Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Enquanto outros países começam a abrir, Brasil não encontra maneira de se fechar

Em lugar de unir o país contra uma ameaça comum, a resposta à pandemia vem dividindo ainda mais uma sociedade profundamente polarizada

Terrence McCoy, The Washington Post

11 de maio de 2020 | 15h00

RIO DE JANEIRO - Na Europa, os parques estão sendo reabertos e as pessoas voltando às ruas. A Austrália anunciou planos para retomar o turismo. As restrições começam a ser flexibilizadas nos Estados Unidos.

Mas se grande parte do mundo negocia as condições para uma reabertura, o Brasil, que registrou quase 11 mil mortes e se tornou o mais recente foco do coronavírus, ainda não encontrou uma maneira de estabelecer um lockdown adequado.

Nos centros urbanos duramente atingidos como o Rio de Janeiro, as pessoas ainda se amontoam nas ruas. As calçadas à beira-mar continuam repletas de banhistas. O presidente Jair Bolsonaro persiste em minimizar a ameaça, tendo declarado na semana passada que faria um churrasco no fim da semana. Após a forte reação contrária, ele decidiu passear de jet ski.

Em lugar de unir o país contra uma ameaça comum, a resposta à pandemia vem dividindo ainda mais uma sociedade profundamente polarizada. Bolsonaro, cuja tendência é não fazer nada, transferiu a tarefa para os governadores estaduais que passaram a responsabilidade de implementar as medidas mais rigorosas para as municipalidades. O resultado é uma agregação de medidas conflitantes e contraditórias que mudam não só de estado e município, mas também de bairro para bairro.

Algumas cidades do nordeste e norte do país, onde o sistema de saúde é particularmente precário, começaram a estabelecer lockdowns. Mas outras vêm retardando a medida o máximo possível - ou lutando para conseguir o apoio da população. O prefeito de Manaus, a maior cidade da região amazônica, devastada pela doença vem alertando que um fechamento total produzirá um caos social.

Nos primeiros dias, grande parte do país aderiu às políticas adotadas de isolamento. As pessoas evitaram reuniões em grupos. Atividades não essenciais foram paralisadas. Muita gente permaneceu em casa, saindo apenas quando absolutamente necessário. Agora, à medida que a pandemia começa a se alongar pelo terceiro mês, essas medidas têm sido cada vez mais ignoradas.

Em áreas de São Paulo, o estado mais severamente atingido pela epidemia, menos de 50% das pessoas obedecem às determinações de isolamento emitidas pelas autoridades.

“Infelizmente, o que tem causado o relaxamento por parte das pessoas é o comportamento errático do presidente”, afirmou o governador João Doria, “saindo à rua para caminhar, negando a ciência e a necessidade do isolamento e sendo um terrível exemplo para os brasileiros. Essa mensagem contrária vem influenciando negativamente a opinião pública”.

Outro fato que complica mais a situação é a pobreza do país. Quase 40% da população são pessoas que trabalham informalmente e os governos têm feito pouco para atender às necessidades delas. Muitas passarão fome se não trabalharem. Outras vivem nas favelas, onde o distanciamento social é praticamente impossível. E existem outras que não acreditam nos seus líderes locais nem nos jornais. A confiança nas instituições vêm caindo há anos e muitos acham que os riscos da doença são inflados ou que a epidemia vem sendo usada pelas autoridades para roubar dinheiro público.

“A pandemia da corrupção!”, afirmou uma pessoa num tuíte emblemático. “Ficar em casa é apenas uma cortina de fumaça”.

À medida que o número de casos e mortes dispara, os pesquisadores alertam que, se o Brasil não adotar medidas mais duras e não impuser um lockdown logo, será um desastre. "Estabelecer um lockdown tarde demais provocará uma catástrofe humanitária de proporções inimagináveis num país como o Brasil”, segundo declaração da Fundação Oswaldo Cruz, uma das mais prestigiadas instituições de pesquisa do país.

O sistema médico brasileiro, considerado o mais consistente da América Latina, já está próximo do seu limite. Alguns estados estão sem leitos de hospital. As pessoas definham durante dias em cadeiras, esperando por uma internação. Outras estão morrendo em casa, ou porque não conseguem ajuda médica ou temem não conseguir. Os trabalhadores de hospitais e coveiros temem ir trabalhar.

“Não podemos suportar todo mundo”, disse Rodrigo Romano, que trabalha em um hospital em Manaus, que registra uma das mais altas taxas de morte pelo coronavírus do país.

Ele diz que não consegue acreditar no que vê diariamente nas ruas. “As pessoas não têm nenhum bom-senso, andam pelas ruas, nos ônibus. O tráfego é terrível. É gente para todo lado”. / Tradução de Terezinha Martino

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