WERTHER SANTANA/ESTADÃO - 11/12/2020
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Flexibilizar o uso de máscara é erro ou acerto? Especialistas analisam decisão

Governo paulista anunciou liberação da proteção facial em ambientes abertos a partir de 11 de dezembro

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2021 | 10h00

A decisão de liberar o uso de máscaras em ambientes abertos divide especialistas em saúde ouvidos pelo Estadão. Alguns acreditam que, apesar do aumento da cobertura vacinal no País e da melhora nos indicadores, a medida pode acarretar em aumento na transmissão do coronavírus. Já outros veem a flexibilização ao ar livre como um passo positivo, contanto que o uso seja mantido em ambientes fechados e a comunicação de risco seja feita de forma clara. O Estado de São Paulo vai relaxar a exigência da proteção facial em 11 de dezembro. Outros governos, como o de Santa Catarina, derrubaram essa obrigação esta semana. 

Diretor da Fiocruz SP, Rodrigo Stabeli reforça a importância de levar em conta que o coronavírus é um vírus de transmissão respiratória, sendo a máscara uma "importantíssima" barreira. "Em uma pandemia, a gente julga que a máscara é o primeiro item a entrar como combate e o último item a sair do rol das medidas preventivas", explica Stabeli, também professor de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Segundo ele, países que possuem a vacinação muito próxima ou até superior à do Brasil, como Portugal e Israel, retomaram a obrigatoriedade do uso de máscaras após alta no índice de casos. "A gente tem visto que a Europa é um grande espelho para nós: o que acontece lá, acontece aqui depois", comenta Stabeli. "A nossa vantagem, enquanto Sistema Único de Saúde (SUS), é que a gente conseguiu avançar significativamente na vacinação."

Stabeli acrescenta que, estando sozinho e mantendo o distanciamento de segurança, é "muito difícil" adquirir a doença, mas novas regras como a adotada por São Paulo podem causar outro tipo de consequência. "Em se tratando de medida de saúde pública, a gente sabe que o gesto pode promover aglomerações de pessoas achando que a pandemia acabou, e estamos no curso ainda da pandemia", diz o professor.

A infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Raquel Stucchi pensa de forma parecida. Ela explica que, embora o País assista a uma melhora nos índices da pandemia, a liberação das máscaras ao ar livre no momento que antecede a realização das festas de fim de ano pode acarretar em "explosão no número de casos".

"As máscaras ao ar livre, sem aglomeração, a rigor, não são necessárias. Mas a liberação pode fazer com que o entendimento das pessoas de quando usar máscaras fique da conveniência de cada um", diz ela. Ela defende que, se a flexibilização ocorrer, uma medida importante seria aumentar a quantidade de testagens. "O Brasil é hoje o 125º país em testagem da sua população. Isso é muito pouco. Talvez consideramos que a situação esteja muito boa porque não conhecemos a situação que no momento", diz Raquel.

Físico e pesquisador da Universidade de Vermont (EUA) Vitor Mori não vê a decisão de flexibilizar o uso de máscara ao ar livre em São Paulo como precipitada. "Muitos lugares no Brasil, e até fora dele, já adotaram essa medida com sucesso. A transmissão é predominante em espaços fechados, em que as partículas do vírus vão se acumulando e acabam sendo inaladas", explica o pesquisador.

Mori destaca que estudos indicam que menos de 1% das transmissões acontecem ao ar livre. Desse modo, seria melhor liberar sob essas condições do que afrouxar todas as medidas neste momento. "Há uma fadiga da população quanto às medidas, não dá para ficar exigindo o mesmo empenho do início da pandemia. Nesse contexto, vale mais a pena flexibilizar o uso de máscaras só em locais seguros do que 'liberar geral'", explica.

Experiência da Califórnia pode ser exemplo 

Para o epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) Pedro Hallal, a medida de desobrigar a utilização de máscaras em ambientes abertos também pode ser positiva. Ela cita, como exemplo, a experiência da Califórnia, nos Estados Unidos, em que a liberação já foi implementada e não acarretou em aumento de casos. "Acho que se São Paulo seguir na mesma linha, só exigir máscara em lugares fechados, ou então em grandes aglomerações, não vejo que vai ser um grande problema", aponta Hallal.

Médico do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) Márcio Sommer Bittencourt destaca que o mais importante seria ter uma comunicação efetiva, reforçando para a população que ambientes abertos são mais seguros que os fechados. "O maior risco é comunicar isso (a medida) e as pessoas entenderem que, como a pandemia está menos grave, não há a necessidade de fazer nenhuma outra medida de controle", explica o médico.

Já o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ubaldo Cesar Balthazar, enviou ofício ao Executivo estadual pedindo que o governo reconsidere o afrouxamento da exigência de máscara. A proteção facial, aponta o documento do dirigente universitário, é uma das mais importantes camadas de proteção. "Dispensar a máscara, mesmo em ambientes abertos e sujeitos, ainda assim, a aglomerações, é desproteger o indivíduo de uma medida barata e eficiente para redução da transmissão", aponta. 

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