando sobre o encontro. “O ministro, que está em visita à região, discutindo as ações de combate à pandemia do novo coronavírus, garantiu mais 30 respiradores para a Prefeitura de Belém. É mais um reforço na luta para ampliar os leitos de UTI na capital”, afirmou Coutinho, em transmissão ao vivo no Instagram.

Um dia antes, Zenaldo já havia anunciado a presença de Pazuello no Estado. "O ministro da Saúde vai estar aqui amanhã, inclusive eu vou recebê-lo, e estou muito entusiasmado, com uma expectativa muito positiva para que tenhamos um reforço na nossa estrutura para podermos ir adotando medidas mais flexíveis, mas que não podem ser de frouxidão", adiantou o prefeito.

Visita

Dando continuidade à agenda pelos estados mais afetados da região Norte do Brasil, que não pôde ser acompanhada pela imprensa, o general foi até o Hospital de Campanha do Hangar junto ao secretário estadual de Saúde, Alberto Beltrame. Pazuello visitou as dependências da unidade, conversou com profissionais de saúde e pacientes. No momento, duas pessoas estavam tendo alta médica, após dias internadas com o estado grave da doença. O funcionamento da unidade visto pela comitiva por cerca de 30 minutos.

A visita seguiu à Policlínica Metropolitana, centro de atenção primária e de média complexidade da doença. No local, alguns usuários do sistema de saúde fizeram críticas sobre o atendimento. “Não tem álcool em gel na entrada para passar nas mãos do povo. Quando a gente sai de lá de dentro, é contaminado. Não estão dando máscaras, não tem nada”, reclamou Manuel Sousa quando a comitiva, devidamente paramentada com máscaras e aventais, adentrava a unidade hospitalar. 

Na Policlínica, o atendimento ambulatorial é exclusivo de pacientes com síndromes respiratórias leves e moderadas. O hospital foi criado em abril para desafogar a demanda da Região Metropolitana diante do colapso do sistema municipal de saúde de Belém, especialmente das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nos Prontos-Socorros, atingindo também a atenção básica no município. Nas primeiras semanas de funcionamento, longas filas se formaram à porta do local, que até já suspendeu o atendimento devido à alta procura. Segundo Barbalho, a unidade já atendeu cerca de 38 mil pessoas com sintomas da covid-19.

Após a visita de quase 40 minutos na Policlínica, o ministro se reuniu com o governador, o secretário da Saúde e demais autoridades estaduais no Palácio do Governo. O prefeito de Belém não participou do encontro. Após a conversa, à assessoria de imprensa do Estado, o ministro avaliou os trabalhos locais. “O que mais me impressionou foi a Policíclica, com as triagens. Medidas que ainda estamos discutindo no Ministério da Saúde e já são feitas pelo Governo do Estado. Vamos implantá-las onde está com maior incidência de casos no País”, prometeu o general, que a princípio visitaria o Hospital Abelardo Santos, no distrito de Icoaraci, mas não foi.

Helder Barbalho acredita que a visita foi positiva no sentido de unir esforços no combate à doença. “É importante a união do Governo Federal com o governo do Estado e a população, compreendendo as necessidades de isolamento”, disse. O chefe de Executivo também ressaltou que o Pará conta com 520 leitos de Unidades de Terapia Intensiva com respiradores.

Agenda

A capital paraense foi a segunda visitada pelo ministro, que já nomeou mais de nove militares para a pasta. A primeira agenda dele foi em Manaus, na última terça-feira, 26. No Amazonas, ele inaugurou uma ala indígena em hospital de referência à covid-19, em Manaus. Apesar de também não ter dado entrevista à imprensa amazonense, o mesmo protocolo seguido em Belém, Pazuello se mostrou preocupado com a velocidade do aumento de casos em direção às cidades do interior dos estados amazônicos. 

“É importante compreender que, depois do impacto na capital e Região Metropolitana, é muito provável que nós tenhamos um impacto no Interior. E continuar melhorando a capacidade da capital é necessário nesse momento, para que tenhamos a possibilidade de fazer frente à demanda”, recomendou. 

Demora no repasse de informações

O Pará chegou nesta quarta-feira, 27, aos 31.671 casos confirmados de covid-19 e 2.605 mortes. Nos últimos dias, o Estado passou a anunciar, diariamente, as subnotificações dos casos, jogando para as prefeituras a demora no repasse das informações. O fato é que as filas nos hospitais da capital passaram a diminuir, enquanto no interior, com 54% dos casos no Pará, a curva de infectados começa a crescer e situações dramáticas passam a ser relatadas.

Na região do Marajó, com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, os casos de multiplicam. Em Curralinho, município de cerca de 40 mil habitantes, o sistema de saúde e funerários está à beira do colapso. A família do aposentado Claudionor Farias, de 81 anos, teve de carregar o caixão do idoso por falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para os coveiros realizarem o trabalho. “O mais revoltante é que o sistema que não funciona. Até na hora da morte, a pessoa vai sem nenhuma dignidade. Nós, filhos, que tivemos de carregar o caixão do meu pai. Os funcionários do único cemitério da cidade estavam apenas com uma sandália de dedo, sem nenhuma proteção”, denunciou o pastor Paulo Abraão, de 46 anos.

Na luta contra a doença, o aposentado precisou de um respirador. “Ele ia ser encaminhado para o hospital de Campanha de Breves, mas não deu tempo e ele morreu no municipal de Curralinho. O Marajó está todo infectado. As pessoas estão doentes e não tem médico”, lamentou Paulo, que está com parte da sua família doente. “Minha mãe e minha irmã, que é enfermeira, estão internadas em estado grave. Elas foram transferidas para Breves. Em Curralinho, o hospital não tem ventilador, álcool em gel, testes e nenhum equipamento para o tratamento. Não tem lençol nas macas nem máscaras para os profissionais de saúde. Não tem nada. Estrutura zero”. 

A irmã do pastor, Leonoura Farias, trabalha há 24 anos no Hospital Municipal de Curralinho como técnica de enfermagem. Em suas redes sociais, ela relata a falta de infraestrutura da cidade. “Nunca pensei que, quando meus pais precisassem de cuidados, fossem jogados em um buraco que se chama 'sala de covid'. Nesta sala, pra onde levei meus pais, não tem banheiro perto, lençol. É um descaso total. Antes do meu pai ir a óbito, ele ficou em um local onde a enfermeira tinha que segurar o ventilador, que foi emprestado. Não tinha máscara de oxigênio pra ele”, escreveu.

Para ir da capital paraense a Curralinho, só é possível de barco ou de avião particular. Pelos rios, a viagem demora até 10h. A cidade tem cerca de 34 mil habitantes. Em 2017, o Ministério Público Federal (MPF) recebeu denúncias de que não há abastecimento de água, coleta de lixo ou transporte escolar. Além disso, o município está com obras públicas inacabadas, como escolas, unidades básicas de saúde, sistemas de abastecimento, quatro quadras poliesportivas e uma estrada rural, a Transpiriá. À época, o MPF fez uma série de recomendações à Prefeitura e 17 pedidos de esclarecimento, até agora nada foi feito. O Estadão tentou contato com a gestão municipal, mas não obteve retorno.

Curralinho fica próximo a Breves, cidade que teve a maior alta de mortes pelo novo coronavírus em duas semanas em todo Brasil. Um recorte do cenário atual mostra que 25% dos moradores do município — que já tem um hospital de campanha —, já foram infectados. Ou seja, um em cada quatro habitantes da cidade testou positivo à covid-19. O levantamento foi feito pela Universidade Federal de Pelotas (RS).

Além de Pazuello, Mandetta também esteve em Belém

Após o ex-ministro Nelson Teich deixar o cargo no Ministério da Saúde, no dia 15 de maio, o Governo Federal anunciou que o general Eduardo Pazuello deixaria de ser secretário executivo da pasta para assumir o comando do órgão. O militar do Exército foi nomeado para o segundo cargo mais alto da hierarquia ministerial no último dia 22, após Teich assumir o ministério no lugar de Luiz Henrique Mandetta, que também esteve em Belém discutindo as ações do combate à covid-19.

Os dois antecessores de Pazuello são médicos e não concordaram com o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre o distanciamento social e o uso de cloroquina, protocolo adotado em larga escala nas redes de saúde pública e privada no Pará. O medicamento não tem comprovação científica.

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