‘Encontramos uma família nos colegas de trabalho’
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‘Encontramos uma família nos colegas de trabalho’

Gerente de Pacientes Internados e Práticas Médicas do Hospital Sírio-Libanês fala sobre as abdicações e dores pessoais e profissionais da pandemia

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 07h30

Felipe Duarte estava acostumado com planejamento no trabalho. Gerente de Pacientes Internados e Práticas Médicas do Hospital Sírio-Libanês, antes de março de 2020 ele tinha uma rotina de antecipar problemas, criar planos e implementar ideias no hospital. “Com a pandemia, mudou 180°”, conta ele. “É um cenário em que você fica muito reativo no começo. Como você não tem todas as informações e não está preparado 100% para o que vai acontecer, a ação inicial é ser reativo.”

O medo de se contaminar, misturado com a necessidade de prezar pela excelência no atendimento e no acolhimento dos pacientes, exigiu resiliência dos profissionais de saúde, avalia ele. “Acho que a gente silenciou um pouquinho nosso sofrimento para poder conseguir cumprir uma missão de dar acolhimento e atendimento para quem precisava naquele momento”, afirma. “E não falo isso com uma conotação de que a Medicina é um ‘sacerdócio’. Não, isso é uma questão da nossa profissão. No momento de crise de saúde, era esperado que a gente tivesse que se dedicar um pouco diferente do que estava acostumado.”

Não que as abdicações pessoais tenham sido fáceis. Duarte relata que o paradoxo de querer estar próximo da família em um momento tão difícil, mas não querer contaminar ninguém, foi um dos pontos que mais pesaram na vida pessoal. Por outro lado, a união com os colegas foi mais forte do que nunca. “Você começa a encontrar família em outros lugares. Você começa a encontrar uma família nos colegas de trabalho, por exemplo. Porque a gente precisa de vínculo.”

Quando o cenário parecia melhorar no fim de 2020, o cansaço acumulado começou a se manifestar. “Enquanto você está muito focado, você não percebe o cansaço. Mas como veio em ondas, no momento em que baixa um pouquinho, o cansaço bate mais intenso. Na hora que vem outra onda, você tem que recuperar o fôlego e é mais difícil”, lembra ele. Por volta de abril de 2021, a chamada “segunda onda” de aumento no número de casos e mortes encontrou médicos ainda mais exaustos e no limite das capacidades.

Somado a isso, Duarte lembra que surgiu um novo medo: o de atingir a capacidade máxima do hospital e não conseguir atender todos os pacientes – o que não chegou a acontecer no Sírio. “Se tem uma coisa que é frustrante para o profissional de saúde é não conseguir dar a assistência que você planeja dar. Você pode de repente perder um paciente, mas não ter conseguido dar assistência necessária para ele gera uma frustração muito maior”, afirma.

O médico conta que o cansaço ainda é grande, e começa a refletir que o último um ano e meio foi um período paradoxal, segundo ele. “Para mim a pandemia despertou os sentimentos mais antagônicos: tinha algum prazer de vir trabalhar na pandemia? Tinha, porque a equipe estava mais unida do que nunca, e dava o prazer de vencer todo dia. Ao mesmo tempo era uma tristeza do tamanho do universo por tudo que estava acontecendo. Nos levou ao extremo do que é ser humano.”

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