Empresa de Sorocaba cria mão biônica totalmente articulada

Projeto é baseado em prótese de empresa escocesa e custará até 80% menos que a importada

José Maria Tomazela, do Estado,

30 de outubro de 2007 | 09h13

Uma empresa de Sorocaba, a 92 km de São Paulo, está desenvolvendo uma mão biônica que permite a articulação individual dos cinco dedos através de comandos cerebrais. O projeto, da Ortopedia Conforpés, desenvolvido com apoio de universidades, deve resultar no lançamento do produto em 3 ou 4 anos, segundo o diretor Nelson Nolé.   As próteses utilizadas até agora articulam apenas os dedos indicador e polegar, num movimento semelhante ao da pinça. A boa notícia é que a mão biônica brasileira vai custar bem menos do que o produto importado, lançado em setembro deste ano por uma empresa escocesa. O equipamento inédito da Touch Bionics custa, instalado, até R$ 150 mil. "Nossa meta é oferecer no Brasil por muito menos, quem sabe de 10% a 20% desse valor", disse Nolé.   Ele contou que sua empresa, especializada em ortopedia técnica, vinha trabalhando em sigilo no desenvolvimento da mão biônica. Quando soube que a empresa escocesa ia fazer o lançamento do produto no congresso mundial de ortopedia, nos Estados Unidos, não perdeu tempo. Além de acompanhar o lançamento, ele adquiriu um exemplar. "Somos os primeiros a ter essa mão na América Latina", disse.   O equipamento foi apresentado, na semana passada, no congresso da Associação Brasileira de Ortopedia Técnica, em Fortaleza. No domingo, Nolé fez os primeiros testes com a mão biônica em Sorocaba. O funcionário público Celso Mascarenhas, de 38 anos, que teve a mão direita amputada, em 1989, após acidente com um rojão, foi o primeiro a usar o novo equipamento. Desde o acidente, ele utiliza a prótese convencional, com comando cerebral para dois dígitos. Com ela, pôde continuar pintando quadros e manteve seu emprego no almoxarifado da prefeitura. Aprendeu a escrever, usar o teclado do computador e a pegar os talheres, sempre com polegar e indicador.   Depois de usar a mão biônica, Mascarenhas sabe que a mão mecânica que o acompanha há 18 anos já faz parte do passado. "Com essa mão, posso até tocar piano", disse, deslumbrado. Ele escreveu, pegou copos, tomou café, segurou até um ovo usando os cinco dedos artificiais. Também apertou as mãos e acariciou o rosto da filha Suzely. "É mais leve que a minha", disse. Nolé acredita que o protótipo brasileiro será ainda mais leve. Ele acha que, apesar da redução de custo, o produto nacional será tão sofisticado quanto o importado. "Já conseguimos fazer aqui próteses que lá fora custam muito caro." No Brasil, segundo ele, o número de pessoas que necessitam de próteses chega a 18 milhões. Pelo menos 30% dos casos são de membros inferiores e superiores.   No caso da mão biônica, ele não prevê a utilização em larga escala por causa do custo elevado. "Mas o mercado existe e é grande", disse. Cita, como exemplo, funcionários de grandes empresas que se acidentam. "Muitas vão optar pela prótese para não perder uma mão de obra altamente qualificada." A mão funciona com um software instalado no equipamento. Duas placas de eletrodos fixados nos músculos do antebraço detectam os sinais enviados pelo cérebro e transmitem o comando para o sistema de articulação dos dedos. É o chamado comando mioeletrônico.   Nolé fez o projeto da mão biônica brasileira com base no sistema usado na prótese de Mascarenhas. Ele sabia que as pesquisas no exterior estavam mais avançadas. "Eles têm grande financiamentos, enquanto nós trabalhamos com recursos próprios." O projeto escocês da mão biônica começou a ser pensado na década de 60, em Edimburgo, quando se iniciava a investigação sobre próteses para as crianças afetadas pela talidomida. Depois de vários modelos com movimentação parcial, a Touch Bionics, surgida em 2005, anunciou ter conseguido desenvolver o projeto de articulação múltipla. A mão biônica é a primeira lançada comercialmente no mundo. A empresa lançou também o ProDigits, dedos articulados para pessoas que perderam parte da mão.

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