Equipe de missão simulada a Marte 'volta à Terra' nesta sexta-feira

Os seis tripulantes do experimento Mars500 saíram do módulo após 520 dias de isolamento

estadão.com.br com agências internacionais,

04 de novembro de 2011 | 09h05

SÃO PAULO - A tripulação do experimento inédito que simula uma missão de 520 dias a Marte abriu a escotilha e "voltou à Terra" nesta sexta-feira, 4. Os seis voluntários - três russos (dois médicos e um engenheiro), um astronauta chinês e dois engenheiros da Agência Espacial Europeia (ESA), um francês e um italiano -, estão fechados desde 3 de junho do ano passado no módulo de 160 metros quadrados, localizado nos arredores de Moscou. 

 

 

A escotilha foi aberta exatamente às 14h de Moscou (8h de Brasília), e os seis voluntários saíram do simulador de nave interplanetária montado na sede do Instituto de Problemas Biomédicos de Moscou (IPBM). Um por um, os "terranautas" deixaram o simulador - sorridentes, como se pôde perceber nas imagens disponibilizadas pela imprensa russa - e foram recebidos por autoridades, familiares e amigos, com os quais só poderão voltar para casa após três dias de quarentena, na qual serão submetidos a exaustivos exames médicos.

 

 

Os voluntários - os russos Alexei Sitev (engenheiro), Aleksandr Smoleevski (médico) e Sukhrob Kamolov (cirurgião), o ítalo-colombiano Diego Urbina (engenheiro), o francês Romain Charles (engenheiro) e o chinês Wang Yue (instrutor de astronautas) - concederão uma entrevista coletiva na próxima terça-feira.

 

"O projeto Marte-500 foi um sucesso, embora apenas pelo fato de que nenhum dos membros da tripulação internacional desistiu da experiência", declarou Aleksandr Suvorov, chefe executivo da missão, à agência estatal russa RIA Novosti. Suvorov explicou que a simulação demonstrou que "o ser humano pode suportar uma viagem a Marte de ida e volta", embora devido à quantidade de recursos que seriam necessários, incluindo alimentos, a tripulação de uma viagem real seria composta por quatro "astronautas", e não seis.

 

O objetivo da missão experimental Mars500, que custou US$ 15 milhões, era estudar quais seriam os efeitos, para o organismo humano, de uma viagem ao planeta vermelho. A pergunta é: será que as pessoas poderiam suportar o estresse de uma viagem de mais de seis meses para Marte? Para tentar descobrir a resposta, os tripulantes saem da cápsula e vão direto para uma bateria de exames médicos específicos. 

 

 

O fim da experiência foi aproveitado pelo subdiretor da agência espacial russa Roscosmos, Vitali Davydov, para reiterar que a Rússia tem planos de enviar um voo tripulado a Marte por volta de 2030. "Marte está em nossos planos. Será para meados de 2030. Muitos dos que estão aqui hoje viverão para vê-lo", disse Davydov em entrevista coletiva.

 

O chefe do programa de voos tripulados da Roscosmos, Alexei Krasnov, informou por sua vez que a agência planeja repetir a experiência Marte500, mas no espaço. "Quando isso ocorrerá? Acho que não antes de dois anos", disse Krasnov.

 

A equipe simulou uma caminhada pela superfície do planeta vermelho em fevereiro deste ano, após 257 dias de viagem. Na ocasião, eles saíram da nave em pesados trajes espaciais e se dirigiram a uma sala coberta de areia onde colocaram bandeiras para marcar a chegada. 

 

 

 

Os participantes do projeto realizaram mais de cem experiências "no espaço", tiveram que consertar danos na "nave" e fizeram até caminhadas simuladas no planeta vermelho. "A ida à superfície de 'Marte' nos deu muitas informações. Os especialistas controlavam permanentemente o estado físico e moral dos voluntários", disse Suvorov.

 

Segundo ele, o batimento cardíaco por minuto de alguns "terranautas" chegou a 160, mais os 152 registrados em Yuri Gagarin durante seu histórico voo espacial. Com reserva de várias toneladas de água e comida, os "terranautas" viveram em cinco módulos espaciais de 180 metros quadrados sem janelas e com a mesma composição de ar, pressão e nível de ruídos que em uma nave interplanetária, ou seja, em condições similares às de um voo espacial real.

 

Os seis voluntários não estavam expostos à microgravidade (ausência de peso) ou radiação solar, mas viveram como se estivessem realmente em um voo espacial. Eles consomiram rações alimentares especiais e tomam banho de chuveiro a cada dez dias. A equipe também enfrentava comunicação com o mundo exterior, que funciona com atraso de 20 minutos, e ocasionais falta de energia e falhas de improviso. Tudo serve de teste para ver como eles lidam com os problemas.

 

O módulo de habitação tinha uma pequena cozinha com mesa-refeitório e quartos de seis metros quadrados para os tripulantes, com cama, mesa e armário, vaso sanitário e uma ducha - esta só podia ser usada uma vez a cada dez dias.

 

Segundo os organizadores do projeto, o momento mais difícil foi o retorno simulado à Terra, já que nesse momento a missão já tinha sido um sucesso, mas os voluntários precisavam continuar a realizar experiências científicas por vários meses. A missão servirá para comprovar a compatibilidade psicológica entre os integrantes de uma tripulação e permitirá o aperfeiçoamento da construção das naves espaciais que viajarão a Marte.

 

Vídeos colocados no blog do projeto mostram os rapazes comendo uma espécie de mingau congelado, cheios de eletrodos durante a hora da ginástica e do cochilo, e jogando Wii ou brincando de karaokê para espantar o tédio.

 

Autoridades espaciais dizem que a tecnologia espacial existente ainda está a décadas de distância de ser capaz de levar astronautas ao planeta vermelho. No entanto, a Nasa já anunciou orçamento de 10 milhões de dólares para construir um foguete espacial gigante que deverá seguir para além da órbita baixa da Terra a partir de 2017.

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