DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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Embaixador de Cuba critica “atraso excessivo” do governo brasileiro em contratar médicos cubanos

Rolando Antonio Gómez Gonzáles diz que houve descumprimento de promessas por parte do Palácio do Planalto

Entrevista com

Rolando Antonio Gómez Gonzáles, embaixador de Cuba no Brasil

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2020 | 19h32

BRASÍLIA – O embaixador de Cuba no Brasil, Rolando Antonio Gómez Gonzáles, criticou em entrevista ao Estado o governo brasileiro pelo “atraso excessivo” na contratação de médicos cubanos, que segundo ele deveria ter acontecido no início de 2019, antes da pandemia do novo coronavírus. Para ele, houve descumprimento de promessas por parte do Palácio do Planalto diante dos profissionais cubanos que estão no Brasil e hoje atuam na informalidade. Mesmo assim, Gonzáles quer que os médicos nascidos na ilha de Fidel Castro atendam ao chamado humanitário do Brasil e passem a ajudar o País no combate à doença. Confira abaixo a entrevista.

  Diante do avanço do coronavírus, o governo brasileiro quer trazer de volta, para atuar no combate à pandemia, os médicos cubanos dispensados do Mais Médicos. Como o senhor avalia este chamado do governo brasileiro?

Na realidade, a decisão do governo, através do próprio Congresso, pretende oferecer uma oportunidade de trabalho para nossos médicos cubanos que permaneceram no Brasil desde quando foi interrompida nossa presença no programa Mais Médicos. Esses profissionais médicos permaneceram no País sem poder exercer a medicina, na informalidade, apesar da promessa feita e de todas as necessidades que o Brasil tem para fazer frente a epidemias e à atenção primária de saúde num sentido mais geral. E eles estavam esperando por quase um ano e cinco meses a possibilidade de exercer a profissão.

Houve um atraso do governo brasileiro, na avaliação do senhor?

Sim, considerável. Houve um atraso excessivo para a contratação de profissionais que, lamentavelmente, estão sem poder fazer serviços médicos ante a uma necessidade muito grande de seus serviços em Brasil. Em muitos lugares, onde estavam nossos médicos, sabemos perfeitamente que não puderam ser contratados médicos brasileiros ou de outras nacionalidades.

O governo Jair Bolsonaro se elegeu com uma plataforma política de rejeição ao financiamento dos médicos cubanos, alegando que o dinheiro que devia ser pago a esses profissionais estava indo direto para o socialismo de Fidel Castro…

São calúnias que fazem parte de uma campanha internacional contra a colaboração médica cubana. Colaboração que tem um caráter humanitário, solidário, efetivo, reconhecido por organizações mundiais de saúde.

Os médicos cubanos atuam em quantos países ao redor do mundo?

Nossos médicos estão em cerca de 51 países. Mais de 21 mil colaboradores cubanos. Estamos presentes por todo o mundo. E são médicos que, assim como os que estão no Brasil, vão atuar a partir de contratos firmados. O Brasil tem populações em favelas, em lugares de difícil acesso. Alguns são perigosos, onde não iam médicos brasileiros e onde não iam médicos de outras nacionalidades. Nossos médicos vão.

O senhor acha que os médicos cubanos que permaneceram aqui carregam certa mágoa por terem passado tanto tempo na informalidade?

Se sentem verdadeiramente decepcionados, frustrados, porque são médicos de muita qualidade que fizeram medicina geral e integral. São médicos formados em epidemiologia, em atenção primária de saúde e são especialistas de grande valia. E é penoso que especialistas de grande valia estejam desempregados, vivendo aqui, em sua imensa maioria, porque têm famílias constituídas com brasileiros. Têm filhos, esposos, esposas, e impedidos de trabalhar durante todo esse tempo. Mesmo havendo tantas necessidades aqui no País.

Um dos casos que chegaram à reportagem é de um médico cubano que mora em Vitória, no Espírito Santo, mas virou churrasqueiro e motorista de aplicativo após ser excluído do Mais Médicos. Estava no Brasil desde 2016.

Um especialista dessa tremenda valoração, se dedicando a outra coisa, é realmente muito lamentável.

Olhando para a frente, o senhor acha que deve ter engajamento dos 1,8 mil médicos convocados pelo Brasil? Eles devem assumir essa função humanitária?

Creio que todo médico não deve se furtar da sua missão de exercer e prestar serviços médicos. Eu creio que é magnífica a decisão de que esses médicos sejam contratados e que possam oferecer seus serviços aos mais vulneráveis no Brasil.

Como está a situação do coronavírus em Cuba?

Temos sete casos confirmados (a entrevista foi concedida na última quarta-feira), que vieram de fora do País. Não há transmissão direta entre cubanos. Por outra parte, há todo um plano de prevenção, controle e enfrentamento a esta epidemia, com grande ênfase na capacitação de nossos profissionais. Todos os cubanos que têm chegado ao País, de nações com manifestação de coronavírus, estão sendo recebidos na atenção primária de saúde nos municípios e nos lugares onde vivem, através dos policlínicos e dos postos de saúde. São monitorados com grande vigor, sobretudo as pessoas mais vulneráveis, idosos, pessoas com enfermidade crônica.

Teve a chegada de um cruzeiro da Inglaterra, recepcionado por Cuba após negativa de outros países...

Um momento dessa natureza exige cooperação, humanismo e solidariedade. Cuba adotou todo tipo de prevenção para evitar contaminação por parte dos passageiros. Todos os cinco contaminados e a tripulação chegaram ao porto de Mariel. Todos os passageiros serão levados para o aeroporto de Havana de onde serão levados à Inglaterra. Dentro das medidas de segurança mais rigorosas para fazer esse movimento. Esses turistas estavam correndo risco de serem contaminados por essa situação. E Cuba permitiu que atracassem no porto de Mariel.

 

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