TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Primeira vacinada contra covid no Brasil, Mônica Calazans agora vive novo capítulo da pandemia

Enfermeira do Emílio Ribas voltou a tratar doenças infectocontagiosas; em pronto-socorro da zona leste, atende casos de pressão alta, dor abdominal e diabete. Ela também defende proteger logo as crianças do coronavírus

Gonçalo Junior e João Ker, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2021 | 10h15

Há quase um ano, a enfermeira Mônica Calazans exibiu em rede nacional o sorriso da esperança de que a pandemia poderia um dia acabar. Era uma tarde de domingo quando ela se tornou a primeira brasileira vacinada contra a covid-19. “Não tive medo em momento nenhum. Fui com muita segurança na vacina, desde o início”, conta.

A primeira agulhada, em 17 de janeiro de 2021, ocorreu após embates políticos, desinformação e resistência do governo federal em começar logo a aplicação de doses - o cenário se repete agora com a imunização infantil. “Uma coisa que sempre falo e repito: quando a gente nasce, a primeira coisa que a nossa mãe faz é vacinar. É questão de carinho, de segurança”, diz.

A imagem da picada no braço esquerdo de Mônica, enfermeira negra do Hospital Emílio Ribas, de São Paulo, foi o pontapé inicial de um movimento que reduziu casos e mortes por covid-19 em todo o País. Hoje, já são quase 70% dos brasileiros vacinados com ao menos uma dose.

Com o avanço da vacinação, os hospitais têm aberto mais leitos para tratar pacientes que ficaram à espera de alívio na pandemia. A luta de Mônica continua, mas em outras frentes. “Estamos conseguindo respirar em relação à covid-19. Agora, temos pacientes com outras comorbidades”, afirma ela, de 55 anos.

O cotidiano de Mônica exemplifica a própria dinâmica do hospital. Durante meses, a UTI esteve inteiramente dedicada ao tratamento de pacientes com covid e chegou a ter 70 leitos – hoje, são 50. Em março, 100% dos leitos estavam ocupados; 97% por causa do coronavírus. Hoje, o hospital ainda recebe pacientes graves encaminhados de outros serviços públicos e também sente a alta dos casos de gripe: duas pessoas estavam internadas na semana passada. Mas a pressão diminui.

O endereço da Avenida Dr. Arnaldo, na zona oeste paulistana, voltou a tratar doenças infectocontagiosas, sua especialidade. O centro é referência nos cuidados com pacientes de HIV e doenças como febre amarela e H1N1 na América Latina. Mônica já conhece de cor todas as antessalas que funcionam como barreiras para reduzir o contágio. "O paciente com HIV é muito bem acolhido no hospital, do ponto de vista emocional e clínico."

O foco no atendimento de outras doenças se repete no Pronto Atendimento de São Mateus, mantido pela Prefeitura de São Paulo, na zona leste. Este é o segundo emprego de Monica. Com a queda dos casos de covid, ela atende mais pacientes com pressão alta, dores abdominais, infecções urinárias, cefaleias e problemas decorrentes da diabete. 

O número de transferências de pacientes também diminui – o posto onde trabalha não tem estrutura de internação. No pico da pandemia, em maio do ano passado, ela cruzava a cidade quatro ou cinco vezes por dia acompanhando pacientes para os hospitais de campanha. Cruzar está aqui no sentido literal, de São Mateus, no extremo da zona leste, até Parelheiros, no extremo sul, por exemplo. Agora, as transferências caíram para uma por dia e se resumem a pacientes com suspeita de covid.

Fama

Paciente de risco para o coronavírus por ser obesa, hipertensa e diabética, Mônica recebeu a primeira dose da Coronavac aplicada no País, mesmo dia em que a vacina foi aprovada emergencialmente pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). "Naquele momento, tínhamos 220 mil mortos no Brasil. A vacina fez uma diferença enorme. A gente trabalha com mais confiança porque temos a vacina."

De lá para cá, a torcedora do Corinthians se tornou a cara da campanha de vacinação. Foi ela quem aplicou a primeira dose da Coronavac no governador João Doria (PSDB), meses depois. Vencedora do 1º Prêmio Notáveis da emissora CNN Brasil para empresas, pessoas e entidades por ações positivas na pandemia, a enfermeira costuma ser reconhecida nos atendimentos, mas algumas pessoas estranham que ela esteja mesmo na linha de frente. "Muita gente pensa que eu não trabalho", conta, antes de uma gargalhada gostosa.

No dia 10 de janeiro, ela vai proferir uma palestra sobre os desafios da enfermagem para os alunos do colégio técnico 24 de Março, especializado na área de saúde. Um dos presentes preferidos é a camiseta que veio de uma associação de médicos do Rio Grande do Sul com a inscrição "Lute pelo SUS".

A fama criou uma ligação especial com alguns pacientes, entre eles, um idoso de 70 anos, transferido no dia 31 de dezembro para o Hospital de Parelheiros. Duas semanas depois da internação, o filho do paciente ligou para Mônica se dizendo emocionado por seu pai ter sido amparado pela primeira vacinada do País. Depois de cinco dias, o paciente teve alta. “Além de acolher, a gente tem de passar segurança e confiança e que tudo vai dar certo", conta.

Mônica foi a primeira imunizada, mas sofreu o drama da pandemia dentro de casa. Por conta das complicações da diabete, sua mãe, Maria, de 72 anos, passou pela amputação do pé direito. Foi uma cirurgia de urgência – os problemas se agravaram por causa das dificuldades de atendimento durante a crise sanitária. Hoje, a mãe está bem e já conseguiu uma prótese. O irmão caçula de Mônica, auxiliar de enfermagem de 44 anos, ficou internado por 20 dias por causa da doença. Além disso, Mônica aguardou angustiada que chegasse a vez de o filho Felipe, de 30 anos, se vacinar.

Graduada em Enfermagem aos 47 anos, depois de ter passado mais de duas décadas trabalhando como auxiliar, na área de clínica médica, Mônica foi voluntária para a linha de frente no combate à pandemia. Seu contrato com o Emilio Ribas seria de um ano, mas foi prorrogado até meados do ano que vem. Quando o vínculo acabar, seu plano A para 2022 é voltar a ter um emprego só.

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