REUTERS/Daniele Mascolo
REUTERS/Daniele Mascolo

'Erro da Itália foi subestimar a doença', diz bióloga brasileira que vive em Milão

Rafaela da Rosa Ribeiro vê risco de o Brasil virar uma nova Itália se as pessoas não tomarem consciência de que o problema é grave

Entrevista com

Rafaela da Rosa Ribeiro, bióloga e pesquisadora do coronavírus

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 12h00

A bióloga brasileira Rafaela da Rosa Ribeiro, estudiosa do zika vírus, foi parar no olho do furacão do novo coronavírus. Faz quase um ano que ela trabalha no Departamento de Doenças Infecciosas e Neurociência do Ospedalle San Rafaelle, hospital que fica em Milão, Itália, um dos países mais afetados pela epidemia. Lá toca um projeto de pós-doutorado que desenvolve no Instituto Israelita Albert Einstein. No hospital italiano,  Rafaela encontrou uma das maiores especialistas em coronavírus, a pesquisadora Elisa Vicenzi, que a convidou para participar da equipe que vai testar fármacos para combater o causador da doença covid-19.  

Quando saiu há quase um ano do Brasil, como bolsista da Fapesp, rumo à Itália, a bióloga não imaginava que teria essa oportunidade profissional. Mas, do ponto de vista pessoal, Rafaela está assustada com o que enfrenta na rotina do país. Fica praticamente em casa, sai apenas para ir ao mercado, à farmácia e para fazer experimentos no laboratório das pesquisas que desenvolve. Apesar dos problemas por conta do isolamento imposto pela epidemia, Rafaela acredita que essa é a saída, neste momento, para conter o contágio do vírus. “O erro da Itália foi subestimar a doença”, diz a pesquisadora. Ela vê risco de o Brasil virar uma nova Itália se as pessoas não tomarem consciência de que o problema é grave. A seguir, principais trechos da entrevista ao Estado, concedida por telefone.

Como a sra. foi parar na Itália?

Vim para cá em junho de 2019 para tocar o projeto de pesquisa que desenvolvo no Albert Einstein sobre vírus zica. Fiz uma colaboração com a doutora Elisa Vicenzi, que é especialista em coronavírus, influenza e zica. Ocorre que acabei dentro de um laboratório que é especializado em coronavírus na Itália. Não tive como deixar essa oportunidade passar. Entrei para esse grupo de pesquisa e para mim foi maravilhoso.

Qual é a pesquisa sobre o novo coronavírus da qual a sra. participa?

Estou trabalhando junto com os pesquisadores italianos em dois projetos. Um deles é estudar como esse vírus infecta algumas células de morcego. Os morcegos são a principal fonte da família de coronavírus da natureza. Eles são um reservatório. Esses animais têm o vírus e não ficam doentes. Tentamos entender o que eles têm para que o vírus não os infecte. Isso poderá levar a uma possibilidade de tratamento. O outro projeto estuda as células do sistema imunológico dos pacientes, como essas células são infectadas. Estamos ainda no começo das pesquisas.

Como é o seu dia a dia?

Estamos trabalhando em condições terríveis para fazer a pesquisa. Alunos não podem ir para a universidade. Tenho que ir para o laboratório para fazer os ensaios. Mas, para eu poder sair de casa, preciso carregar um documento que diga que eu estou envolvida em projeto do corona. Isso porque, se me pararem,  tenho como justificar por que estou andando na rua. Moro em Milão e tenho que pegar um metrô até a Universidade Hospedale San Rafaele. Só vou para o hospital nos dias em que eu tenho experimento no laboratório, que são poucos. O resto da semana estou praticamente em casa. Esta semana fiquei cinco dias em casa direto, só saindo na minha varanda. Só saio para ir ao mercado e para fazer a pesquisa, quando preciso.

Como está Milão?

Do comércio, só funciona farmácia, mercado e uma ou outra padaria. Não tem restaurante aberto. No mercado estamos entrando em cinco pessoas por vez e fazemos fila mantendo distância uns dos outros. A situação da Itália é realmente muito triste. O índice de letalidade do coronavírus está em 7,3%, bem acima da média da China e também da média global.

Qual é a lição que fica da Itália?

Como cientista,  digo que as pessoas que possam fazer home office, que parem. Reduzir o convívio social para diminuir o risco de contaminação deve ser uma atitude coletiva. Não ir a shopping, a academia. Sabemos de todo o impacto econômico e social disso.

Onde a Itália errou?

A Itália foi fazendo os bloqueios gradativamente. Fechou umas cidades, mas deixou outras pessoas circularem, recomendando lavar as mãos, manter a distância. Isso foi muito gradativo. A Itália não abraçou o problema no começo, foi deixando as coisas acontecerem até que a situação se agravou. Diferentemente da Coreia do Sul, que fez o bloqueio antecipadamente. Assim que tinha um caso diagnosticado, era bloqueada a entrada e saída de pessoas e a circulação na região. Lá as pessoas entenderam a mensagem, permaneceram em casa e a quantidade de casos na Coreia do Sul hoje é baixíssima comparada à da Itália e à da Espanha. O erro da Itália foi não ter a idéia da dimensão que isso poderia tomar, ela subestimou a doença

Qual é a lição que a Itália deixa?

As pessoas reduzam as atividades e a circulação em lugares públicos, que façam já e não esperem que isso ocorra por meio de um decreto, para que o Brasil não chegue na situação da Itália, que teve de parar tudo. A lição da Itália é que as atitudes nossas individualmente são muito mais importantes do que esperar alguma ação do governo. Outro erro da Itália é que ela demorou para reconhecer que estava existindo uma transmissão comunitária, quando o vírus não vem já do país onde começou o surto, mas está se espalhando dentro do próprio país. Por todo histórico de pandemia do coronavírus, na minha opinião, o governo deveria restringir a circulação de pessoas, as instituições principalmente. São Paulo já deveria estar bloqueada.

O Brasil corre o risco de virar uma Itália?

Eu acho que sim. Além do mais, temos outros problemas seríssimos, como a dengue, e agora a gripe também. É muito importante se vacinar para que as epidemias não se misturem, porque isso vai sobrecarregar o sistema de saúde. A quantidade de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva), o grande número de pessoas que dependem do SUS (Sistema Único de Saúde). Acho que, com tudo isso, tem risco de o Brasil virar uma Itália.

Mesmo com uma população mais jovem?

A mortalidade entre os mais jovens é menor, mas existe. Entre 40 e 49 anos, a mortalidade é 0,4%. Acima de 60 anos, 3,6%, e entre 70 e 79 anos, é de 8%. Se houver outras doenças associadas, o risco aumenta. A faixa de risco é bastante grande.

Qual é a situação dos hospitais na Itália?

Não está fácil. Talvez no Brasil a gente esteja mais acostumado a enfrentar catástrofes: enchente, dengue. Mas aqui, não. Os médicos estão trabalhando à exaustão. Num primeiro momento, a Itália dispensou os residentes por causa do risco de contaminação. Mas agora já recrutaram todos os residentes. Existem muito médicos infectados que não podem trabalhar. Não há leitos nos hospitais, e o que os médicos declaram em vídeos é que estão tendo de fazer escolhas: quem tem mais chance de sobreviver vai para a UTI, e quem tem menos fica no oxigênio e recebe cuidados paliativos.

Qual é o protocolo adotado?

Como paciente, a recomendação é não ir ao hospital, a não ser que você esteja com sintomas mais severos, como falta de ar e febre alta. Se você tiver sintomas brandos, a recomendação é ficar em casa e não fazer teste. Só fazem teste para quem dá entrada no hospital. Aqui existem os médicos da família. Você pode acessá-los e eles podem dar instruções ou ir até o paciente para avaliar. Até em casos graves eles pedem para esperar o médico em casa antes de ir para o hospital, porque há risco potencial de se tornar uma agente infectante andando pela ruas.

Existe uma expectativa de quanto tempo vai durar esse isolamento?

Enquanto eles não constatarem uma baixa de casos severos, que dependem de hospital e que levam à morte, acho que o governo vai manter um pouco mais o bloqueio da circulação de pessoas no País.

Como a sra.  se sente hoje?

Estou isolada, não posso sair do país. Parece que estou aqui há meses. Estava super acostumada a passear, ir para a praça, tomar um sorvete, pegar o trem no final de semana, ir para uma cidade perto e passar algumas horas. Moro sozinha, não tenho família aqui e os meus únicos contatos são praticamente os do trabalho. Psicologicamente é um desafio terrível. Estou estudando bastante o corona e isso ocupa bastante a minha cabeça. E, por ser cientista, entendo melhor a necessidade de fazer isso.

Está longe de se descobrir uma vacina contra o coronavírus ?

A previsão é de um ano. Sendo muito otimista, com tudo funcionando, em oito meses algum laboratório poderia lançar. Tem algumas empresas que estão trabalhando 24 horas por dia, e estão prometendo uma vacina por um tempo recorde de um ano. Para essa epidemia, essa vacina não será útil. Mas, se o vírus se instalar na população e se tornar uma coisa sazonal, então a vacina será útil para a próxima vez que a epidemia surgir.

Qual é o recado que a sra. daria aos brasileiros?

A mensagem principal é que, no começo, a gente não acredita que possa chegar onde chegamos. Depois, quando vemos que a nossa vida parando, percebemos a gravidade. O simples fato de eu abrir o jornal e ter antes uma página de anúncios fúnebres e, depois do vírus , dez páginas, mostra a dimensão do problema. Na hora que olhamos as fotos das pessoas que morreram e a quantidade de páginas de anúncios fúnebres dos jornais, vamos caindo na real de que não se trata de uma simples gripe. Todo mundo tem que fazer a sua parte individualmente, evitar sair de casa, se cuidar. Não subestimar a doença. O fato de as pessoas se manterem em casa é para que o vírus não se espalhe em um curto período de tempo para todo mundo e não sobrecarregue o sistema de saúde, que não vai aguentar.

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