Nilton Fukuda/ Estadão
Nilton Fukuda/ Estadão

Nos EUA, 11 mil pessoas rastreiam por telefone contaminados pelo coronavírus

Estima-se que país precise de 100 mil a 300 mil trabalhadores para a função, na tentativa de encontrar os doentes e alertar para o risco de novas infecções

Jacey Fortin, The New York Times

20 de maio de 2020 | 10h00

Quando Jessica Jaramillo telefona a uma pessoa para conversar sobre o novo coronavírus, em geral começa mais ou menos assim: “Olá, meu nome é Jessica. Estou chamando em nome do Departamento de Saúde Pública de San Francisco. Faço parte de uma equipe de pessoas que se dedicam ao rastreamento de contatos e o nosso trabalho consiste em falar com as que estiveram muito próximas de alguém que recebeu o diagnóstico de covid-19”.

Jessica, de 41 anos, uma diretora distrital da Biblioteca Pública de San Francisco em tempos normais, fez dezenas de telefonemas até o momento, todos em espanhol. Ela começou a rastrear este tipo de contato, ou “seguimiento de contatos”, este mês.

Ela é uma das mais de 11 mil pessoas em todos os Estados Unidos que se dedicam a contatar estes cidadãos dando conselhos sobre como evitar o alastrar-se da covid-19, segundo uma pesquisa realizada pelo NPR. (Este número muito provavelmente cresceu desde que a pesquisa começou no mês de abril.)

As estimativas do número de pessoas necessárias em toda a nação para fazer este tipo de identificação varia de 100 mil a 300 mil.

O trabalho é em geral por telefone e pode ser feito em casa. Os empregos podem ser em tempo integral ou parcial, muitas vezes com um salário por hora de US$ 17 a US$ 25; alguns incluem benefícios. Eles diferem de um lugar para o outro porque o treinamento e o recrutamento em grande parte passaram a ser atribuídos aos governos estaduais e municipais (e alguns dos programas já esbarraram em problemas, tanto práticos quanto políticos).

À medida que as comunidades começam a se abrir e o número de pessoas que se aventuram fora de suas casas está aumentando, o trabalho deverá tornar-se mais crucial – e mais difícil. “Se você consegue identificar estas pessoas, poderá alcançá-las antes que o contágio se espalhe pela comunidade como um incêndio florestal”, comparou Jessica. “Então você salvará a avó ou a tia de alguém”.

A abordagem da 'velha escola'

Como funcionária pública que se candidatou para ser um apoio em desastres, Jessica estava preparada a servir a sua comunidade no caso, por exemplo, de um terremoto. Ela só não imaginava uma pandemia.

As conversações de Jessica pelo telefone versam sobre as necessidades das pessoas do outro lado da linha. Se elas precisam fazer o teste da covid-19, ela as encaminhará para uma consulta. Se apresentam os sintomas, pode recomendar o isolamento. Se estão preocupadas com a sobrevivência durante a quarentena, ela pode colocá-las em contato com serviços de entrega de alimentos.

E se a sua preocupação é com a privacidade, Jessica as tranquiliza, garantindo que as suas informações estarão seguras. No treinamento, ela fez um curso sobre as regulamentações federais que protegem informações confidenciais de saúde, e trabalha com software em código. Jessica e outros que se dedicam à mesma atividade em San Francisco não divulgam os nomes dos que receberam o diagnóstico de covid-19 para as pessoas para as quais telefonam.

A Universidade da Califórnia, em San Francisco, colabora com a prefeitura e o estado no treinamento de centenas de funcionários como Jéssica. “Este trabalho de rastreamento não é uma bala de prata”, disse Mike Reid, professor assistente da Escola de Medicina da UCSF.

Mas, acrescentou, a abordagem da “velha escola” de San Francisco e de outros departamentos de saúde – baseada na educação e em dar mais autonomia às pessoas, e não em aplicativos de identificação como aqueles nos quais o Google e a Apple estão trabalhando – podem unir as comunidades e capacitar os cidadãos para a solução de crises futuras.

Este é um mercado de emprego competitivo

Em uma época de isolamento, um emprego que depende do contato humano é muito atraente. E para alguns, a tarefa é uma maneira de contra-atacar uma pandemia que arrasou a economia nacional.

Mas mesmo que centenas de milhares de pessoas sejam contratadas para o rastreamento, isto mal afetaria o problema do desemprego; de fato, nos últimos dois meses, foram cadastrados nos Estados Unidos mais de 36 milhões de desempregados.

Por outro lado, as oportunidades variam de estado para estado; Massachusetts e Califórnia foram alguns dos primeiros a adotar estes amplos programas de identificação de pessoas com covid-19.

Oscar Baez, de 33 anos, um funcionário do Foreign Service, teve mais sorte. Ele foi retirado do seu posto em Jerusalém em março e mandado de volta a Boston, onde ele cresceu. Baez, originário da República Dominicana, fala espanhol, português e árabe para se comunicar com as pessoas que monitora na área de Boston. “É uma oportunidade para identificar os que estão expostos ao vírus e limitar a sua difusão”, justificou. “Também é preciso ter coração”.

O que faz um bom candidato?

Baez descobriu este emprego através da organização Partners in Health, que ajudou as autoridades de Massachusetts a recrutar e treinar mais de 1.700 pessoas. O que representa apenas uma fração das mais de 41 mil que se candidataram através da organização.

John Welch, diretor de operações da Partners in Health, ficou impressionado com a diversidade de pessoas que queriam ajudar. Entre elas enfermeiros aposentados, funcionários públicos de licença e ex-trabalhadores da área hoteleira. “Se sua capacidade de lidar com o computador é escassa, nós ajudamos a incrementá-la”, ele disse. “Mas o que realmente importa no meio de uma pandemia é a empatia”.

A CONTRACE Public Health Corps, uma organização que ajuda os departamentos de saúde em todos os EUA a recrutar este tipo de monitores, recebeu mais de  50 mil solicitações de candidatos nas últimas semanas, na maior parte mulheres, segundo Steve Waters, o diretor executivo.

Embora nem sempre seja exigido um diploma universitário, Waters afirmou que os melhores candidatos têm grau de bacharel e alguma formação na área de serviços de saúde.

Também é importante a diversidade. “Certa formação cultural é fundamental para inspirar confiança no rastreamento de pacientes, particularmente nas comunidades das minorias ou nas mais carentes, que estão entre as mais atingidas”, afirmou Waters. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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