Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Empresas doam R$ 100 milhões para nova fábrica que vai produzir vacinas contra o coronavírus

Previsão é que a unidade entre em operação até o começo do ano que vem, com capacidade de produzir até 30 milhões de doses por mês

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2020 | 15h00

Um grupo de oito empresas e fundações vai investir R$ 100 milhões para contribuir com a montagem da fábrica para produção de vacinas contra a covid-19 na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. A previsão é de que a unidade entre em operação até o começo do ano que vem, com capacidade de produzir até 30 milhões de doses por mês.

A doação é uma iniciativa conjunta de Ambev, Americanas, Itaú Unibanco, Stone, Instituto Votorantim, Fundação Lemann, Fundação Brava e Behring Family Foundation.

A fábrica ficará numa área de 1,6 mil metros quadrados no complexo de Bio-Manguinhos, instituto da Fiocruz produtor de vacinas. O investimento empresarial dará apoio para a reforma da ala do edifício e a compra e instalação de equipamentos complementares aos já existentes no local.

A Fiocruz é vinculada ao Ministério da Saúde, responsável por definir como ocorrerá uma eventual distribuição das doses. Antes disso acontecer, porém, é preciso terminar os testes e comprovar a eficiência e a segurança da vacina.

O que vai ser feito

A vacina a ser produzida na unidade é a mesma que está sendo desenvolvida pela Universidade de Oxford com a farmacêutica britânica AstraZeneca. No fim de junho, a Fiocruz fechou um acordo de cooperação com ambas para compra de lotes e transferência de tecnologia. O acordo dá direito ao instituto brasileiro adquirir o insumo antes mesmo do fim dos ensaios clínicos, com o objetivo de assumir uma posição mais estratégica na área, já que há uma corrida global em busca das vacinas.

O processo de produção será dividido em duas etapas. A primeira consiste na fabricação de 30,4 milhões de doses até o começo do ano que vem. Depois disso, se a eficácia da vacina for comprovada, o acordo prevê uma segunda etapa, com a produção de mais 70 milhões de doses.

No momento, a pesquisa de Oxford e Astrazeneca se encontra na fase três, última etapa de testes antes de receber sinal verde. Os testes desta vacina estão sendo conduzidos em países como o próprio Brasil, além de África do Sul, Inglaterra e Estados Unidos.

Ao avançar até a fase três, os cientistas ficam mais próximos de uma solução para a pandemia do coronavírus. Mas especialistas dizem que esta é uma etapa sensível no processo de pesquisa, quando muitos projetos acabam se provando menos eficazes do que o esperado. Portanto, ainda é preciso aguardar os resultados conclusivos antes de comemorar.

Articulação entre empresas, fundações e governo

O investimento anunciado hoje pelo grupo empresarial, somando ao acordo de cooperação, abrirá caminho para a Fiocruz dominar em breve o processamento do ingrediente farmacêutico que importará da AstraZeneca, tornando-se autossuficiente em todas as fases do processo: formulação, o envase e o controle de qualidade das primeiras 100 milhões de doses da vacina. Após essa produção, a vacina deverá passar pelas etapas necessárias de registro e validação antes de uma possível distribuição.

Quando concluídos todos os investimentos, a fábrica de Bio-Manguinhos também capacidade para produzir outras vacinas no futuro, incluindo outros tipos contra o covid-19 que venham a ser aprovadas.

A Fiocruz e a Ambev serão co-responsáveis pela gestão e execução do projeto, sob supervisão técnica de Bio-Manguinhos. O escritório de advocacia Barbosa, Mussnich e Aragão atuará como consultor jurídico do projeto, de forma voluntária. Um comitê composto por todas as empresas e fundações será formado para acompanhar o andamento da obra.

A articulação entre empresas, fundações e governo para montagem da fábrica começou há cerca de um mês e meio, conta o vice-presidente da Ambev, Mauricio Soufen. Segundo ele, a iniciativa empresarial ganhou corpo quando ficou claro que o Brasil começou a se destacar como um dos polos para testes da vacina contra a covid-19, à medida em que a comunidade científica internacional avançava com o desenvolvimento das pesquisas.

"Daí começamos a nos mobilizar internamente e entender como poderíamos ajudar. Nesse momento, ficou muito claro para o nosso time que o próximo gargalo seria na capacidade de produção em massa da vacina", disse Soufen. "Ajudar o Brasil a ter autonomia na produção da vacina passou a ser a prioridade do nosso time."

O grupo não informou qual a participação de cada empresa no total dos R$ 100 milhões investidos na montagem da fábrica no Rio. Parte dos integrantes da coalizão também apoiará a preparação de uma fábrica similar no Instituto Butantã, em São Paulo. As duas iniciativas vão permitir ao Brasil se aproximar da autonomia para o abastecimento de vacinas contra o covid-19, e serão também as primeiras fábricas capazes de produzir este tipo de vacina na América do Sul.

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