Annie Spratt/Unsplash.com
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Entender é importante

A descoberta do autismo gera curiosidade; quanto mais cedo for dado o laudo, mais dificuldades podem ser evitadas

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2021 | 03h00

A descoberta do autismo, em geral, gera curiosidade... “como assim você descobriu que era autista? Você desconfiava?” No meu caso, envolveu terapia, psiquiatra, falta de compreensão de tipos de humor, algumas desilusões. Já fingi entender, aprendi (algumas) horas que deveria rir, busquei manuais que me dessem respostas sobre o que parecia ser óbvio para todos, menos para mim. Ser diagnosticada gerou alívio, e a certeza de que há tipos de sofrimento poderiam ter sido minimizados, ou evitados, ao longo da vida. 

O aumento de diagnósticos de TEA, de dois a quatro casos a cada 10 mil crianças em 1980 para uma a cada 68 crianças em 2014, está ligado a alguns fatores, e talvez o principal seja a mudança nos critérios de análise, em 2013, na publicação do DSM-V, manual diagnóstico da sociedade psiquiatria estadunidense, que refletirá na publicação, em 2022, do CID 11, documento de Classificação Internacional das Doenças, da OMS. 

Mães e pais que suspeitavam das “esquisitices” de seus filhos, e que se deparavam com médicos sem repertório para isso, hoje encontram um corpo clínico mais preparado. Pesquisadores estudam o que pode favorecer essa constituição psíquica e o aumento do número de diagnósticos: do uso da tecnologia na primeira infância à contribuição de fatores ambientais, à forma como o diagnóstico é praticado na rede pública, são algumas das linhas desenvolvidas pela ciência. 

Preparada para ver o personagem de Dustin Hoffman em Rain Man, a sociedade se surpreende com a operacionalidade de determinadas pessoas no espectro. Introvertendo, um podcast onde autistas conversam, trouxe o tema do autismo na infância sem diagnóstico, e a sensação comum de que quanto mais cedo se sabe, melhor as famílias reconhecem e não subestimam certas dificuldades das crianças, que podem apresentar notas ótimas no boletim, ainda que só conversem com adultos na escola, e tenham dificuldade extrema de amarrar os próprios sapatos. 

Fui dividir com Tiago Abreu, um dos criadores do podcast, diagnosticado aos 19 anos, em 2015, minhas dúvidas sobre o assunto. Ele contou que a discussão sobre autismo ganhou projeção no Brasil a partir de 2013, com grupos de Facebook. Alguns usavam o termo “Aspie”, um apelido para classificar quem estava na Síndrome de Asperger, que batizou um grupo de humor, “Aspies R Us”, com documentário na Netflix e HBO. A mudança na designação clínica influenciou também a abordagem do assunto pelo entretenimento, e com isso mais gente teve contato com particularidades que não eram só suas. Atypical, The Good Doctor, Amor no Espectro e até a novela adolescente Malhação, trouxeram personagens com TEA, difundindo a ideia de atipicidade e neurodivergência, conceitos acadêmicos do fim dos anos 90. 

Hoje youtubers, blogueiros e tik tokers, além de médicos, mães e pais, abordam o assunto, fazendo com que mais gente se reconheça, e parta em busca de um diagnóstico. “As vezes a pessoa precisa de uma percepção externa sobre o autismo, para saber aquilo que se encaixa e aquilo que não se encaixa no espectro” disse Tiago, que antes de chegar à internet e ao podcast, frequentou uma associação de pais e autistas que havia em sua cidade, e ali pôde conhecer melhor a realidade diversa de famílias e autistas adultos. 

Ainda que se fale de um único diagnóstico, os modos de vida são totalmente diferentes, devido também ao nível de suporte necessitado. O DSM-V indica nível 1 (levíssimo/leve), nível 2 (moderado) e nível 3 (severo), e grupos que consideram a questão do capacitismo debatem que o ideal seria colocar alguém como eu, por exemplo, como uma pessoa nível 1 de suporte. Ou seja, alguém que necessita de um suporte mínimo nas atividades do dia a dia, ao invés de me categorizar como alguém com “autismo leve”.

Além do suporte, o TEA exige um esforço contínuo de compreensão do que é sua visão como indivíduo, e o que é filtrado pela lente da neuro atipicidade. Ao ouvir Tiago ser diagnosticado aos 19, pensei: “que novo!” Durante nossa conversa, entendi que foi tarde pra ele, assim como foi tarde para mim a descoberta aos 38 anos, assim como deve ter sido para o ator Anthony Hopkins, que só descobriu a sua na entrada da terceira idade, e que até então era tido como “esquisito”, ainda que muito funcional. 

Se o diagnóstico é composto por várias ordens, como dizem os psicanalistas, quanto mais cedo o laudo, mais perrengues podem ser evitados, para o autista e para aqueles que vivem ao seu redor. 

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