María Madem/NYT
María Madem/NYT

Era uma vez…em que as histórias de ninar eram só para crianças

Para ajudar a dormir depois de um dia estressante, aplicativos oferecem contos voltados a adultos com personagens simples, pouca ação e vozes de celebridades

Hillary Richard, The New York Times

08 de janeiro de 2022 | 05h00

Por volta das 22h, Lindsay Colford se acomoda na cama com a fala arrastada e suave de Matthew McConaughey, que está prestes a levá-la a uma viagem sonora pelo cosmos até que ela adormeça. Algumas noites, o som de Harry Styles recitando delicadamente um poema ecoa nas paredes.  Colford, 39, uma assistente executiva de New Jersey, não está sozinha. Milhares de outros adultos estão dormindo com contadores de histórias, famosos ou não. Em nossa busca sem fim para ter uma boa noite de sono, as histórias de ninar são a arma mais recente do arsenal.

Não mais apenas para crianças, as histórias de ninar são uma parte fundamental de muitos aplicativos de mindfulness (atenção plena) e meditação, que cresceram em popularidade na pandemia. E não para por aí. A internet está repleta de histórias de ninar para adultos, e existem muitos podcasts personalizados, como o Get Sleepy e Sleep With Me. Há uma razão pela qual os adultos são atraídos por esses contos, e isso vai além de caprichos e nostalgia.

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Uma história de ninar afasta a mente de pensamentos e preocupações autossabotadores, o que permite que a adrenalina do corpo diminua para que o cérebro possa fazer a transição para o estado de sono
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Christine Won, professora de Yale

“Uma história de ninar afasta a mente de pensamentos e preocupações autossabotadores, o que permite que a adrenalina do corpo diminua para que o cérebro possa fazer a transição para o estado de sono”, disse a médica Christine Won, professora associada de medicina em Yale e diretora médica do Centro de Medicina do Sono de Yale. “Uma história, mais do que música ou ruídos de fundo, tem mais probabilidade de afastar a atenção da mente teimosa do que quer que esteja causando angústia emocional”, diz. “Histórias de ninar me ajudam a desligar”, atesta Colford, que escolhe contos no aplicativo Calm com base na voz do narrador e em um senso de familiaridade.

Histórias de viagens são populares

Paul Barrett, um consultor de 59 anos de Denver, começou a ouvir histórias de ninar no início da pandemia. Como um viajante de negócios frequente, ele usou o app Breethe para ajudá-lo a relaxar em diferentes fusos horários. “Depois de ficar sem viajar por tanto tempo, tenho ouvido histórias relacionadas a destinos.”

Em geral, as histórias de viagens tendem a ser as mais populares – especialmente as de trem. Seus detalhes descritivos, senso de lugar, existência no momento presente e os componentes educacionais ocasionais ajudam muitos ouvintes. 

O aplicativo Calm tem mais de 200 opções (chamadas de Sleep Stories), que foram ouvidas mais de 450 milhões de vezes, segundo a empresa. O Breethe tem mais de 100 histórias em seu catálogo, e traz uma nova por semana. No Hatch, um sistema de sono personalizado com um aplicativo, as histórias de ninar estão começando a superar seu conteúdo típico de sono, como meditações guiadas e paisagens sonoras. 

Mas as histórias funcionam?

Isso não significa que elas funcionem para todos. “Descobri que ouvir histórias de ninar me distraía em vez de me acalmar”, disse Marian Alaya, 39, de Long Valley, Nova Jersey. Ela prefere o ruído branco ou meditações guiadas.

Já a radioterapeuta Kelly Goldman, da Califórnia, notou que durante seu ritual noturno de contar histórias de ninar para seu filho ela também ficava cansada. “O início da pandemia foi uma época muito estressante para mim no trabalho”, disse. Ela encontrou um pouco de paz por meio de histórias tranquilas com uma linguagem floreada, “onde não acontece realmente nada”. “Elas são aconchegantes.”

Esses aplicativos e podcasts oferecem uma grande variedade de opções. Há histórias sussurradas para os amantes da resposta sensorial autônoma do meridiano; releituras dos clássicos; histórias de viagens; histórias originais centradas em um tema, como férias; toda uma categoria chamada “enfadonha”, com recitações mundanas de coisas como a arte de fazer pão; poemas líricos; e histórias recitadas por celebridades.

Para os iniciantes, a história deve ser envolvente, mas não muito estimulante. Em A Very Proper Tea Party (algo como Um Chá da Tarde Muito Adequado) no Calm, o auge da ação é um gato cochilando em um jardim inglês após o chá da tarde. Os personagens não podem ser muito complexos. Deve haver detalhes (geralmente muito descritivos) que envolvam o ouvinte na cena e evitem que a mente divague. A duração ideal é de 15 a 30 minutos. Além disso, há a música ambiente.

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Todos nós podemos nos beneficiar com a aplicação das técnicas que usamos com as crianãs
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Rebecca Robbins, instrutora da Faculdade de Medicina de Harvard

Então, é claro, há a voz. Cadência, tom e energia são importantes. Os ouvintes gostam de repetir histórias de ninar, então deve haver uma conexão e um elemento de confiança, que pode ser difícil de quantificar. É por isso que muitos dos clássicos se saem tão bem. Quando o Breethe trouxe uma nova versão de Cinderela, ela se tornou sua faixa mais ouvida em outubro. A Hatch também priorizou a nostalgia encomendando títulos como Peter Pan.

Rebecca Robbins, cientista associada da Divisão de Sono e Distúrbios Circadianos do Brigham & Women’s Hospital e instrutora da Faculdade de Medicina de Harvard, disse que histórias de ninar para adultos fazem todo o sentido. “É fácil pensar que nós, como adultos, somos de alguma forma imunes ou maduros demais para esses hábitos. Mas a verdade é que todos nós podemos nos beneficiar com a aplicação das técnicas que usamos com as crianças.”

 TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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