Nilton Fukuda/ Estadão
Nilton Fukuda/ Estadão

Ensaio em que pessoas são expostas voluntariamente ao coronavírus terá início em janeiro

O estudo, chamado de desafio humano, faz parte da primeira tentativa no mundo de verificar como pessoas imunizadas reagem a uma exposição à covid-19

Benjamin Mueller, The New York Times

22 de outubro de 2020 | 10h00

Pesquisadores do Imperial College London planejam infectar deliberadamente voluntários saudáveis com o coronavírus como parte da primeira tentativa no mundo para estudar como pessoas imunizadas com diferentes vacinas reagem a uma exposição controlada ao vírus.

O estudo chamado de desafio humano, ou de infecção humana controlada, deve ter início em janeiro num hospital de quarentena em Londres, com US$ 44 milhões de financiamento do governo, e foi anunciado na terça-feira.

Esse estudo pode poupar tempo na corrida para se obter uma vacina realmente eficaz entre as várias candidatas. Em vez de testar vacinas da maneira usual – aguardando que pessoas vacinadas enfrentem o vírus em suas casas e comunidades – os pesquisadores pretendem expô-las ao vírus num ambiente controlado.

No primeiro estágio do estudo, os cientistas tentarão determinar quais as menores doses do vírus necessárias para infectar uma pessoa. E gradativamente farão testes com doses cada vez maiores do vírus em até 90 voluntários saudáveis de 18 a 30 anos de idade, até chegar a um nível que realmente cause a infecção.

Uma vez decidida a dose – potencialmente no fim do primeiro trimestre –, os pesquisadores passarão a comparar um grupo de vacinas candidatas para combater o coronavírus imunizando pessoas e depois infectando-as deliberadamente. O governo decidirá que vacinas serão testadas, mas ainda não foram anunciadas.

É possível que no início do próximo ano algumas vacinas que agora vêm sendo testadas já terão recebido aprovação. Mas especialistas em ética médica estão divididos quando e se esse estudo é aceitável pois não existe nenhum tratamento eficaz para a covid-19.

Os pesquisadores do Imperial College London afirmaram que utilizarão o antiviral Remdesivir, mas já se chegou à conclusão de que a droga tem efeitos modestos. Muitos outros ensaios de infecção humana controlada envolveram doenças como cólera e febre tifoide que podem ser rápida e confiavelmente curadas com medicamentos.

Outra preocupação é de que a doença causada pelo coronavírus é imprevisível e, apesar de os jovens de um modo geral não adoecerem gravemente, já houve casos inesperados e inexplicáveis de efeitos graves em pacientes de menos idade.

O ensaio clínico previsto necessitará de aprovação da agência reguladora de produtos, saúde e medicina da Grã-Bretanha antes de os voluntários serem recrutados, e será monitorado por especialistas independentes.

Pelo menos no início o experimento envolverá somente voluntários jovens e saudáveis, o que significa que as conclusões poderão não se aplicar plenamente a pessoas com maior risco de adoecer severamente em consequência da covid-19 – indivíduos mais idosos e aqueles com comorbidades.

Cerca de duas mil pessoas na Grã-Bretanha manifestaram interesse em participar por meio de um grupo americano, 1Day Sooner, que apoia esse tipo de estudo.

O ensaio clínico será administrado pelo Imperial College London juntamente com a hVivo, empresa especializada em ensaios de desafio humano. E será realizado num hospital ao norte de Londres. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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