JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO
JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO

Endereço é fator de risco na Covid-19

Bairros periféricos da capital com menor oferta de empregos formais chegam a ter dez vezes mais mortes pela doença em relação a regiões nobres, aponta estudo da Rede Nossa São Paulo

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2020 | 10h18

O endereço do paulistano é um fator de risco de morte da Covid-19. A doença, que inicialmente atingiu a população mais rica que viajou ao exterior, agora faz mais vítimas entre os paulistanos de menor renda. Bairros periféricos e com pequeno  número de vagas formais de trabalho chegam a ter dez vezes mais mortes por conta da Covid-19 em relação a distritos mais ricos e com maior oferta de empregos com carteira assinada, segundo estudo feito pela Rede Nossa São Paulo (RNSP).


No extremo da zona Leste da capital paulista, em Cidade Tiradentes, por exemplo, onde há 24 vagas de empregos formais por mil habitantes em idade de trabalhar, foram registrados 223 óbitos desde do início da pandemia até o dia 2 de julho, de acordo com dados  da Secretaria Municipal da Saúde. Já no bairro da Barra Funda, na zona Oeste da cidade, onde existem 5.920 vagas de empregos formais por mil habitantes, 21 pessoas morreram em razão da doença em igual período. 

 

A explicação para esse abismo do número de mortes entre distritos da mesma cidade é que a população que mora na  periferia, por questões de sobrevivência, não pode ficar em casa. Ela tem de se deslocar para ir ao trabalho e acaba enfrentando  aglomerações no transporte público. Por isso,  é mais suscetível à doença.

"A relação entre o emprego formal e a Covid-19 é mais um indicador que mostra que as mortes causadas pela pandemia têm endereço", afirma Carolina Guimarães, coordenadora da RNSP e responsável pelo estudo. Enquanto em países menos desiguais do continente europeu o fator de risco de morte por Covid-19 é a idade e condições prévias de saúde, no Brasil o risco é identificado pelo local da moradia, observa.

 O trabalho cruzou não apenas o número de mortes por Covid-19 registrado pela secretaria do município com o emprego formal, mas também com renda média familar e a quantidade de famílias em situação de vulnerabilidade. Neste caso, famílias com renda de até um quarto do salário mínimo (R$ 261,25).  Por essas duas outras métricas também chegou-se à conclusão de que a letalidade da pandemia é maior na periferia em relação a de bairros mais ricos.

Cidade Ademar, Jardim São Luís, Jardim Ângela e Grajaú concentram um número de famílias em extrema pobreza mais de 200 vezes maior que os distritos de Barra Funda, Alto de Pinheiros, Jardim Paulista e Moema. E o número de óbitos por Covid- 19 nessas localidades chega a ser 14 vezes maior na comparação com bairros mais ricos. Também distritos com menor renda média, como Jardim São Luís, Jaraguá, por exemplo, têm 2,7 vezes mais óbitos por Covid-19 do que  bairros nobres.

"Essa é a crônica da tragédia anunciada", afirma  o médico Alexandre Barbosa, membro titutar da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor da Unesp de Botucatu (SP).  Ele diz que as doenças em geral, tanto agudas quanto crônicas, cobram um preço muito mais alto de quem tem menos renda e menor  escolaridade.

Dois fatores, segundo o infectologista, são responsáveis pela maior letalidade nessa camada da população. O primeiro é que  essa população  não consegue assimilar as medidas preventivas para essas e outras doenças. "Elas tem baixo nível de percepção em relação a própria saúde pela falta de acesso a educação."

O segundo fator é que essas pessoas não conseguem implementar as ferramentas de prevenção. No caso da Covid-19, diz Barabosa, elas moram em casas com muitas pessoas, num modelo de cortiço, de favela. Além disso, para ter o sustento diário têm de se expor no transporte público, nas ruas. "A gente já sabia que o preço da Covid-19 nas periferias  seria muito maior do que nas zonas mais ricas, porque esse é o modelo de impacto dessas doenças na população mais pobre. Temos grandes exemplos, como a tuberculose que mata mais pobre, favelado, negro, assim como a influenza que tem o mesmo perfil."

Luxo 

Enquanto não houver uma vacina, as duas grandes medidas para conter o avanço da pandemia são ficar em casa e lavar as mãos. "Esses são temas de luxo para quem mora na periferia", diz Carolina. Como a população mais vulnerável que vive nos extremos da cidade não tem renda garantida para se manter, ela precisa sair de casa para conseguir sobreviver.

Trabalhadores ambulantes ou que prestam serviços domésticos acabam tendo de enfrentar diariamente aglomerações no transporte e nos grandes corredores de consumo onde vendem seus produtos. Outros estão empregados em serviços essenciais, como supermercados, hospitais, por exemplo, diz a coordenadora. Isso deixa essas pessoas  mais expostas à doença e elas correm mais riscos comparativamente aos paulistanos podem trabalhar de casa  na quarentena e contam com reservas financeiras. Carolina frisa que a pandemia escancarou desigualdade e a falta de política públicas. "Há várias cidades dentro da cidade de São Paulo."

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.