Endometriose, um pesadelo da mulher moderna

O corpo feminino não acompanhou as mudanças culturais. O adiamento da gravidez (às vezes, para sempre) faz com que as mulheres de hoje tenham um número muito maior de ciclos menstruais do que as de antigamente. Isso pode favorecer o aparecimento da endometriose, doença que atinge até 15% da população feminina mundial em idade reprodutiva. Endométrio é o tecido que reveste a parede interna do útero, e que é eliminado a cada menstruação. Hoje, sabe-se que algumas dessas células fazem o caminho inverso e vão para a cavidade abdominal. O próprio organismo encarrega-se de "limpá-las", mas, infelizmente, nem sempre isso acontece. Em muitas mulheres, por uma falha na defesa do organismo, esse material continua depositado em órgãos como ovário, trompas, intestino, bexiga e no fundo do útero. Como o endométrio cresce em cada ciclo para se preparar para a gestação, esses focos fora do lugar também aumentam de tamanho e, como não têm por onde sair, podem virar tumores de até 10 centímetros, prejudicando os órgãos onde estão depositados. Este é o quadro da endometriose, uma doença silenciosa, com sintomas imprecisos. Cólicas menstruais mais fortes e dor durante as relações sexuais são os principais indícios. Alterações no intestino e na urina durante a menstruação também são sinais da doença, que, nos estágios mais avançados, pode levar a mulher à infertilidade. Os sintomas precoces, nem sempre, são reconhecidos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a enfermeira Maria Regina Rodrigues, de 34 anos. "As pessoas diziam que era normal o intestino ficar mais solto durante o período menstrual", conta ela, que só descobriu que tinha endometriose porque um médico de laboratório suspeitou que o cisto visto no exame de ultra-som fosse endometriótico. A estimativa é de que ela já apresentasse a doença há pelo menos cinco anos! Os cistos endometrióticos só se tornam visíveis no ultra-som quando já estão crescidos demais. A princípio, são microscópicos. Teoricamente, a suspeita deveria ser levantada pelo ginecologista a partir da conversa com a paciente e do exame clínico. Mas isso não é a regra. No caso de Regina, a endometriose já tinha se espalhado de tal maneira que as alças do seu intestino estavam coladas e ligadas ao útero. "Meu mundo caiu quando eu descobri", lembra, afinal, como enfermeira, ela bem sabia da extensão da cirurgia. "Mas, passado o susto, continuei estudando o assunto e não desanimei." Sua atitude positiva levou-a até a adotar a endometriose como tema do trabalho de conclusão da faculdade de Enfermagem. Ela passou por uma cirurgia bem-sucedida, em que foram retirados 40 centímetros do seu intestino e um dos ovários. A recuperação demorou seis meses, e ela emagreceu 20 quilos. Hoje está bem e de volta ao trabalho, mas ainda vive um conflito. "Tento me convencer de que não posso mais ter filhos", fala ela, que poderia recorrer à fertilização in vitro. Divorciada, tem um menino de 10 anos, mas seu atual namorado ainda não tem filhos. Diagnóstico - O melhor, obviamente, é descobrir a doença logo no início. A partir da suspeita, recomenda-se fazer o exame de sangue CA 125, cujo nível aumenta em casos de endometriose. Mas só este teste não é determinante, porque também pode haver alterações no seu resultado em casos de inflamação e outras doenças. "Costumamos repetir o exame, se ele vai subindo mês a mês, é um forte indício de que há a doença", explica o ginecologista e especialista em laparoscopia, José Remohi Llana. O único exame que determina com segurança se há endometriose e qual o seu grau é a laparoscopia - procedimento cirúrgico de pequeno porte, pelo qual retira-se os nódulos e os focos da doença são cauterizados. "Só quando a endometriose já está em grau avançado é que não é possível tratá-la via laparoscopia", informa o médico. Para ser submetida a esse procedimento, a paciente é internada por um dia e toma anestesia. Infelizmente, esse não é o fim da história. Para prevenir o aparecimento de novos focos, depois da laparoscopia, os médicos geralmente prescrevem um medicamento que inibe a produção do hormônio estrógeno, causando uma menopausa precoce - por um período máximo de seis meses. Isso porque, se for usado por mais tempo, o remédio pode causar osteoporose. Ao mesmo tempo, ou depois desse tratamento, costuma-se recomendar métodos anticoncepcionais como o DIU de progesterona, implante ou pílulas específicas, dependendo do caso. O objetivo é controlar a produção de estrógeno e evitar a reincidência da doença, o que ocorre em 1,5% a 2% das pacientes, segundo Llana. Cerca de 40% das mulheres que não conseguem engravidar têm endometriose. Essa dificuldade, inclusive, é o que as leva ao diagnóstico. Foi o que ocorreu com a secretária Cristiane Rodrigues de Oliveira Macedo, de 34 anos. Depois de várias tentativas frustradas de engravidar, ela foi submetida à laparoscopia, quando foram cauterizados os focos da doença, que estavam nos ovários, bexiga e em outros órgãos. Para se ter uma idéia de como os sintomas são imprecisos, Cristiane não sentia cólicas, apenas um pouco de dor nas costas. "Dava um nó na minha cabeça essa história de não conseguir gerar um filho", lembra. Depois da laparoscopia, ela passou a tomar o medicamento inibidor da produção de estrógeno, que causa a menopausa precoce. "Foi horrível. Fiquei um ano e meio sem menstruar e meu corpo ficou todo inchado." Hoje recuperada, já pensa novamente em ser mãe. Uma das autoridades no assunto, o ginecologista e responsável pelo Setor de Endometriose do Hospital das Clínicas de São Paulo, Maurício Simões Abrão, conta que estão sendo pesquisadas drogas para fortalecer o mecanismo de defesa, que "limpa" as células endometrióticas dos outros órgãos da cavidade abdominal. "Acredito que estresse e ansiedade contribuam para a endometriose", afirma Abrão, autor do livro "Endometriose: Uma Visão Contemporânea" (Editora Revinter). "A mulher deve cuidar dos problemas emocionais, fazer exercício físico e ter boa alimentação para se prevenir." Já o colega Remohi, apesar de não dar crédito a fatores emocionais como causa da doença, observa: "O estresse pode diminuir as defesas e facilitar o quadro da endometriose".

Agencia Estado,

01 de setembro de 2006 | 14h30

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