MICHAEL DANTAS / AFP
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Estudo estima pelo menos 4,2 milhões já contaminados com coronavírus no Brasil

Epidemia é exponencial e Brasil precisa de mais medidas de controle, alerta estudo do Imperial College feito por brasileiros e ingleses; eles estimam que isolamento reduziu taxa de reprodução do coronavírus, mas ainda está ativa e crescente

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2020 | 12h37
Atualizado 22 de julho de 2020 | 09h37

Cerca de 3,3% da população do Estado de São Paulo, 3,35% do Rio e 10,6% da população do Amazonas já devem ter se infectado com o novo coronavírus, aponta uma estimativa divulgada nesta sexta-feira, 8, pelo Grupo de Resposta a Covid-19 do Imperial College de Londres. Para São Paulo, isso representa cerca de 1,5 milhão de pessoas. No Rio, 582 mil pessoas. No Amazonas, são cerca de 448 mil contaminados.

A estimativa, feita para 16 Estados com mais casos até o momento, é de que cerca de 4,2 milhões de pessoas já foram contaminadas (com margem de erro entre 3,48 milhões e 4,7 milhões). O dado ajuda a dar uma ideia do quanto a doença ainda é subdimensionada no País. "Isso inclui uma parcela significativa de pessoas que nunca desenvolvem sintoma algum, mas contribuem para a propagação da  infecção", explicou ao Estado o estatístico brasileiro Henrique Hoeltgebaum, um dos principais autores do trabalho.

"Como sabemos que no Brasil praticamente somente os casos graves são testados, era esperado que o número de infectados superasse bastante o número de casos confirmados. Em nosso estudo, avaliamos diferentes cenários sob diferentes níveis de subnotificação", disse.

O estudo, elaborado por pesquisadores ingleses e brasileiros, avaliou especificamente a situação do País em relação à taxa de transmissão da doença. Eles partem do número oficial de mortes para, em retrospectiva, estimar a parcela da população infectada.

Segundo Hoeltgebaum, o modelo leva em consideração características epidemiológicas da covid-19 para relacionar mortes com a infecção.  "Isso nos permite estimar a transmissão que ocorreu várias semanas antes, usando o intervalo de tempo entre a infecção e as mortes. Mas vale mencionar que pode haver algumas mortes que, por qualquer motivo, não sejam registradas oficialmente, assim como ocorreu no Reino Unido", disse.

Os pesquisadores afirmam que intervenções de isolamento social foram capazes de derrubar em 54% o número de reprodução do coronavírus (para quantas pessoas uma contaminada é capaz de transmitir), mas a epidemia ainda está ativa e crescendo. Veja o estudo, em inglês.

“Apesar de medidas tomadas até agora terem reduzido o número de reprodução, os dados sugerem que a epidemia continua em aumento exponencial em todos os 16 Estados brasileiros analisados”, afirmou o médico Ricardo Schnekenberg, doutorando da Universidade de Oxford, que também assina a análise.   

Segundo os autores, o número de reprodução mais alto hoje é observado no Pará, de 1,90. No Estado, os pesquisadores estimam que 5,05% da população já foi infectada (ou 439 mil pessoas). Belém iniciou nesta quinta-feira um regime de lockdown. Em São Paulo, onde políticas de isolamento foram adotadas em 24 de março, a taxa de reprodução é de 1,47.

“Condicional aos dados de mobilidade observados até o momento no Brasil, o número de reprodução do vírus SARS-CoV-2 é expressivo e concluímos que a transmissão ainda não está sob controle. Se esse padrão for mantido, é esperado um colapso no sistema de saúde de alguns estados”, complementa Hoeltgebaum.

A taxa está acima de 1 em todos esses Estados, o que indica que a epidemia ainda não está controlada – a curva só começa a decrescer quando esse número é menor que 1. O trabalho lembra que a distribuição da doença é altamente heterogênea no País, com cinco Estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Amazonas) sendo responsáveis por 81% das mortes reportadas no Brasil. Até esta quinta, de acordo com o Ministério da Saúde, 9.146 pessoas já haviam morrido em decorrência da covid-19. A doença já foi diagnosticada em mais de 135 mil pessoas.

“Essas tendências estão em forte contraste com outras grandes epidemias de covid-19 na Europa e na Ásia, onde bloqueios forçados levaram com sucesso o número de reprodução para abaixo de 1. Embora a epidemia brasileira ainda seja relativamente incipiente em escala nacional, nossos resultados sugerem que ações adicionais são necessárias para limitar a propagação e impedir a sobrecarga do sistema de saúde”, escrevem os autores.

O Imperial College é um dos institutos de pesquisa mais conceituados do mundo em modelagem matemática e vem publicando projeções desde que a epidemia chegou à Europa. Foi por conta dos números apresentados pela instituição que o primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson, se convenceu de que o isolamento social era a única medida possível para evitar um número catastrófico de mortes no país.

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