REUTERS/Jim Gathany/CDC/via Reuters
REUTERS/Jim Gathany/CDC/via Reuters

Entenda o que é a malária, quais os sintomas e como é o tratamento

A atriz Camila Pitanga e a filha testaram positivo para a doença após sentirem febre e calafrios constantes; as duas estavam em isolamento social em área da Mata Atlântica no litoral paulista

Diego Kerber, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2020 | 15h09

Na última segunda-feira, a atriz Camila Pitanga informou aos seguidores nas redes sociais que ela e a filha testaram positivo para malária. Por conta da pandemia do novo coronavírus, a atriz estava isolada em uma área da Mata Atlântica no litoral de São Paulo e, depois de apresentar sintomas como febre e calafrios e testar negativo para covid-19, ela e a filha confirmaram a infecção no Hospital das Clínicas da USP.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Foram 10 dias de muito sufoco. Entre picos de febre alta, calafrios e total incerteza. Havia a sombra da possibilidade de estar com covid-19. Somente no domingo recebi o resultado negativo do meu PCR. Mas no lugar de me aliviar, permanecia a agonia pois eu não fazia ideia do que eu poderia ter. Estava à deriva. Pois bem, uma amiga minha suspeitou que esses picos de febre associados ao fato de estar em isolamento social numa zona de Mata Atlântica no litoral de SP, podia ser malária. Fui indicada a conversar com dois infectologistas. Os dois extremamente generosos em falar comigo num domingo já de noite. Dr Luiz Fernando Aranha e o Dr André Machado. Agradeço ao último pelas orientações que me levaram ao Hospital das Clínicas da USP. Uma vez que a supeita era malária, doença muito rara, não há melhor lugar para você ser tratado do que a rede SUS, local de referência e excelência para doenças endêmicas. No HC, fui prontamente atendida por uma mulherada. Sim, uma equipe 100% de mulheres fantásticas do laboratório da Sucen. Faço questão de dar seus nomes: Drª Ana Marli Sartori, Drª Silvia Maria di Santi, Drª Dida costa, Drª Simone Gregorio, Drª Renata oliveira e tão importantes quanto, as agentes de saúde Cida Kikuchi e Gildete Santos. Todas foram extremamente profissionais, eficientes e gentis. Bom, os resultados dos exames sairam dando positivo para malária. Eu e minha filha. Uma doença que ainda existe, é curável, mas precisa de cuidados. O tratamento é gratuito. Faço cá meus votos de gratidão a todas e todos agentes de saúde, que além de estarem na trincheira nessa luta contra a covid-19, estão aí atendendo inúmeras outras demandas com seu profissionalismo em meio a condições e incertezas muito grandes. É de suma importância valorizar a existência desse sistema de saúde que cuida de tanta gente, principalmente dos que não tem condições de pagar um plano de saúde. Estamos num país onde uma doença matou mais de 100 mil pessoas em poucos meses. Esse número poderia ser o triplo ou mais se não fosse o SUS. A catástrofe seria ainda maior. Muito obrigada e parabéns a todas e todos os profissionais de saúde desse país!!!

Uma publicação compartilhada por Camila Pitanga (@caiapitanga) em

A publicação da atriz nas redes sociais gerou dúvidas sobre a doença, que é endêmica no Brasil em todos os Estados da Amazônia Legal, mas é incomum nas regiões mais ao sul do País. Apesar de ser conhecida e ter tratamento, essa é uma doença que, em suas formas mais graves, pode levar à morte e não tem vacina para prevenção.

Por isso, veja abaixo as principais informações sobre a doença, como identificá-la, qual é o tratamento e como se proteger.

O que é a malária?

Segundo informações do Ministério da Saúde, a malária é uma “doença infecciosa febril aguda”, ou seja, é uma doença causada por um protozoário que gera quadros de febre bastante intensos. São quatro espécies de protozoários que podem causar malária, todas do gênero Plasmodium: o Plasmodium vivax, P. falciparum, P. malariae e P. ovale, mas, no Brasil os mais predominantes são o P. vivax e o P. falciparum.

“O quadro grave da malária geralmente é conferido por um tipo do Plasmodium. O que tem potencial de letalidade é o P. falciparum, que felizmente não é a maioria. Aqui no Brasil, na região Amazônica, nós temos mais o P. vivax, com 85% dos casos”, explica o infectologista especializado em Medicina do Viajante Gustavo Henrique Johanson, da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

Quais são os sintomas da malária?

Em sua fase mais leve, a malária apresenta sinais como:

  • febre alta
  • calafrios
  • tremores
  • suor intenso
  • dores de cabeça

Esses sintomas podem ser precedidos de náuseas, vômitos, cansaço constante e falta de apetite. Johanson alerta que, mesmo que você tenha apenas esses sintomas leves, você precisa ir direto a um pronto-atendimento se estiver ou tiver passado por uma região endêmica da doença. “Estando nessa área e tendo um episódio de febre, obrigatoriamente a pessoa tem que procurar assistência médica, seja leve ou grave.”

No Brasil, as áreas endêmicas são todos os Estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, assim como a região oeste do Maranhão, a noroeste de Tocantins e a norte do Estado de Mato Grosso). Na região Sudeste, podem acontecer casos de malária natural em áreas de Mata Atlântica e, mais ao sul, no Vale do Rio Paraná.

Em casos mais graves de malária, o paciente pode sentir:

  • fraqueza
  • alteração de consciência
  • hiperventilação
  • convulsões
  • queda de pressão ou até choque
  • hemorragias em casos ainda mais graves

A evolução mais grave da doença tem maiores de chances de acontecer em pessoas infectadas pela primeira vez, crianças e gestantes, principalmente se for causada pelo P. falciparum.

Como acontece a transmissão da malária?

Diferente de viroses, como a gripe, que podem ser transmitidas pela saliva, pelo espirro ou tosse, a malária só pode ser transmitida se uma pessoa entrar em contato com o sangue de alguém contaminado. Na natureza, isso só é possível se a pessoa for picada por mosquitos do gênero Anopheles, também conhecidos como anofelinos.

“A única possibilidade de transmissão entre humanos é por meio da doação de sangue contaminado. Fora isso, saliva, suor, contato sexual, beijo, abraço, respiração… nada disso passa a malária. É obrigatório ter o vetor, que é o mosquito”, explica o infectologista do Albert Einstein. Transplante de órgãos e compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis são outras possibilidades de transmissão entre humanos, todas relacionadas ao contato com o sangue contaminado.

O período de incubação da doença, ou seja, o tempo entre a picada do mosquito e a manifestação dos sintomas, geralmente varia de 8 a 30 dias, mas pode ser maior dependendo da espécie do parasita, da força do sistema imunológico da pessoa e da quantidade de parasitas que entraram no corpo.

Existe vacina contra a malária?

“Existem vacinas experimentais, mas não há nenhuma de uso populacional” afirma Johanson. Segundo ele, a única forma de ter alguma imunidade contra a malária é se a pessoa contrair a doença e for curada. No entanto, essa proteção ainda não é totalmente garantida.

“A infecção confere uma imunidade parcial, não total. Ela dura apenas por algum tempo, geralmente no máximo por seis meses. Após seis meses da infecção, a pessoa contaminada perde completamente a imunidade, ela volta ao patamar zero. Ela volta a ser totalmente suscetível.”

A única forma de se proteger dessa doença é evitando a picada do mosquito anofelino. Para quem mora em regiões endêmicas, as autoridades recomendam o uso de calças e camisas de mangas longas e completar a proteção individual com repelentes nas partes expostas do corpo. Em casa, o ideal é utilizar cortinados e mosquiteiros sobre a cama e telas contra insetos em janelas e portas. Também é importante evitar lugares próximos a criadouros naturais de mosquitos, como rios ou áreas alagadas, principalmente entre o final da tarde e o amanhecer.

Para quem vai viajar para uma região endêmica da malária causada pelo P. falciparum, ainda existe a chamada quimioprofilaxia. “Existem algumas drogas que podem ou não ser recomendadas para viajantes, para pessoas que vão se deslocar para uma área endêmica”, aponta o médico.

Essa prevenção não impede que o protozoário entre no corpo, mas evita que a pessoa desenvolva os sintomas graves da doença, já que não permite que o parasita ataque as células do sangue da pessoa contaminada. É essencial que os remédios sejam consumidos exatamente da forma indicada pelo profissional responsável para garantir eficácia e evitar problemas futuros.

Qual é o tratamento para a malária?

Os tratamentos da malária vão depender de qual espécie do parasita foi a causadora da doença, não a gravidade dos sintomas, como explica Johanson. “Existe um tipo de tratamento para malária causada pelo P. vivax e outro tratamento para quem tem o P. falciparum. Para malária causada pelo P. vivax, por exemplo, a cloroquina é excelente e é indicada há décadas, mas para o P. falciparum existem outros medicamentos. Por isso é preciso fazer o diagnóstico específico para saber qual é o tipo de parasita.”

O infectologista afirma que a diferença dos tratamentos com sintomas graves ou leves é como o medicamento será consumido. No caso de sintomas leves, a pessoa pode tomar comprimidos do remédio, enquanto que pacientes mais graves podem não conseguir engolir, o que exige uso da forma injetável.

Febre amarela e malária são a mesma coisa?

Não, são doenças diferentes, apesar de terem algumas semelhanças. Ambas são consideradas doenças infecciosas febris agudas e são transmitidas por mosquitos, além de serem endêmicas na região amazônica. Embora grande parte dos sintomas sejam parecidos, a febre amarela também é caracterizada dores no corpo inteiro e, em casos mais graves, pele amarelada, que dá nome à doença.

O agente causador dessa infecção também é diferente, no caso um vírus. Outra diferença é o agente transmissor, já que a malária é transmitida por mosquitos do gênero Anopheles, enquanto o mosquito responsável por transmitir a febre amarela é o Aedes aegypti, mesmo transmissor da dengue.

Além disso, a febre amarela tem vacina preventiva de dose única, que pode ser tomada no Sistema Único de Saúde (SUS), e o tratamento é apenas sintomático, ou seja, o foco é diminuir os sintomas da doença e repor líquidos e eventuais perdas sanguíneas. Na pior das hipóteses, o paciente é internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para reduzir complicações e o risco de morte.

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